Feminismo, relações livres e relações monogâmicas: algumas problematizações

Especialmente sendo mulher e se relacionando com homens, é preciso problematizar as relações amorosas. Meu interesse pelo estudo do amor e das relações amorosas surgiu quando li Crepúsculo (pois é, galera, desculpa). Lembro de ficar chocada que aquele controlador abusivo neurótico do Edward era considerado um PRÍNCIPE, um protótipo de homem perfeito. Pra quem não sabe, o vampiro pseudo-adolescente tem uns comportamentos bem questionáveis: está sempre protegendo a Bella de tudo como se ela fosse uma incapaz, invade o quarto dela sem que ela saiba pra vê-la dormir e, em certa ocasião, quebra. o. carro. dela. pra que ela não vá visitar o amigo lobisomem, porque isso seria perigoso. ***ALERTA RELACIONAMENTO ABUSIVO***. Porém, muitas mulheres leram isso e acharam ROMÂNTICO. Foi aí que comecei a estudar amor romântico e aprendi muito sobre como o amor romântico é machista e controlador em absolutamente tudo e como as relações que se pautam nesse tipo de amor são potencialmente abusivas.

Conforme fui estudando tipos de amor e relações, cheguei a essa ideia de poliamor, sobre a qual já escrevi aqui. Foi um momento eureka pra mim, pois achei evidente que as chamadas relações livres são mais democráticas e, por isso, menos potencialmente abusivas e mais satisfatórias para as mulheres. Mas sabe como é feminista, não larga uma problematização — ainda bem. E aí que, de uns tempos pra cá, tornou-se muito comum no feminismo, especialmente o radical, problematizar as relações poliamorosas. Vou listar abaixo algumas críticas comumente feitas ao poliamor e, em seguida, tentar explicar por que as enxergo de outra forma.

Críticas comuns ao poliamor e por que não é bem assim

CRÍTICA: Como os homens sempre puderam se relacionar sexualmente com quem bem entendessem sem serem julgados e muitos fazem isso sem conhecimento e consentimento da parceira, ter uma relação aberta seria só continuar fazendo a mesma coisa. A diferença seria que agora a parceira saberia e “autorizaria”, mas apenas porque se sente pressionada a isso.

POR QUE NÃO É BEM ASSIM: A grande diferença entre relações em que homens traem à vontade e relações abertas não é uma “autorização” da pessoa com quem eles namoram. A diferença está no DIÁLOGO e na HONESTIDADE. Ou seja, as práticas desse relacionamento partem de um acordo do casal. Se o cara sai fazendo tudo como bem entende e a moça respira fundo e se esforça pra não surtar e perdê-lo, tudo errado. Isso não é poliamor, isso não é uma relação livre, muito pelo contrário. Nenhuma forma de relacionamento funciona se uma das partes é pressionada a aceitar algo ou se submete ao que não quer pra ao menos manter o namorado. Isso é se anular, isso é aprisionador. Fujam.

CRÍTICA: Em muitos relacionamentos abertos, é só o homem quem se relaciona com outras pessoas e a mulher, quando muito, só “tem permissão” de se relacionar com outras mulheres.

POR QUE NÃO É BEM ASSIM: Primeiro de tudo, um casal que tem um relacionamento aberto não está em uma disputa. Se só o homem sai, porque ele por acaso tem mais vontade, disponibilidade, condições e a mulher não se incomoda com isso, que sejam todos felizes. Se só o homem sai e a mulher acha isso um problema, é importante avaliar por quê: se for porque sente essa necessidade de disputa, talvez um relacionamento aberto não seja a melhor opção para o casal, pois o princípio da coisa já saiu do lugar. Se os dois saem com outras pessoas e o homem não gosta, moça, seu namorado é machista e, se ele não está aberto a desconstrução e a respeitar a sua liberdade como você está se dispondo a respeitar a dele, ele não serve pra você. Se os dois saem com outras pessoas, mas o homem só fica de boa quando a namorada sai com outras mulheres, mas tem ciúme de homens, moça, seu namorado também é machista e está te deixando ficar com mulheres porque 1) não leva a sério sua bissexualidade e/ou 2) tem fetiche.

