Faça seu voto irrelevante

“Dai, pois, a César o que é de César…” e isso basta.

Passa-se o tempo e sempre volta a velha conhecida, chata ou, para alguns, insuportável campanha eleitoral. Nestes tempos, já é sabido por todos, surgem de suas tocas levas de interesseiros a sujar as ruas com a presença da falsidade e imundice. A poluição ganha lugar nestes dias, sonora, visual, física e moralmente.

O mote em tempos de realidade dinâmica e transformações intensas é apelar para as palavras inovação, renovação, juventude e mudança contando sempre para nós aquela velha história que o estigma da figura política por quase todos já se decorou, salvo os que há pouco chegaram ao mundo.

Tem ali duas facetas, a legião de hipócritas e aqueles bem intencionados que desejam e acreditam poder fazerem alguma coisa de fato pela sociedade, entre os quais fazem parte aqueles que pretendem juntar o útil ao agradável, isto é, querem contribuir, mas também não seria nada mal o bom salário que ofertam e o tipo de trabalho desempenhado. Com nenhum destes as palavras aventadas como mote por seus agentes de marketing ou assessores serão cumpridas tais como pretendem demonstrar, ou seja, como algo de sua iniciativa e controle.

A verdade é que não cabe a quem quer que seja auto afirmar ser a si mesmo o agente político que irá realizar mudanças se eleito “representante”, por meio “de sua luta”, por seus projetos e comportamento legislativo ou executivo, porque a democracia vista de modo mais amplo já é de qualquer forma mudança sem quaisquer distintos entre todas as pessoas, quanto mais se faça fora de delimitações institucionais-hierárquicas. Não cabe dizer que a democracia precisa de inovação colocando a si mesmo, ou a quem quer que seja como os únicos agentes capazes, os salvadores dispostos a fazer isto por nós — repito, ela já é a inovação. Não cabe prometer transformar situações através de sua intervenção. A rigor, quaisquer promessas são falhas — especialmente para um candidato (ainda não eleito) — uma vez que não se tem a menor noção do ambiente institucional com o qual se vai lidar, mesmo para aqueles que se reelegem, visto que os agentes atuantes serão outros e os relacionamentos também. Não cabe simplesmente dizer coisas tais como a que todos os candidatos (até que me provem o contrário) costumam dizer… “pelo fim das diferenças sociais”, “para a cidade mudar”, “pelo fim da crise”, “pelo fim da corrupção” e por aí vai.

Já o disse, numa democracia — e todo este texto apresenta uma reflexão — não cabe a inovação como ato controlado e pontual de um grupo ou de um indivíduo, a democracia em si já é propriamente inovação exercitada no conjunto dos coletivos, pelo conjunto daqueles que tem papel político, isto é, cada um de nós.

O que pode ocorrer e ocorre, contudo, é tentarem nos impedir de exercer este nosso papel político, primeiramente criando um lugar, um momento e condições certas necessárias a se cumprir para que se exerça a política fazendo-nos acreditar que o papel político pessoal só pode ser exercido pelo poder do voto, pela representação, e assim, de nossa parte, por uma terceirização deste papel. Determina-se uma data, de 4 em 4 anos em que todos sairão de suas casas para irem às urnas. Assim somos afastados da experiência política quanto mais nos sentirmos dependentes de governos e quanto mais nos sentirmos moradores de um mundo cujo qual não acredito ter eu qualquer tipo de influência sobre ele, pois tudo acontece sem que eu tenha parte nisso.

Seu papel político existe e é muito maior que o voto, que é apenas uma regra. Nosso papel político é individual e intransferível. Não se fecha, não se reserva a meios ou espaços determinados. Se faz no dia a dia, aonde quer que se esteja e se oportunize a partir das mais cotidianas relações. O exercício deste papel se dá na convivência com as outras pessoas. Isto é simples e óbvio, infelizmente insuficiente para muitos. Mas, tudo o que você faz no lugar que está agora causa impacto neste mundo proporcional.

Basta parar um instante pra pensar. Autorizada a temporada de campanhas, amanhece o dia com carros de som com jingles terríveis, repetindo quase “satânicamente”, “vote 666, vote certo, homem de coragem, honesto, pai de família, pra cidade melhorar”. Chega o último dia e todos desaparecem.

Então… você votou e cumpriu seu papel político? 
Então… este é o grande papel democrático de cada um de nós?

Votar não é o nosso papel político, tão pouco nosso poder democrático, bastando para isso lembrar que o presidente da Coréia do Norte, aquele que obrigou que todos os homens tivessem o mesmo corte de cabelo que ele, foi reeleito com 100% dos votos há uns anos. Então se voto é sinal de democracia, “deem um Oscar” para Kim Jong-un.

Curioso é que recentemente, por não poucas vezes, tem-se opinado que o Brasil passa por crise de representação. Um acontecimento muito marcante a este respeito foi a sessão de votação do impeachment de Dilma Roussef na câmara dos deputados, amplamente transmitida através das televisões e que colocaram os expectadores, independente de lados (na concepção dos que assim dividem), com a certeza de que não estamos representados no meio político de qualquer modo. Representação alguma ali, só se for teatral.

