Fake News não tem a ver com verdade nem jornalismo, tem a ver com poder

Verdade ou mentira importam menos que o viés de confirmação, mas o que importa mesmo é demonstrar poder

Donald Trump: especialista em usar Fake News como forma de poder e de conturbar o debate público, conforme mostrou Evan Puschak, o Nerdwriter. Crédito: Tom Pennington/Getty Images. Fonte: GeekWire.

As Fake News estão em todo lugar: no seu celular, nos perfis dos seus amigos nas redes sociais e, provavelmente, dentro da sua cabeça. Ninguém está imune a elas, e quanto mais você se acha impermeável, maior a probabilidade de alguma delas (e das pessoas que as criam e difundem) se aproveitar de você. A proximidade das eleições só reforça a urgência de uma solução, a necessidade de respostas rápidas. Mas será que realmente entendemos o problema?

Costumamos entender o problema das Fake News a partir da oposição entre verdade e mentira. O próprio nome do conceito traz embutido esse jeito de pensar. De um lado, teríamos as “News”, as notícias comuns, que se apoiam num compromisso de credibilidade: um pacto entre os difusores (em geral jornalistas) e os leitores de que precisamos alcançar os fatos, com a máxima objetividade possível. O lado, portanto, da verdade. Do outro lado, existiriam as Fake News, que distorcem deliberadamente, inventam o que quiserem e não se importam com “detalhes” como verificação ou responsabilidade pelas suas afirmações. O lado da mentira.

Essa maneira de entender o problema nos leva a uma solução que reforce o lado da verdade e enfraqueça o da mentira. Por exemplo, as agências de checagem. A rigor, elas não foram inventadas recentemente: as maiores redações do mundo — a revista New Yorker, por exemplo — tinham profissionais dedicados a conferir a apuração de seus jornalistas, para evitar imprecisões, erros ou colaboradores maliciosos. A credibilidade do veículo, seu principal ativo, estava em jogo, portanto era preciso verificar, verificar, verificar.

Logo da Agência Lupa, pioneira na mídia nacional em checagem. Fonte: Agência Lupa.

Mas é uma solução que tem limites, a começar pelos financeiros. A crise do mercado jornalístico levou a cortes de profissionais. Quem foi poupado precisou acumular funções. É quase impossível, numa situação dessas, manter a qualidade, ainda mais num ramo de negócios que vive em constante estado de alerta, de prazo urgente.

Outro limite dessa solução está na velocidade. Uma verificação minuciosa demanda tempo. É preciso apurar cada detalhe e checar se o problema está na distorção ou na invenção deliberada, na imprecisão ou na mentira sem vergonha. Muitas vezes, é preciso voltar às fontes e conferir as bases de dados, especialmente em Fake News que se aproveitam da interpretação falsa de números, tabelas, gráficos. Enquanto isso, porém, mais uma baciada de mentiras se espalha pela internet, e o trabalho dos verificadores recomeça, agora duplicado, triplicado.

O último limite está no próprio fundamento da discussão. Um limite filosófico. Ora, como diria Pilatos, o que é a verdade? Não precisamos voltar muito no tempo para encontrar exemplos de empresas jornalísticas que se aproveitaram dos limites nebulosos entre verdade e mentira a fim de defender seus interesses. Se eles fizeram isso, eles que deveriam selecionar as notícias reais, que deveriam impedir a proliferação de Fake News, que deveriam nos proteger, então em quem podemos confiar? Em resumo: quem vigia os vigilantes?

Mas e se a questão não for exatamente essa? E se, no fundo, uma grande parte das pessoas simplesmente não se importar que uma notícia seja verdade ou mentira? E se, parando para pensar, as Fake News não quiserem nos convencer, mas nos subjugar?

Thumbnail do vídeo “Why obvious lies make great propaganda”. Crédito: Vox.

Foi justamente isso que um vídeo recente do canal Vox discutiu. Chamado “Por que mentiras óbvias são uma ótima propaganda”, ele explora a eficácia das mentiras que Putin costuma contar, mentiras deslavadas, evidentes, escancaradas. A estratégia foi adotada também por Trump e parece ter chegado ao Brasil. Basicamente, o vídeo defende que essas mentiras não querem persuadir ninguém, pelo menos não diretamente. Elas são uma forma de mostrar poder.

Para ilustrar, o pessoal da Vox compara duas mentiras que tiveram graves consequências internacionais. Uma é de Dick Cheney, ex-vice-presidente dos EUA, para quem era certeza que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, a justificativa que deflagrou a Guerra do Iraque. Não tinha. A revelação desmoralizou o governo Bush, e por tabela também os jornais que embarcaram nessa mentira, como o New York Times. Com a credibilidade ferida, o jornal publicou uma autocrítica, reconhecendo seus erros.

