Ficamos presos no museu da Guerra Fria

Aqui onde, não se sabe pra quê, mantemos vivos do macartismo à propaganda soviética

Creative Commons 2016: Igor Falconieri (ver licença)

Foi dito que com a morte de Fidel acabava de acabar o século XX. Isso deveria ser verdade: há quase nenhum político notável do seu tempo ainda vivo e o contexto que moldou o cubano já é há longo prazo propriedade da História. Mas as próprias reações à sua morte, aliás mais do que isso, as reações a qualquer menção por mais trivial do seu nome desmentem que o século XX já tenha visto seu desfecho.

Passando na última semana pelo Facebook, você deve ter lido pelo menos um ditador sanguinário ali e outro herói da revolução acolá. Esse não é nem o primeiro texto aqui em que eu lamento a redução maniqueísta da política e a leitura passional que as pessoas fazem dos seus líderes. As apreciações de Fidel tanto como herói quanto como vilão me incomodam exatamente porque em nenhuma delas cabem as nuances que o juízo da política tem que ponderar. Sempre que o tom do comentário é de repulsa ou de devoção desconfio se existe nele crítica alguma; encontro só convicção sentimental.

Isso, claro, não é exclusivo das reações à morte de Fidel. Qualquer suspiro de um político pode despertar esses ímpetos de amor ou de ódio. Mas existe um reflexo emotivo especial, muito mais acalorado e automático, quando tratamos de pessoas e conceitos de alguma forma ligados à fronteira capitalismo-socialismo.


Saguão de entrada: Relíquias de segunda mão

Sinceramente, quando eu digo essas duas palavras juntas — capitalismo e socialismo — me acho anacrônico como o encontro de uma criança de hoje e um mimeógrafo. Pra mim, essa dicotomia sempre pertenceu a um contexto concluído, nunca ao meu tempo presente. Quando eu nasci já não existia União Soviética nem Iugoslávia, o Muro de Berlim era um pedaço de concreto que alguns viajados tinham como souvenir e a China era a fábrica das economias de mercado; no Ocidente, os sindicatos de trabalhadores eram gigantes com consolidado poder de barganha e a social-democracia já era velha nos países industrializados.

Você pode imaginar o quanto é descabido pra mim mesmo mais de vinte anos depois ainda tropeçar nas inquietações da Guerra Fria, a que deram por enterrada quando eu era ainda nem um feto. Da mulher que há uma semana fez caso com a bandeira vermelha do Japão — e depois se justificou anunciando que “os comunistas estão bem avançados” — aos colegas jovens que insistem pela revolução proletária e pela estatização total, me esbarro com essas preocupações e acho tão desprendidas do presente real que eu já me sinto absurdo só de pensar em rebater qualquer uma delas.

Afinal que motivos no século XXI excitam em tantas pessoas o medo do perigo vermelho? Que outros ainda mantém setores da esquerda apegados à teoria revolucionária e ao seu fetiche por regimes burocráticos? Há explicações particulares em cada um dos casos, mas em comum aparece em ambos uma compreensão incompleta e parcial do que foi e do que ainda pode ser o socialismo.


Sala de antiguidades: Medo conservado no formol

A primeira situação — o receio de uma ameaça comunista — é com toda clareza herdeira das políticas de contenção e propagandas antissocialistas articuladas durante a Guerra Fria. Ainda que a Igreja Católica e partidos conservadores estivessem desde o século XIX associando o comunismo à subversão dos valores tradicionais, da ordem e dos direitos individuais — o mais estimado deles, a garantia à propriedade privada — , foram ações sistemáticas de incriminação do socialismo que nos países americanos afixaram seus defensores como párias, criminosos ou traidores ao juízo comum. Tome como exemplo o macartismo dos anos 50 e o estado de desconfiança generalizada conseguinte nos Estados Unidos.

Também durante o período intenso da Guerra Fria, o conhecimento das violações dos direitos humanos praticadas no então mundo socialista serviu para firmar a apreensão do comunismo como um regime perverso e naturalmente totalitário. Faça um exercício prático e pergunte a pessoas do seu dia a dia “o que é comunismo”: tirando a possibilidade de você estar rodeado de professores de História e representantes de DCE, você conseguirá mais respostas citando genocídios e trabalho forçado do que coletivização e supressão de classes e do Estado.

Cabe entender, porém, como a aparição desse senso comum aumenta e diminui entre gerações. Quem, no Brasil, cresceu e se educou durante o governo militar não só se acostumou a ver pessoas de esquerda procuradas como terroristas nos cartazes e jornais como, na escola, esteve privado de uma formação ampla e crítica nas ciências humanas. À partir de acordos entre o MEC e a Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional (USAID) — que fornecia recursos financeiros — a educação básica no Brasil sob regime militar tomou um currículo mais enxuto e instrumental.

Críticos entendem que a reforma atendia somente às necessidades da industrialização, em prejuízo da formação de consciência política. Além disso, disciplinas foram reformuladas para incluir conteúdo propagandístico e de adestramento ideológico.

