Empoderamento feminino NÃO é sobre vagina

Ana Paula Fernandes
Jul 31 · 9 min read
Patriarcado|Feminismo Liberal

Um vídeo do TEDx Talks sobre empoderamento feminino passou na minha timeline. TEDx Talks tem um peso e fui dar uma olhada. Logo de cara já revirei os olhos com o titulo:

O empoderamento feminino precisa passar pela vagina

QUE?!

Mesmo com esse título transfóbico, fui ver e, obviamente, passei bastante raiva. Porém, precisamos falar do feminismo liberal, presente em toda a fala da Carol Teixeira.

Vou fazer por tópicos porque acho mais fácil e melhor de organizar as reflexões.

1. Sobre matriarcado

Cena de La casa de papel

Ela começa dizendo que viveu em um matriarcado dentro de casa e que no começo teve dificuldade de entender o feminismo, já que ela era rodeada de mulheres desde sempre e que foi criada para poder tudo. Então, vejamos, ela podia tudo, menos saber o que é machismo. 🙄

Precisamos entender que:

Matriarcado não é o mesmo que feminismo.

Na definição da Wikipédia:

Matriarcado seria um sistema social no qual a mãe ou a mulher exerce autoridade absoluta sobre a família ou um grupo; por extensão, matriarcado, também pode ocorrer quando uma ou mais mulheres (como num conselho) exercem poder sobre uma comunidade.

Por que homens tem dificuldade de entender o feminismo? Porque eles vivem em uma sociedade patriarcal, onde o pai e ou o homem exerce autoridade absoluta sobre a família e ou um grupo.

Então vamos começar a reflexão aí,

matriarcado não é igual a feminismo.

2. Sobre feminismo

Feminismo inclui todos os gêneros

A coisa mais importante que temos que entender sobre feminismo é:

Feminismo não é sobre igualdade, é sobre desmontar a hierarquia de sexo/gênero, e a dominação patriarcal. É sobre anarquia*.


*Sobre Anarquia

Na Wikipédia temos a definição:

Anarquismo é uma ideologia política que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação, seja ela política, econômica, social ou cultural, como o Estado, o capitalismo, as instituições religiosas, o racismo e o patriarcado.

Na definição do dicionário Michaelis:

1. Sistema político e social baseado na negação do princípio de autoridade governamental.

Bom dia, menina, o chefe da família está?/Nesta família não há chefes. Somos uma cooperativa. (Mafalda por Quino)

Anarquia, diferente do que a maioria das pessoas pensam, não é o caos reinando. É sobre ninguém dominar ninguém, é sobre não hierarquia, é sobre autonomia, que é diferente de independência. Indico um vídeo da Ana Leite sobre essa diferença:

Anarquia também não tem a ver com liberdade. Liberdade, ao meu ver, é supervalorizada.

Acho bem importante refletirmos o que é liberdade. Eu vou começar mostrando o que disseram alguns pensadores reconhecidos pela academia caucasiana eurocentrada:

Marx:

Entende a liberdade humana como a constante criação prática pelos indivíduos de circunstâncias objetivas nas quais despontam suas faculdades, sentidos e aptidões (artísticas, sensoriais, teóricas…). Ele, assim, critica as concepções metafísicas da liberdade.

Para ele, não há liberdade sem o mundo material no qual os indivíduos manifestam na prática sua liberdade junto com outras pessoas, em que transformam suas circunstâncias objetivas de modo a criar o mundo objetivo de suas faculdades, sentidos e aptidões. Ou seja, a liberdade humana só pode ser encontrada de fato pelos indivíduos na produção prática das suas próprias condições materiais de existência.

Desse modo, se os indivíduos são privados de suas próprias condições materiais de existência, isto é, se suas condições objetivas de existência são propriedade privada (de outra pessoa, portanto), não há verdadeira liberdade, e a sociedade se divide em proletários e capitalistas. Sob o domínio do capital, a manifestação prática da vida humana, a atividade produtiva, se torna coerção, trabalho assalariado; as faculdades, habilidades e aptidões humanas se tornam mercadoria, força de trabalho, que é vendida no mercado de trabalho, e a vida humana se reduz à mera sobrevivência.

Descartes:

Para ele, age com mais liberdade quem melhor compreende as alternativas que precedem a escolha. Dessa premissa, decorre o silogismo lógico de que, quanto mais evidente a veracidade de uma alternativa, maiores as chances de ela ser escolhida pelo agente. Nesse sentido, a inexistência de acesso à informação afigura-se óbice à identificação da alternativa com maior grau de veracidade.

Espinoza:

A liberdade possui um elemento de identificação com a natureza do “ser”. Nesse sentido, ser livre significa agir de acordo com sua natureza.
É mediante a liberdade que o Homem se exprime como tal e em sua totalidade. Essa é também, enquanto meta dos seus esforços, a sua própria realização.
Tendemos a associar a fruição da liberdade a uma determinação constante e inescapável. Contudo, os ditames de nossa vida estão sendo realizados a cada passo que damos: Assim, a deliberação está também a cargo da vontade humana (na qual se inserem as leis físicas e químicas, biológicas e psicológicas).

Diretamente associada à ideia de liberdade, está a noção de responsabilidade, vez que o ato de ser livre implica assumir o conjunto dos nossos atos e saber responder por eles.

Acho importante notar que todos eles falam direta e indiretamente sobre estrutura de poder, e que isso limita radicalmente a liberdade de cada um.

Em uma sociedade machista, racista, capitalista e LGBTfóbica, falar de liberdade sem falar de estrutura de poder chega a ser negligente.

Por isso digo que anarquia também não tem a ver com liberdade.

