Fake News ou não, você vai compartilhar

75% dos brasileiros sabe que está compartilhando mentira e não se importa

Mês passado, quando a principal pauta das redes sociais era a candidatura de Lula, você deve ter visto serem anunciados como vices do ex presidente: Pabllo Vittar, Ronaldinho Gaúcho, Gregório Duvivier e até mesmo, em uma brilhante montagem, Jair Bolsonaro. Se bobear, o peladão do museu não escapou e apareceu em alguma Fake News das brabas.

Com a exceção de Pabllo, que gente desprovida de hemisfério racional no cérebro realmente cravou como segundo no poder, todos os outro nomes são sabidamente galhofas desde o princípio. A verdade faz parte de um cenário maior, apontado por Noam Chomsky. Quando o linguista afirma que “as pessoas já não acreditam nos fatos” ele nos revela um lado ainda mais sórdido das mentiras espalhadas por aí. Pouco importa se Marielle não era esposa de bandido, quem odiava a sua filosofia de vida continuou disseminando inverdades para degradar a deputada. Até quem não precisa de muito esforço para ser difamado é alvo constante de Fake News. Jair Bolsonaro é o maior exemplo disso. O parlamentar ostenta um currículo lamentável na câmara e não perde a oportunidade de se afundar em discursos de ódio, mas nem por isso, compartilhar vídeos editados ou colocar mais palavras na boca do candidato à presidência é louvável.


Compartilhar lorota e calúnia não é fenômeno da era Mark Zuckerberg. No final da Segunda Grande Guerra, tinha alemão negando o holocausto como alguns brasileiros negam a ditadura. Tinha russo colocando na conta do Terceiro Reich crimes cometidos sabidamente por vermelhos (leia sobre KATYN). E claro, americano creditando a reconquista da paz somente ao exército do Capitão América.

Curioso também é o fato deste longínquo tempo voltar à tona no embate direita e esquerda atual. O lado extremo de cada oposto compartilha inverdades para beneficiar sua causa, sem nenhum remorso. Se por um lado, a ala leste se apoia em argumentos pífios de que nazismo era socialista porque tinha socialista no nome, ala oeste camufla o Stalinismo, a fome na Ucrânia e outros dados facilmente validados em livros ou estudos sérios.


Ninguém está a salvo neste tempo nefasto. Nem a bíblia, que ganha uns versículos a mais constantemente. Nem Jesus, que aparentemente gosta de bandido morto em alguns sermões. Nem mesmo o demônio, frequentemente acusado de pactos com políticos, rock-stars e até cantora de música infantil. Veja, se até o pai da mentira é alvo de mentira, estamos todos perdidos.

A mentira é safa, como Al Pacino cita no filme Donnie Brasco: “Um cara esperto está certo, até quando está errado.” Essa é a lógica por trás da estratégia de Roger Stone para eleger Donald Trump, por exemplo. O lobista conquistou americanos conservadores com uma campanha de difamação risível contra Hillary e Bill Clinton. Acusações de pedofilia, conspirações, orgias e tudo que os ouvidos mais rednecks gostariam de escutar. Vale ressaltar aqui que não se trata apenas de ludibriar um público fanático; muitos obviamente sabiam que o mantra "America Great Again" era envolto em fake news. Mas, nessa hora, difamar um inimigo é algo sedutor e a tentação demoníaca é difícil de resistir. Desculpe Lúcifer, mais uma para a sua conta injustamente.

Longe de algo paranormal, a mentira é um recurso humano usado desde muito antes das Cruzadas, quando pilhagem era revestida de causa divina. Ela está naquele documentário que promete encontrar o Pé Grande do Discovery ou no encontro entre alienígenas e colonos americanos do History. Está na especulação de que a vizinha tem um amante, no caso do ator que você insiste não sair do armário. Em um discurso de salvador da pátria compartilhado apenas para satisfazer a vontade de alguém portar armas. Em estatísticas que beiram o absurdo mas agradam suas convicções. E, claro, no saudosismo de bradar que no seu tempo não era assim, que vivíamos flutuando em nuvens de segurança e a desonestidade foi invenção do PT.

Atire uma pedra quem nunca compartilhou Fake News sabendo a verdade. Não importa se você se considera cidadão de bem, no mínimo, já defendeu um amigo sabendo que estava errado ou justificou aquela frase do seu candidato como fora de contexto. Ou, por que não, espalhou aquele dado do Instituto do Seu Tio Cirilo para medir o sucesso da sua convicção política.

Dados e estatísticas, aliás, são os mais sujeitos a serem espalhados como verdades universais mesmo sendo completas falácias. Um exemplo foi essa porcentagem do subtítulo que inventei hoje, às 8:15 da manhã.