Fazendo as malas pra ficar

Na trilha da sua vida, o que você decide colocar na bagagem?

Rodrigo Teixeira
Aug 22, 2017 · 5 min read
Photo by Erwan Hesry on Unsplash

Organizar bagagens é um exercício de futurismo. Especialmente se você vai passar muito tempo fora. As malas vão ficando perigosa e proibitivamente enormes, as companhias aéreas não costumam ser clementes com o excesso de peso, e você tem um ano inteiro para tentar adivinhar o que vai usar.

Como alguém pode saber que roupa vai querer colocar no dia de uma festa que pode ou não acontecer, em um lugar que você não conhece, de dia ou de noite, no calor ou no frio, com gente que você ainda não conhece?

Ninguém quer levar o pulôver pro Caribe, nem a sunga pra Aspen, mas vai que chove paca na praia? Vai que tem uma piscina aquecida no meio da neve? E o inesperado?

No fim, não é uma equação que se fecha com facilidade. Provavelmente você vai recorrer à loja mais próxima para complementar aquilo que faltou, e com certeza aquela cueca de seda vermelha que você achou que seria matadora vai ficar no fundo da mala, esperando um momento certo que nunca vai acontecer.

Cada um faz o melhor que pode. E ainda que nossas previsões sejam mais furadas do que as de uma cartomante com lambe-lambe em poste, isso é melhor do que pagar o excesso de bagagem. Ou do que viajar sem nada nas mãos.

Eu me pergunto se essa ginástica das roupas e utensílios deveria ser aplicada nas nossas emoções, aos nossos pensamentos e atos. Talvez devêssemos abrir nossas gavetas e decidir o que vamos carregar e o que vamos deixar, porque afinal de contas, parados ou em movimento, querendo ou não, estamos, todos, numa viagem pelas nossas próprias vidas.

Se eu fosse arrumar essa mala, eu começaria levando paixão. Separar nossas paixões, e perceber quais delas são reais, e quais são apenas frivolidades que vão e vêm com o tempo. Quais delas são simples vontades travestidas. Levar somente aquelas que ardem mesmo. Porque sem paixões, a vida vai perder a cor, e não importa onde estivermos, vai parecer cinza.

Tem que separar uma quantidade adequada de julgamento. Pra usar só se precisar. Alguns elevados dirão que não se deve julgar. Mas julgamento é sinônimo de juízo, e a sabedoria das mães sempre fez questão de pontuar que não se pode viajar sem juízo. É o julgamento das situações, locais e pessoas que vai nos tirar de vários apuros da vida. Só não leve demais, sob pena de nos tornamos aqueles chatos que julgam o tempo todo, e que nunca usam essa quantidade enorme de julgamento em sí próprios.

Raiva. Os mais sábios dizem que não devemos ter. Mas, muitas vezes, se tirarmos a raiva de nossas vidas, o que nos sobra? Se não pudermos mandar alguém pro inferno de vez em quando, que lugar no mundo nos sobra, além da Vila dos Smurfs? Temos sangue em nossas veias. Se levamos paixões, precisamos levar raiva. Raiva pra seguir em frente. Raiva pra provar pra nós mesmos que merecemos. O problema é que raiva geralmente vem em novêlos grandes, misturados com ódio. Se enrolam e se perdem um dentro do outro. Se transformam, se replicam. É melhor fazer uma sessão criteriosa de pente fino neste emaranhado. O ódio, todos sabem, não vai nos levar pra lugar nenhum.

A coisa mais inútil que alguém levará para qualquer jornada é o rancor. E esse existe em grandes quantidades. Se deixar um pouquinho na mala, é possível que ele se multiplique sozinho lá dentro, tipo um Gremlim. Caminhar levando rancor dentro de si é o equivalente a fazer uma longa trilha com a sua própria fossa sanitária nas costas, só pra mostrar pra todo mundo que é capaz. Você vai carregar um peso que só vai aumentar com o tempo, e inevitavelmente, nos momentos mais difíceis, a tampa não vai conseguir conter o que está lá dentro, e vai respingar, adivinha, em você mesmo. Rancor é tentar atacar os outros com esterco mole. Muito mais do que você joga fica em suas mãos. É o sentimento mais idiota pra se carregar.

Carência. O manual do indivíduo moderno diz pra não levar. Seria fraqueza, e teoricamente, ninguém gosta de um sujeito fraco. Se levar, é melhor esconder. Deixar embaixo de tudo, não passar a mão por ela. Mas quem conhece a si próprio se não sabe quais são suas carências? Quem pode distinguir um abraço sincero de um bobo ou falso, se não for aquele que te preenche as lacunas? Quem sabe se alguém é um amigo se ele não te dá e pede colo quando precisa? As carências são tipo puns e arrotos. Comuns a todos os seres, mas não é por isso que você sai mostrando pra todo mundo, nem tendo orgulho. Leve poucas. Cuide delas. Escolha quem vai vê-las.

Leve resiliência. Grande parte da vida é vivida sobre águas revoltas e ares turbulentos. Não tem como escolher. Muitas vezes, pra chegar onde queremos, o caminho é assim. Somos jogados, sem dó, pra lá e pra cá. É preciso ser flexível, maleável, para não quebrar. É preciso saber cair pra saber levantar. Mas cuidado (e eu estou falando com você, Rodrigo), quem dobra demais, no fim pode ter é ficado mole. Por isso é bom ter limite. Ninguém pode andar tanto tempo sem um machucado aqui, um roxo ali. Quebrou? Aprende, espera. Retorna.

Aviso: existem coisas importantes, que não podemos deixar na gaveta, mas que não precisam estar na mala. Sem querer ser piegas, mas o amor (próprio e pelos outros), o perdão, a simpatia, a compreensão, e vários desses sentimentos que aparecem nos poemas e músicas não precisam de espaço. Não pesam. Na verdade, eles estão mais para balões coloridos de hélio, que a gente carrega amarrados aos pulsos. Podemos carregar quantos quiser, não vão atrapalhar. De vez em quando a gente encontra uma pessoa que coleciona milhares deles. São aquelas que parecem ter luz própria. Mas na verdade é só o reflexo desses sentimentos nos rostos delas. São pessoas raríssimas, que estão sempre em paz, e depois que os deixamos, temos a sensação de que eles vivem flutuando, alguns centímetros acima do chão. Ninguém carrega esses sentimentos. São eles que nos puxam.

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Rodrigo Teixeira

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Designer e desenhador. Apaixonado por filmes, séries, quadrinhos e livros. Sommelier de bolacha de maizena.

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