CRÍTICA: Nessa onda contemporânea de desconstruir os moldes, a liberdade sexual é clamada aos quatro ventos, mas, muitas vezes, a pessoa simplesmente GOSTA de monogamia e acaba topando algo que não a deixa confortável em prol de um discurso bonito que para ela não funciona na prática. Liberdade sexual é frequentemente confundida com fazer de tudo.

POR QUE NÃO É BEM ASSIM: Precisamos parar de achar que liberdade sexual é sair transando com todo mundo e passar a entendê-la como ter autonomia para fazer escolhas. Nenhuma mulher é menos livre por escolher se relacionar de maneira monogâmica, assim como uma mulher que escolhe uma relação poliamorosa também não é a referência primordial de libertação. O que deve ser criticado é a monogamia compulsória, não a monogamia por opção. Não adianta nada fingir que se está destruindo uma prisão quando se está apenas redecorando a prisão e chamando de liberdade. Assim como também não é produtivo resolver que o poliamor é simplesmente uma nova prisão e descartá-lo por causa de quem se aproveita da sua boa vontade ou porque ele não funciona pra você.

CRÍTICA: Não dá pra fazer planos nem ter uma relação de envolvimento, intimidade e comprometimento reais no poliamor, porque a pessoa sempre quer estar com outras e por isso não se dedica a você.

POR QUE NÃO É BEM ASSIM: Uma parte importante do conceito de poliamor é entender que uma relação não tem nada a ver com a(s) outra(s). Se as outras relações da pessoa que você namora estão interferindo na relação de vocês dois ou vice-versa, há um problema a ser resolvido. Isso não quer dizer que o poliamor em si é descompromissado e volúvel, pode ser apenas que a pessoa não esteja na mesma que você — e isso pode acontecer em qualquer relação monogâmica também. Acredito que o relacionamento aberto ideal é aquele em que vocês, quando estão juntos, nem lembram que saem com outras pessoas, simplesmente porque uma relação não afeta a outra.

CRÍTICA: São desculpas para quem não quer ter compromisso e vínculo afetivo.

POR QUE NÃO É BEM ASSIM: Confesso que essa me deixa genuinamente triste. É uma pena que algumas pessoas se utilizem do discurso poliamoroso como uma desculpa para não se envolver com ninguém — e, nesses tempos líquidos, de relações pouco significativas, isso é até mecanismo de fuga para muita gente. Mas poliamor, relacionamento aberto ou como você quiser chamar, não é o mesmo que falta de compromisso e interesse, nem dá respaldo a ninguém para brincar com os sentimentos dos outros. É perfeitamente possível ter um relacionamento aberto repleto de amor, cumplicidade, respeito, planos para o futuro, responsabilidade com o outro etc. e, aliás, é exatamente essa a proposta das chamadas relações livres como crítica ao sistema monogâmico tradicional: uma relação democrática, na qual as pessoas se relacionando se tratam de igual para igual. Se alguém usa o discurso poliamoroso como desculpa pra ser babaca, é só porque a pessoa é babaca mesmo — e assim seria também em uma relação monogâmica.

CRÍTICA: Mulheres negras e mulheres trans são frequentemente preteridas quando se trata de ter relações amorosas estáveis. Como é que a gente pode pedir pra pessoas que nunca tiveram a chance de viver a monogamia tradicional que a sociedade vende como maravilhosa desconstruírem a monogamia e se engajarem em relações livres? Deixa essas pessoas casarem, andarem de mãos dadas e se sentirem amadas!