Vladimir Putin. Crédito: Reuters. Fonte: Zee News.

A outra mentira é de Vladimir Putin. Em 2014, tropas russas invadiram a Crimeia, na Ucrânia, e o autoritário presidente russo simplesmente negou que fossem russas, apesar de todas as evidências. Depois, até admitiu que eram tropas russas mesmo, como se dissesse: “e daí?”. Parecia não importar que ele estivesse se contradizendo em tão pouco tempo — algo que Trump também faz, e que parece saído de 1984, de George Orwell.

O jornalista da Vox compara a mentira de Putin a uma cena entre dois colegas de trabalho. Um deles diz: você comeu meu sanduíche? E o outro, em vez de dizer algo plausível (por exemplo: “não, eu trouxe uma marmita de casa”), simplesmente responde: você não trouxe sanduíche nenhum. Educados para pensar que a verdade importa e que a mentira não leva a lugar algum, nós ficamos chocados, sem ação. Desorientados.

E essa é a ideia.

A jornalista russo-americana Masha Gessen. Crédito: Daniel Seung Lee/Out Magazine.

Quem explica a estratégia é a jornalista russo-americana Masha Gessen, entrevistada pela Vox. Ela aponta que, ao mentir de modo tão descarado, Putin obriga os jornalistas e seus opositores a provar que a verdade é a verdade. Há duas consequências importantes disso. Por um lado, ele mostra aos seus apoiadores que pode dizer o que quiser, não se submete a nada, muito menos à realidade. Por outro, ele força os jornalistas e opositores a repercutirem o que ele disse, nem que seja para negar, criticar, refutar. Submete-os à sua órbita. Nos dois casos, demonstra poder.

Isso evidencia outro limite da estratégia de checagem: sua ineficiência política. Se Putin (ou Trump, ou certo candidato brasileiro que toda semana tem uma mentira nova) não se importa com os fatos, não se sente constrangido por eles, e seus apoiadores também não, qual o sentido de checar? Se a verificação vai manter o mentiroso no holofote, repercutindo e assim fortalecendo a sua retórica, será que o tiro não está saindo pela culatra? Como usar fatos para brigar com quem acredita em “fatos alternativos”?

Claro que não se deve defender o simples abandono da verdade ou verificação dos fatos. Muito menos se deve defender um cinismo que proclamaria a verdade como inalcançável e, portanto, valeria tudo — sabemos que, numa situação dessas, só se beneficia quem já é beneficiado, quem sempre foi beneficiado, isto é, quem está no poder. Mas é preciso melhorar nossas estratégias, é preciso desenvolver respostas mais complexas e mais eficientes.

Num texto publicado pela piauí, o escritor Salman Rushdie defendeu que o combate às Fake News não se tornasse nostálgico, inventando um passado mítico em que as pessoas se importavam com a verdade factual, com a objetividade. Isso seria falso. Rushdie aponta, com razão, que a história e o significado dos fatos são construídos a partir das ações e interpretações dos homens, coletivamente: uma insurreição na Índia em 1857 foi vista pelos colonizadores ingleses como “motim”, enquanto os indianos, em especial depois da independência, a viam como uma “revolta”.

Salman Rushdie: “Não é minha intenção restaurar o consenso estreito e exclusivo [de verdade] do século XIX”. Crédito: Maxppp/Zuma Press. Fonte: Wall Street Journal

Isso não quer dizer que “cada um tem sua opinião”, como se a discussão acabasse por aí. Pelo contrário, é justamente aí que ela começa: no debate, na discussão, no embate — embate fundamentalmente político, pois diz respeito às ações e interpretações dos homens, construídas (e destruídas) coletivamente. Reconhecer a verdade, dizê-la, apenas, não basta; é preciso agir e lutar para que ela se estabeleça. Uma luta constante. Por isso, não adianta terceirizar essa disputa para as agências de checagem, para os jornais, para “escritores, pensadores, jornalistas, filósofos” (Rushdie).

A disputa é de todos nós, está aqui e agora: no seu celular, nas redes sociais dos seus amigos, dentro da sua cabeça. Ninguém consegue tirar o corpo fora quando todo mundo se tornou uma emissora de notícias, verdadeiras ou não. Deixar passar uma corrente mentirosa de Whatsapp, ignorar a proliferação de Fake News, é tomar uma posição política. É a que você defende?