Como o jornalismo deve responder ao problema da crise de legitimidade das notícias?

Eduardo Oliveira
Oct 12, 2017 · 7 min read

Quem nunca duvidou da veracidade das notícias divulgadas por um jornal? Nas sociedades complexas, as informações são interpretadas por uma multiplicidade de grupos autônomos, dotados de interesses diversos e conflituosos entre si. Em um cenário tenso, onde atores sociais disputam constantemente a realização política de suas agendas particulares, as notícias têm a capacidade de beneficiar ou prejudicar pessoas, de acordo com a interpretação.

Recentemente, até o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconhecido como homem politicamente mais poderoso do planeta, reclamou da imprensa de seu país, classificando as notícias a seu respeito como “fraudulentas”. A intensidade dos questionamentos sobre a veracidade das notícias chega ao ponto de revelar um traço comum em grupos políticos historicamente opostos. No Brasil, os dois grandes partidos políticos rivais entre si se encontraram na mesma posição de criticar a imprensa, sob a alegação de estarem sofrendo campanhas cujo objetivo seria o de “manchar” suas respectivas imagens. Em outra esfera, podemos situar os infindáveis conflitos entre policiais e traficantes, no Rio de Janeiro, onde ambos os lados acusam a imprensa de ser condolente com o opositor.

Nesse quadro, fica sinalizada a ausência de referências a partir das quais o cidadão poderia depositar alguma dose de confiança na imprensa. Diante dessa questão, podemos considerar o fenômeno “fake News” como a crise de legitimação do discurso jornalístico nas sociedades modernas. Mas se ajustarmos o foco de observação para a sociedade, podemos visualizar alguns caminhos para a compreensão do problema da gradativa perda de credibilidade do caráter verídico da informação jornalística.

Dois partidos e um traço em comum: o questionamento da veracidade das notícias que não interessavam

O questionamento dos valores é resultado do convívio de sistemas de crenças contraditórios, frequentemente criticados quando entram em conflito entre si. Nas democracias modernas, não existe a supremacia de uma versão ou de uma visão única de cosmos; as pessoas orientam suas vidas através de uma variedade de sentidos distintos. Isso é bem mais antigo que a sentença de Lyotard, de 1979, sobre a crise dos discursos dotados da pretensão de fornecer uma verdade definitiva sobre as coisas. Décadas antes, Weber identificou o politeísmo de valores como o contexto social onde pessoas confrontam suas versões de mundo, muitas vezes convictas de suas “verdades”.

A globalização em arranjos formados por sociedades de massas produz um movimento duplo inter-relacionado: de um lado, homogeneização e, do lado oposto, defesa das tradições locais. O modelo de pensamento ocidental perdeu a capacidade de impor a sua visão, antes hegemônica, pautada pela centralidade da razão, pela separação entre política e religião e pela primazia das liberdades individuais. A lógica ocidental se tornou alvo de críticas e, assim, atravessa uma crise de validez. Significa dizer que todo relato sofre o risco de ser confrontado por olhares particulares. Foucault declarou a complexa articulação entre aquele que diz e o exercício de um poder impregnado naquilo que se diz. Quem fala? Fala em nome de quem?

Uma das maiores contribuições no sentido de questionamento dos modelos narrativos hegemônicos foi dada pela antropologia. Ocorre quando os povos distantes, objeto das pesquisas antropológicas, passaram a ler e a questionar a versão dos etnógrafos sobre a sua própria cultura. A sociedade pesquisada, descrita na forma de um texto cujo autor pertence a outro sistema de crenças, apontava a insuficiência dos relatos produzidos a seu respeito, o que colocou em xeque a legitimidade das informações contidas nas pesquisas. Crise das posições e dos papéis entre o “sujeito” pesquisador e o “objeto” pesquisado.

Nas sociedades modernas, essa tensão assume a forma da crise da veracidade das notícias no jornalismo. O crescimento de grandes grupos de comunicação em escala global, somado a tendências como o direcionamento de assuntos de acordo com o interesse dos veículos, criou condições para o questionamento dos conteúdos das notícias nos grandes jornais. Bourdieu apontou, já nos anos 1970, o controle econômico e simbólico do jornalismo por parte dos grandes veículos de comunicação, os quais sofrem pressões pela conquista da audiência e pela lógica fabril das redações, cuja orientação consiste em produzir o máximo de informações em tempo mínimo. A dinâmica de circulação circular da notícia, na qual os jornalistas leem uns aos outros buscando não ficar para trás na corrida pela audiência, produz uma massa de informação pasteurizada, marcada pela repetição dos mesmos assuntos. Questiona a originalidade e a autenticidade das informações noticiadas, enquanto, paralelamente, cresce um movimento de valorização da informação local. A demanda por informações alternativas às versões dos grandes veículos aparece na forma de jornais comunitários e, mais tarde, associações, blogs e páginas de internet. Hoje, um simples vídeo gravado pelo celular é capaz de fazer desmoronar os conteúdos das maiores e mais bem elaboradas reportagens do chamado “grande jornalismo”.