POR QUE NÃO É BEM ASSIM: Ok, na verdade, esse é um pouco assim, sim. É complicado problematizar monogamia quando estamos falando de alguns recortes que abrangem pessoas que sempre tiveram/têm dificuldade em construir relações de afeto e respeito mútuos. Se a relação monogâmica é o que as faz sentir seguras e é o que elas almejam, não dá pra dizer que isso é errado e tem que desconstruir. Mas acho importante apontar aqui que essa associação automática que se faz entre monogamia e existência de segurança, afeto, vínculo, compromisso e respeito entre o casal é apenas falsa. Primeiro, porque o que mais tem por aí é relação monogâmica que não tem nada disso; segundo, porque é um mito achar que relações poliamorosas não têm essas características. Sentir-se amada não é uma premissa nem uma exclusividade da relação monogâmica, tampouco deveria ser visto como impossível ou excepcional em uma relação poliamorosa.

CRÍTICA: Por causa de todas as críticas anteriores, relacionamento aberto é terreno fértil pra abuso.

POR QUE NÃO É BEM ASSIM: Esse item é mais complicado e eu vou precisar dedicar muitos parágrafos a ele, indo para outra sessão:

Um pouco mais sobre abuso em relações amorosas

Conforme comecei apontando no início desse texto, o amor romântico tem de tudo pra ser abusivo com mulheres em relacionamentos com homens, porque ele mantém os papéis tradicionais de homem e mulher quase como em uma peça ensaiada. Nesses papéis tradicionais, o homem é necessariamente superior à mulher. É possível ter uma relação monogâmica, casamento e um monte de elementos do amor romântico sem isso? É. Por esse motivo, o que está sendo criticado aqui é a monogamia compulsória e não aquela que as pessoas escolhem.

Considerando essa visão dos relacionamentos monogâmicos tradicionais, o poliamor e a possibilidade de um relacionamento aberto seria uma forma de libertação feminina. É por isso que sempre me soa tão estranho quando se fala que relacionamentos abertos são abusivos com mulheres, porque, da maneira que vejo, o grande lance desses relacionamentos é empoderá-las e libertá-las. O que frequentemente empaca esse empoderamento e libertação é que muitos homens se apropriam do discurso poliamoroso para fazer mais do mesmo. Mas é preciso saber diferenciar uma coisa da outra, isto é, o que é uma relação poliamorosa decente e o que é uma relação abusiva que te venderam como liberdade.

Relacionamentos abertos abusivos são comuns principalmente porque relacionamentos monogâmicos abusivos são comuns. Porque não é a “fundamentação teórica” da relação que conta no dia a dia, são as práticas daqueles se relacionando. E relações abusivas (não só românticas e sexuais) são extremamente comuns, pois qualquer relação é permeada por relações de poder em um contexto social. Fala-se de relacionamentos abusivos como se eles fossem uma exceção, um desvio. Eles são norma. Raros são os relacionamentos nos quais as pessoas se relacionando de fato respeitam uma à outra.

Quando falo de falta de respeito, me refiro a práticas comuns como querer controlar o tempo do outro, controlar a maneira de se vestir do outro, exigir saber de tudo da vida do outro etc., enfim, atitudes que parecem banais mas que em seu cerne são basicamente passar por cima daquele ser humano como indivíduo. Essas atitudes são extremamente comuns nas relações monogâmicas tradicionais. O amor romântico é fundamentalmente abusivo. E é nele que a monogamia se pauta e é disso que o poliamor tenta fugir. Acontece que os comportamentos adquiridos que configuram abuso são frequentemente transferidos para relações livres (em maior ou menor grau, assim como na própria relação monogâmica), fantasiados de novidade.

O que me parece propiciar essa análise da relação livre como potencialmente mais abusiva é partir de um referencial do relacionamento monogâmico como o certo. Não defendo aqui que a relação livre seja a correta, não é essa a questão. O argumento aqui é: são modelos legítimos de se relacionar que podem coexistir na sociedade, como opções disponíveis para quem estiver a fim de se relacionar com alguém. Nenhum desses modelos deve ser demonizado, porque o funcionamento de ambos depende exclusivamente das atitudes, crenças, práticas e — por que não — caráter de cada um.