Se eu pudesse resumir anarquia em 3 pontos, seriam:

  • Não hierarquia
  • Autonomia
  • Responsabilidade afetiva

Vertentes Feministas

Sabrina Fernandes do canal Tese Onze, fez um vídeo sobre algumas vertentes do feminismo:

E em julho desse ano (2019) fez um vídeo com a Cinzia Arruzza, uma das autoras do livro Feminismo para os 99%: Um manifesto, falando sobre o feminismo de classe, e nisso elas elucidaram muito bem como funciona o feminismo liberal.

Sabrina também fez uma thread no twitter bem importante sobre o feminismo liberal na prática:

Nancy Fraser escreveu um ótimo texto sobre feminismo e o capitalismo:

Se antes feministas criticavam uma sociedade pró-carreirismo, agora aconselham as mulheres a se envolver mais nas carreiras. Um movimento que antes priorizava a solidariedade social e agora celebra empreendedores femininos. Uma perspectiva que antes valorizava o “cuidado” e a interdependência e agora encoraja o crescimento individual e a meritocracia.

Atrás do deslocamento, reside uma mudança profunda da natureza do capitalismo. O capitalismo administrado pelo estado do período pós-guerra cedeu o lugar a uma nova forma: capitalismo “desorganizado”, globalizado, neoliberal. O feminismo de segunda geração que emergira como crítica do primeiro se tornou a empregada do segundo.

Bruna de Lara também escreveu um ótimo texto sobre o feminismo de mercado:

Resumir o feminismo a “querer ser dona da sua buceta”, além de excluir as mulheres trans, é reduzir um movimento político de mais de 130 anos a uma mera noção individualista de “empoderamento”.

No meu texto sobre Sexo casual também ser relacionamento, eu escrevi:

A gente vive numa sociedade onde a liberdade sexual é demonizada, porém apenas para mulheres. A liberdade sexual do homem é protegida e hierarquizada, já a mulher não tem esse direito (até porque mulher nem é gente, né!). Então, temos duas forças hierarquizando o sexo: a liberdade sexual dos homens que já existia, e a liberdade sexual feminina, que foi e ainda é muito demonizada.

O feminismo veio com muita força para com esse tema, hierarquizando ele de tal forma que liberdade sexual das mulheres se tornou um contra mito da demonização sexual feminina. E isso é muito problemático porque é trocar 6 por meia dúzia. É querer lidar com o sexo da mesma forma escrota que o homens lidam. É largar a responsabilidade afetiva em prol da liberdade abusiva e opressora.

3. Sobre Femismo

No começo da palestra, Carol diz que tudo ao redor dela era com mulheres, que a empresa da mãe era só com mulheres, e que até rolou de um cara trabalhar lá, mas ele foi completamente excluído.

Isso não é feminismo.

Isso é olhar para o próprio umbigo e não entender o conceito do todo dentro do micro. É não entender que feminismo é sobre o social e não uma sociedade apenas de mulheres onde homens são excluídos. Isso é femismo, que esse sim é o oposto do machismo.

4. Ter vagina NÃO é igual a ser mulher

Ilustração de Manu Cunhas

O discuso centralizador do poder feminino na buceta é transfóbico. Em pleno 2019 a gente tem lembrar que

ter vagina NÃO é sinônimo de ser mulher.

5. Empoderamento

Arte de Cecilia Ramos

Maciana de Freitas e Souza escreveu um texto sobre o livro O que é empoderamento? da Joice Berth, que diz:

… o que se deve ter em mente é que o empoderamento individual na perspectiva freireana é importante, mas que ele seja fundado numa percepção crítica sobre a realidade social para a construção de ações práticas na realidade concreta, pois sem se contrapor a ordem vigente não há empoderamento efetivo. Por isso assinala Berth que “(…) quando assumimos que estamos dando poder, em verdade, estamos falando na condução articulada de indivíduos e grupos por diversos estágios de autoafirmação, autovalorização, autorreconhecimento e autoconhecimento de si mesmo e de suas mais variadas habilidades humanas, de sua história, principalmente, um entendimento sobre sua condição social e política e, por sua vez, um estado psicológico perceptivo do que se passa ao seu redor” (2018, p.14).

A nossa formação dependente, com sua economia escravista, trouxe diversas implicações socioeconômicas, políticas e culturais para a população negra. Nesse sentido, há uma manutenção das estruturas hierárquicas que legitima essas opressões. Desse ponto de vista, empoderar-se, para Berth, “(…) é um instrumento de emancipação política e social”, enquanto prática de transformação não somente subjetiva, mas essencialmente de caráter coletivo com vistas a possibilidade de direitos e autonomia dos sujeitos.

Por uma grande coincidência,

há poucos dias, Lola Aronovich escreveu um texto que bate exatamente com essa questão tão centralizada na vagina, e fazendo questionamentos sobre o que é o feminino.

As políticas pós-identitárias no feminismo e políticas queer apontam para um novo entendimento do feminismo. Não mais pautado em responder quem de fato seria a mulher do feminismo (cis, branca, hétero etc), criam-se novas maneiras de se pensar a política. Se comumente entendemos a política a partir de critérios de identidade, representação, unidade e universalidade, esta fica confinada a práticas institucionais, o que faz com que seus sujeitos careçam de imaginação política para romper com a lógica prescrita.

Como pensar a ação política fora da premissa identitária e quais as consequências disso? Como colocar os corpos em assembleia senão por um ideal identificatório? Essas são questões que há muito interessam a filósofa Judith Butler, cujo livro Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade é um marco no feminismo e estudos queer.

Para fechar com chave de ouro,

indico um episódio do podcast Nonacast, onde ela, Nona, fala sobre feminismo liberal e a implicações sociais. Menos de 8 minutos, dá um play:

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