Felicidade não tem futuro

Nada é tão vago como a ideia de felicidade, como afirma o filósofo francês Pascal Bruckner, para quem a vontade constante de felicidade é própria do Ocidente, após as revoluções de bases iluministas. Em sua obra A euforia perpétua, Bruckner explica que a partir do século XX, a felicidade se tornou o único discurso possível, o objetivo de vida que pode ser construído e que depende apenas de vontade.
Nosso projeto de felicidade, no entanto, explica o filósofo, é espetacular e de consumo. “Qualquer que seja a situação, acidez estomacal, dia de chuva ou dinheiro escasso, ser feliz é uma obrigação com os outros”. A circulação de imagens de realização nas redes digitais é prova disso. Queremos não apenas sermos felizes, também é preciso parecermos felizes. Registrar a felicidade.

Aliás, se pensarmos que a fotografia surge exatamente do anseio de congelar o momento, para que ele seja efetivamente sentido, tal como afirma Leo Charney, em O Cinema e a Invenção da Vida Moderna, a superexposição de imagens de felicidade revela o lado perverso dessa euforia: no contemporâneo, não há lugar para exibição da tristeza.
No projeto ser feliz, não cabe mostrar os infortúnios da vida. É uma forma de “sociabilidade gentil”, diz Bruckner, já que ninguém sabe exatamente o que fazer com a dor. Quando a religião perde sua função de encaminhar o sofrimento, e passa a ser promessa de prosperidade no capitalismo [que materializa todos os domínios da vida], “a infelicidade se torna fracasso de felicidade”.
Reduzida ao domínio das experiências prazerosas que podemos consumir, a felicidade nos parece, assim, alcançável. A metáfora da liquefação de Zygmunt Bauman, é, portanto, atual. Essa felicidade é como líquido que esvai-se, não tem forma e nunca se basta.
Acontece que felicidade é instante. Não se materializa. É possível apenas como fenômeno episódico, como afirma Freud, em O Mal- Estar na Civilização. Felicidade é liberação de instintos, reside na despreocupação. Por isso, somente experimentamos a felicidade no domínio do estético. Podemos senti-la, mas jamais retê-la.
“A aspiração moderna para apreender momentos fugazes de sensação, tal como proteção contra sua remoção inexorável é tarefa que jamais será bem-sucedida”, explica Charney. Daí porque nosso esforço para que a felicidade perdure é inútil.
Se existe uma maneira para lidar com a condição fatídica da felicidade é não dar muito importância a ela, orienta Bruckner. De acordo com o filósofo, não devemos procurar felicidade, nem lamentar sua perda. O que temos, rotineiramente, são momentos de alegria e muitos outros de tristeza. Felicidade pode acontecer, mas só a reconhecemos quando a vemos partir. Já que só se é feliz na inconsciência de sê-lo.
Também não podemos confundir amor com felicidade, alerta Freud. Amor supõe sacrifício, renúncia, dependência. Supõe ainda sofrer pelo Outro. Ser feliz está mais para paixão, que é verdadeira cegueira de felicidade. Sendo paixão, felicidade é sempre passado, não conhece tempo presente, e não tem futuro, como toda felicidade que se preze.