Falar que a relação livre é abusiva e que casos que dão certo são exceção é paralelamente o mesmo que dizer que o socialismo não dá certo, como se o capitalismo desse. Advoga-se contra as relações abertas dizendo que são abusivas como se as monogâmicas “tradicionais” não o fossem. Não são os modelos, são as práticas. Os modelos por si só não dão certo mesmo — há mais histórias de tragédia do que relatos de sucesso (e eu nem quero entrar no âmbito de relativizar o que é dar certo), mas cada casal (ou mais pessoas) se relacionando deve ter autoconhecimento o suficiente para saber qual modelo se adequa melhor ao que o satisfaz.

Relações livres

Havendo diálogo, qualquer relação pode ser “livre”. Embora o termo “amor livre” seja comumente reduzido à falta de exclusividade sexual, proponho que ele seja entendido como livre de convenções sociais. Nesse sentido, cada um pode combinar o que achar melhor, podendo inclusive optar pela exclusividade sexual. Conheço um casal que é casado há anos mas vivem em apartamentos diferentes no mesmo prédio. Há também casais que moram juntos mas não são casados no papel.

Há casais monogâmicos que, apesar de terem a exclusividade sexual a que tanto se dá importância, não têm confiança, cumplicidade, respeito, afeto. Há casais que optam por uma relação de exclusividade sexual e são muito felizes assim. Há casais que não escolhem: seguem a monogamia porque nem pensaram na possibilidade de fazer de outro jeito, mas que, mesmo se amando, até gostariam de sair com outras pessoas de vez em quando.

Há casais monogâmicos em que uma pessoa não é tão monogâmica assim, sem a outra saber — o nome disso é mau caratismo, falta de consideração e é uma forma de abuso.

Há casais que decidem ter uma relação aberta mas uma das partes não se sente bem com isso — o nome disso é manipulação emocional, que é também uma forma de abuso.

Há casais que escolhem ter uma relação aberta e são felizes assim — o nome disso é livre arbítrio.

Há casais que escolhem ter uma relação monogâmica e são felizes assim — isso também é livre arbítrio.

Retomando alguns pontos principais

  1. Monogamia não é sinônimo de amor e compromisso em uma relação. Uma relação monogâmica pode ou não ter essas coisas; a monogamia em si não garante nenhuma delas.
  2. A exclusividade sexual ou falta dela não é determinante de nada além dela mesma em uma relação. Só há desrespeito na falta de exclusividade sexual quando ela não é de comum acordo para o casal.
  3. Uma pessoa que te trata com desinteresse e falta de compromisso é apenas uma pessoa que te trata com desinteresse e falta de compromisso. Se ela te vende isso como uma forma de amor livre, fuja. Aliás, fuja de qualquer pessoa que te trate assim.
  4. Poliamor não é bagunça nem desrespeito. É sobre respeitar a individualidade de cada um e libertar mulheres.
  5. Esbravejar contra as relações livres, partindo de premissas erradas sobre elas, é um desserviço às mulheres, que poderiam encontrar nelas uma forma de empoderamento e libertação da opressão da monogamia compulsória e tudo mais que vem com ela no pacote tradicional de amor romântico, mas acabam acreditando que relação livre é o mesmo que falta de amor e respeito. Vamos lutar contra aqueles que se apropriam desse discurso para serem abusivos, e não contra o poliamor em si. O problema continua sendo o patriarcado.
  6. Se você é uma mulher e não se sente contemplada, muito menos liberta, pela ideia de poliamor, não pratique. Jamais concorde com algo que te anula como indivíduo. Mas entenda que não é porque não funciona pra você que não funciona e pronto.
  7. Conheça a si mesma. Saiba o que é importante para você em uma relação. Relacione-se com alguém que respeite isso.


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