De 1969 em diante História e Geografia estiveram comprimidas no ensino fundamental com o nome Estudos Sociais. Tanto a nova aglutinação como o ensino específico de História no ensino médio tratavam essa área do conhecimento como uma ciência exata, usando da memorização de datas e de eventos. Os livros dessa disciplina normalmente traziam questionários de respostas objetivas, alguns beirando a nada mais completo do que um glossário de definições.

Outra nova disciplina, Moral e Cívica também foi incluída no mesmo ano, e vinha substituir as extintas Filosofia e Sociologia com conteúdos de formação cidadã e patriótica em todos os anos da educação básica. Os livros garantiam por via de ensino a legitimação do período militar como um “processo democrático necessário” e a fixação do comunismo como inimigo comum. Esses são dois trechos do livro didático Moral, Cívica e Política, de Douglas Michalany e Ciro de Moura Ramos, editado em 71:

O comunismo, com seus tentáculos, tenta destruir nosso sistema de vida e a própria independência da Pátria. […] Portanto, para conservá-la, é preciso corrigi-la. Essa correção se faz com visíveis vantagens sobre o regime comunista: pela justa aplicação das leis e pelo respeito à autoridade. (RAMOS & MICHALANY. 1971. p. 166-167)
Quase todos os assessores inclusive (João) Goulart eram comunistas ou simpatizantes do comunismo, sendo portanto contrários às tradições cristãs e democráticas do Brasil. Pregavam a derrubada de nosso sistema político, pretendendo estabelecer em seu lugar uma república socialista, ao estilo cubano de Fidel Castro. (RAMOS & MICHALANY. 1971. p. 140)

Moral e Cívica permaneceu no currículo do ensino público até 93, e só então começa a aparecer bibliografia acadêmica que reexamina seu conteúdo e avalia suas consequências na nossa formação política. Sendo assim, é recente no Brasil qualquer ensino que permita uma observação ampla do socialismo e não somente sua total abominação.


Galeria contemporânea: Luz e sombra na composição

Com a retomada dos currículos específicos das ciências humanas e o fim da doutrinação dos militares, quem se educou depois da redemocratização teve a chance para um entendimento mais crítico e total dos tempos passado e vigente. É difícil afirmar ainda que isso se concretizou.

Não é raro entre jovens ouvir louvações ao socialismo de Estado dignas de um pôster soviético. Assim como no medo implantado do comunismo nas gerações anteriores, essa visão pra perdurar também precisa ser parcial e omitir a metade infeliz dos fatos. E quase sempre isso é feito de forma incoerente.

Posso acusar essa opção retórica de incoerente porque estamos aqui falando de uma esquerda formada nos movimentos sociais em defesa dos direitos humanos e herdeira daquela que resistiu à repressão violenta na Ditadura. Em contradição, é parte da identidade dessa mesma esquerda fazer retratação ou até elogio da perseguição política em regimes socialistas. Crimes contra a humanidade costumam ser desculpados como inevitáveis ou como sujeitados pelo contexto, ditos muitas vezes vitais para o sucesso da revolução; esse tipo de fala coloca uma esquerda que se diz democrática páreo a páreo com aquela direita “comportamental”: somente sendo tão faccioso quanto é que alguém conseguiria, além de constantemente relevar os equívocos econômicos do socialismo de Estado, ainda aliviar com porquês os abusos do seu totalitarismo.

Assim foi nesses dias após a morte de Fidel: vários simpáticos ao regime castrista pelas conquistas para o povo de Cuba apareceram redimindo seus excessos como uma mera sequela da “resistência ao imperialismo”, absolvendo o ex-presidente de sua sabida opção pela repressão violenta. Vejam bem: uma atribuição não deveria vir para amortizar a outra. É importante assegurar a Fidel a justiça social alcançada em seu país, da mesma forma que é importante encarrega-lo daquilo que na história não terá outro nome que não seja crime; do contrário, naturalizamos a arbitrariedade que condenamos no discurso dos outros.

Argumentar que as infrações de Fidel, Mao, Pol Pot e Stalin foram “necessárias” para qualquer que fossem os ideais e os percalços da revolução é, em análise simplificada, dizer que os fins justificam os meios. E esse é exatamente o mesmo princípio que serve aos saudosos de Pinochet, Médici e, numa onda mais recente — alavancada por Bolsonaro —, do coronel Brilhante Ustra. Cabe para a esquerda avaliar se ela quer estar nesse mesmo campo de bestialidade moral.