A lógica de produção fabril, presente nas redações, representa uma ameaça a autenticidade, segundo Bourdieu.

Em meio a essa massa de informação plural, o jornalismo se faz reflexo de uma sociedade marcada pelos conflitos entre diferentes sistemas de crenças e versões de mundo. Enquanto os grandes jornais estão sujeitos a uma lógica comercial, cidadãos produzem conteúdos informacionais motivados por convicções culturais, políticas ou religiosas. No ambiente de uma democracia de massas, grupos difundem conteúdos ao sabor de suas preferências pessoais ou de classe, como aconteceu recentemente no Brasil de 2014 até os dias atuais. Uma eleição disputada palmo a palmo provocou o acirramento dos ânimos, de modo que boa parte da população esteve mobilizada no sentido de atuar em defesa de suas preferências. Instaurada a rivalidade, o país se viu dividido entre duas extremidades que se digladiavam apaixonadamente, de modo que toda notícia política se tornava alvo de acusações de favorecimento de um dos lados. Nesse ambiente, as convicções passaram a legislar sobre o princípio de objetividade e compromisso mínimo com a veracidade dos fatos, um evidente prejuízo para o jornalismo. Inúmeras informações se misturavam e se confundiam em meio a categorias como “factoides”, “intrigas”, “campanhas anti” e “ondas de denuncismo”.

Protestos pró e contra impeachment, contexto em que o país viveu uma enxurrada de acusações de fake news

Para além dos episódios recentes na política nacional, é preciso destacar a importância dos ganhos inerentes a esse contexto de pluralidade de valores. O desafio é criar condições para o diálogo entre sistemas de crenças diferentes entre si, em busca de estabelecer princípios de convivência pacífica. Essa crise no jornalismo é reflexo da crise das narrativas pretensamente totalizadoras, características dos grandes veículos de comunicação. Em claras palavras, um acontecimento não se esgota na forma de uma versão que se pretende totalizadora; está sujeito a olhares diversos, logo, a questionamentos sobre a sua veracidade. O desafio que o ambiente pós-moderno impõe é o de colocar toda notícia entre parênteses, isto é, sujeita ao desmoronamento provocado por olhares alternativos. Assim, nas sociedades plurais, todo conteúdo jornalístico está sujeito a ser acusado de “fake” pelo lado discordante. Instaura um ambiente de desconforto e insegurança diante das informações noticiadas.

A infinidade de informações em abundância gera um ambiente confuso, caracterizado por múltiplos posicionamentos morais e políticos. Sendo assim, o que esperar da produção jornalística na contemporaneidade? Pregar um retorno aos princípios de objetividade, diretriz que orientou trabalhos jornalísticos por décadas, corresponde a uma ingenuidade que despreza o senso crítico do público nos dias de hoje. Supor um texto capaz de se posicionar acima dos fatos e observá-los de certa distância pode denunciar o cinismo daquele que busca manter o status quo.

Então, o que nos resta como referência? O desafio é repensar o modo de produzir as notícias considerando a crise do pensamento representacional. Aqui, fico com a crítica de Richard Rorty: não existe verdade fora de contexto ou independente de um ponto de vista. Toda verdade dos jornais é uma verdade parcial; ainda que reúna todas as versões envolvidas sobre determinado acontecimento, essa combinação de versões ainda constitui uma parcialidade, pois o material está sujeito a edições e a ordens sequenciais de arrumação do texto. Então, seria o caso de correr cada um para a sua trincheira e defender suas convicções, admitindo o triunfo das paixões sobre a racionalidade? É preciso anotar os efeitos perversos contidos na proposta de renunciar a racionalidade em nome das paixões e vontades, como defendem alguns pensadores pós-modernos. Novamente, fico com Rorty: podemos relativizar e desmontar as verdades, mas sem abandonar os ideais humanistas do iluminismo.

Democracia, justiça, tolerância e solidariedade são princípios inegociáveis nesse cenário de conflitos apaixonados entre as diferenças. Uma postura franca do jornalismo contemporâneo precisa admitir a relatividade contida na “verdade” que produz e reconhecer a incapacidade de lançar versões objetivas de determinado assunto, diante de uma sociedade marcada pelo pluralismo. Trata-se do primeiro passo rumo ao reconhecimento de certa sinceridade editorial capaz de conduzir o leitor a um terreno minimamente firme de informações confiáveis.

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