Contudo, a crise de representação não pode ser uma crise, e a razão é porque simplesmente não existe representação, e talvez nem possa existir, uma vez que você é insubstituível em sua contribuição política.

A essa altura, precisamos então perguntar: Qual então o papel do profissional político?

Já foi dito que o papel político individual se exerce na convivência social, mas o papel do profissional político vai além do papel político inerente à sua condição humana.

Seu papel principal e, assim, obrigação profissional não é, ao contrário do que comumente se acredita, o estabelecimento e cumprimento de propostas e promessas, a realização de ações pré-estabelecidas por ele e que traduzam os desejos do eleitorado. Não é, em suma, servir de agente para ações que as pessoas, que o público não pode participar por não pertencer — segundo as regras — ao grupo dos eleitos para se envolver, ou por ser considerado institucionalmente incapaz de se envolver, não! Seu papel enquanto profissional político em uma democracia, ao contrário disso é o de dar poder às pessoas de modo que elas estejam cada vez mais hábeis para exercerem seu papel político inerente. É empoderá-las para que elas vivam mais o cotidiano institucional político e tenham mais força de ação dentro do sistema. O agente político deve ser assim um catalisador que trás a população para dentro da instituição ao qual ele, como candidato eleito, se faz uma porta ou uma ponte. Ele pode fazer mais? Deve, uma vez que é bem assalariado para tanto. Mas não pode deixar de fazer isso, e se fizesse só isso já bastaria! Pode nos poupar de promessas inúteis se conseguir fazer com que a força de atuação e pressão dos coletivos seja maior lá dentro. Este o mínimo satisfatório e a essência da função.

E quem se posiciona assim nas campanhas políticas? 
Até hoje não vi nem ouvi falar de ninguém.

Para o candidato político que exercitará a política profissionalmente, isto significa não se desligar das pessoas quando acabarem as eleições, tão pouco se ligar nelas de tal modo suspeito, ao sinal de uma largada. Significa não se ligar somente àqueles que lhe renderam voto, tão pouco significa olhar ou trabalhar somente pela sua parcela conterrânea, mas por todas as pessoas.

Também significa inverter e transformar o comportamento de cobrança pelo qual alguns acreditam que o eleitorado tenha o dever de ir atrás do profissional político, para o reconhecimento de que é um dever do eleito se apresentar às pessoas, se relacionar e se envolver com elas, para que ambos atuem como agentes de análise das situações. Não significa mais assim representar puramente, mas associar-se como numa relação de sociedade, em que se tem numa empresa dois sócios lutando pelo sucesso do empreendimento. Um na linha de frente, outro na Gestão — embora neste caso esta posição é relativa, já que pode-se entender tanto o eleitorado como linha de frente, quanto o eleito.

Significa também, uma nova percepção cultural dos candidatos, no sentido de que deve-se pensar junto às pessoas comuns a produção de um projeto político fora das eleições, fora mesmo das candidaturas, à longo prazo. Neste sentido, considerando a regra vigente, a construção de planos políticos deve se iniciar antes que o candidato saia em campanha. Aqueles que querem se candidatar daqui há 4 anos, já devem se dedicar a formar coletivos espontâneos, não hierárquicos, para montar o plano futuro. Além disso, cada candidato e cada eleito devem trabalhar juntos, devem se ajudar, compor uma célula de interação e trabalho com a população e não se ver como uma partícula separada do todo — somos um só corpo.

Enfim, significa deste modo ressignificar a política que há muito tempo teve depreciado seu significado e produz na realidade entre as pessoas desconfiança, fragilidade e uma sensação há muito certa e pouco admitida de que estamos perdidos quanto à atuação política no Brasil.

A quem se permita admitir é fácil reconhecer a insatisfação e intimamente cada um de nós se vê nestes tempos buscando fortalecer sua postura política. Desta forma, procuramos de duas uma, ou nos envolver mais nesta política institucional avaliando melhor os candidatos, estudando e escutando propostas, pesquisando casos, ou nos afastamos deste sistema político institucional pela indiferença como posicionamento ao que ela está vendendo hoje. São duas posições positivas e que fazem progredir. Mas talvez o momento e tal situação esteja revelando como consequência desta e dos posicionamentos coexistentes então tal ressignificação necessária de uma política institucional e instrumental que já deu e já foi. Acredito que estamos caminhando para esta maturidade ainda vindoura, mas que já se iniciou. Só depende de começarmos a nos cientificar desta possibilidade menos passiva de atuação e mais ativa, política, social, para que o resultado cultural de nossas concepções em conjunto reconfigurarem o sistema a partir de tais demandas culturais.

É preciso, assim, repensarmos toda essa ideia de representatividade e permitirmos que a própria conjuntura se reformule por si mesma. Ainda não vivemos uma configuração política nova porque nós mesmos refreamos que se passe esse “velho modo de conduzir” quando servimos aos objetivos daqueles que vivem o poder, por exemplo ao hiper-valorizar o voto, as escolhas alheias, o que eles deixam de fazer, o que eles dizem e o que eles fazem. Como Etienne de la Boétie diz em seu texto Discurso da Servidão Voluntária, título ao qual já nos dá o que meditar, o governo é como uma fogueira que, alimentada pela lenha que nós mesmos colocamos, queima e perdura. Para apagar essa fogueira não é preciso nada mais do que cessar de alimentá-la, apenas não mais colocar a lenha. Se você não sabe como fazer isto na prática, faça o pouco que pode fazer que este pouco já é muito. Isto é, esteja consciente que sua influencia vai longe e passe uma mensagem com a sua vida. Sinta-se mais independente, valorize mais a atitude pessoal de constituir coletivos, valorize mais a atitude coletiva quando presente nas pequenas coisas.

A força do coletivo, das pessoas, a força social, cresce quanto mais adquirimos consciência das nossas condições de fazer muito no pouco, isto é, de exprimir em sua postura cotidiana um posicionamento ético e que se expresse com exemplos ainda mais do que com palavras, dando poder de uma influência profunda.

Uma das atitudes mais importantes neste sentido é a de cessar as guerras, isto é, abrir mão de converter pessoas ao “outro lado da força”, ao seu lado, compreendendo que não existem divisões distintivas num Corpo que o divida em dois corpos distintos, um corpo é um corpo composto por suas partes que, ausentes, não fazem deste um corpo pleno. Socialmente somos todos partes do mesmo corpo e de tal modo, não compete a nós a conversão de perspectivas, mas a aceitação que há outra visão melhor pelo ângulo do outro a que a minha diferente perspectiva deve coexistir. Infelizmente os políticos e a visão social sobre eles tem os isolado deste corpo social. Necessário uma mudança de mão dupla que os faça e que os veja também como parte deste corpo, pois eles o são, embora não se comportem assim.

Há uma outra atitude crucial que é a iniciativa. É quando uma pessoa decide se juntar a outras para realizar tarefas que são de obrigação do governo, mas que “pouco importa! vamos lá fazer assim mesmo!”. Isso tem acontecido de uma forma ainda muito tímida. Pessoas já se juntaram para revitalizar praças, escolas, ruas, já se juntaram pra plantar árvores na cidade, pra tampar os buracos de uma rua, pra dar aulas. Mutirões comunitários já viraram notícia algumas vezes na mídia, porém acabam caindo no esquecimento. O ponto é que as atitudes populares são vitais como um desprendimento do governo, mas precisam trazer consigo esta noção de que o problema do outro é também problema meu e de que um coletivo se faz olhando pelo outro.

O mais importante quanto ao que é necessário mudar agora, é a mudança cultural, é a mudança de concepção das pessoas. As atuações práticas vão ocorrer, e é fato que hoje o social tem muito mais capacidade de resposta do que ontem. Mas essa prática precisa nascer espontaneamente e para tanto importa que o conjunto de pensamento esteja afinado na ideia de que podemos agir por nós mesmos, pela força da rede social que formamos.

Poucos ainda percebem que toda esta conectividade dos tempos modernos segue fazendo da tecnologia algo como um exoesqueleto físico, um corpo material para ação social, para a expressão do social, e a manifestação social — essa expressão — é a coisa mais importante para “dispensar os serviços do rei”. Essa expressividade faz do coletivo força superior às instituições, uma vez que o conjunto auto-regulado de pessoas comuns é imprevisível e torna qualquer resistência institucional pequena para prever suas maciças movimentações, e pouco a pouco já surgem evidências de que as instituições estão sendo obrigadas a se adaptar ao comportamento social. Se observarmos, ainda não surgiram no mundo plataformas de engajamento que seriam capazes de traduzir melhor esta possibilidade à população. Ainda estamos na fase da conversação pura, com plataformas tais como Whatsapp, mas em breve esta modalidade de plataformas pode surgir.

Estamos num período em que há uma grande necessidade de se permitir que as coisas apenas fluam. A grande dificuldade é que “dar permissão” depende de dar acesso, de querer, de reconhecer e de se colocar “junto a”, de colocar-se aberto ao outro, o que implica em adentrar num caminho desconhecido para muitos. Neste sentido, os governos (com suas ramificações) tem sido muito frequentemente entulhos que entravam o fluxo. São importantes e é óbvio que dispensá-los por completo significaria caos. O ponto é que apesar de funcionarem bem já é visível formas melhores de fazer, uma vez que por vezes este mesmo governo atrapalha o simples decorrer da vida comum. E muitos de nós tem contribuindo a este travamento atuando como barreiras por não perceber que todos os dias quando o sol nasce, surge um mundo inédito à nossa volta em que somos, cada um de nós, os grandes protagonistas, assim, nesta peça, que o governo se torne o figurante.