Grande pavilhão: Disparates sobre tela

No museu vivo da Guerra Fria, a internet é hoje a sala principal, com a curadoria mais extensa de intolerância semântica e de disparates históricos já coletada. Faz poucos meses, vi o Leandro Karnal se queixando no Facebook dessa experiência que é típica de como o assunto política é tratado na rede:

Como Karnal já cita, quem se ofende com qualquer abertura hermenêutica a respeito de Che Guevara — mesmo que ela seja isenta, que nem a do professor — pode ter mais problemas do que somente o da interpretação de texto. E você pode ver como isso se desenvolve até mesmo nas respostas à postagem: um deles aconselha que Karnal não poderia não deixar explícito que Che tenha sido um monstro; outro reafirma que é indubitável sua lembrança como somente a de um assassino frio.

Para os personagens da fronteira capitalismo-socialismo não há tolerância de interpretação: citá-los sem uma condenação decisiva já é o aperto no gatilho pra que você seja acusado de defendê-los e pra que toda uma argumentação de abobrinhas se desenvolva na sua frente. Querendo entrar nesses assuntos exige-se antecipar uma retratação: “Conheço e condeno os crimes cometidos por Che, maaas…” Mesmo assim o risco do chorume é quase garantido.

Com toda essa inclinação para debater fantasmas da Guerra Fria, a internet aglutina a coleção de discussões menos importantes da história da política. Não bastasse o desperdício de energia, os embaraços que brotam nas caixas de comentários vão muito além: a rede é incubadora pra todo tipo de calúnia, paranoia e distorção da História, que podem vir de memes com péssimas escolhas de diagramação feitos por anônimos, mas também de intelectuais e celebridades da rede com grande audiência.

Quem vê Olavo de Carvalho sustentando teorias da conspiração até com linguagem chula não consegue dizer que ele teve uma extensa carreira de pesquisa e de publicações premiadas. Difícil saber ao certo quando foi que Olavo preferiu se concentrar em desmentir Einstein, Newton e Galileu e em alertar o mundo da ameaça comunista. Importa que o filósofo, com seu falatório agressivo — adora as palavras idiota, estúpido, indecente e canalha, adjetivos pra qualquer um de seus opositores —, tem hoje trezentos mil seguidores no Facebook.

Partem dele para a web as teorias de que Obama é “um psicopata com ódio ilimitado ao cristianismo e à civilização ocidental”; de que o Brasil vive sob ameaça bélica dos nossos “vizinhos bolivarianos” com consenso do PT; e de que o Foro de São Paulo é um “arranjo terrorista” com investidas de “implantar o comunismo em toda a América Latina”.

Menos pitorescos mas nem tão mais honestos, autores de respeito no Brasil também manejam a facilidade de ressuscitar o medo da esquerda, do mesmo modo recorrendo aos espantalhos do bolivarianismo e do “comunismo do PT”. Jabor, Azevedo e Magnoli alardeiam sobre esses temas com muito mais frequência do que necessário, beirando a fixação, e usam do mesmo repertório de ofensas que Olavo.

A combinação de um senso comum mal esclarecido sobre o socialismo com o gosto pelo antagonismo polêmico e agressivo garante na internet a fertilidade pra quem ainda no século XXI planta o perigo vermelho. Do outro lado ideológico mas dividindo o mesmo ambiente, páginas de memes políticos criam uma face hype do socialismo revolucionário e dos regimes consequentes; é claro, dispensando a crítica dos seus defeitos.

Internet abriga todo tipo de disparate sobre episódios históricos; da associação postiça do nazismo à esquerda ao elogio de genocídios em países socialistas. Acessos de paranoia com a “ameaça comunista” ainda compõem o medo vermelho no século XXI. (Da esquerda para a direita: Autor desconhecido, Idem, Divulgação/YouTube)

Loja de souvenirs: Vende-se bom senso

De fato, o socialismo e o capitalismo — aquela pontada de anacronismo de novo —, como tudo na política, precisam ser constantemente criticados, repensados e atualizados. Mas pra que isso aconteça de forma útil e não como desperdício retórico, somente a gente combinando uma coisa: quando alguém reclamar, vá lá, das relações selvagens de trabalho em economias capitalistas, não pense que acrescenta alguma coisa você vir responder algo do tipo “bom mesmo é no socialismo, em que falta até papel higiênico”. E, vice-versa, se eu critico a economia planificada e a burocratização como retardantes na melhoria de renda, você não chega a lugar algum dando exemplos de pobreza que também existem em países de livre mercado.

E isso porque a crítica de um sistema não exige seu total abandono e câmbio por um programa inverso. Quando bem intencionada, o que ela pretende é muito mais reparar seus erros para torná-lo mais sustentável e adequado às pessoas.

Encontrar a saída do museu da Guerra Fria é superar a condição em que o socialismo e o capitalismo só puderam significar um a negação do outro. As sociedades hoje preferidas como modelo de desenvolvimento humano são aquelas que combinaram economia de mercado de significativa liberdade e recuo do controle com um estado de bem-estar social propulsor de igualdade de oportunidades e de distribuição da riqueza — já espero alguns apontarem ressalvas, o que é saudável e podemos tratar delas que é sempre bom!

Parece que o funeral do século XX ainda vai ser muito adiado. Ontem, enquanto Fidel era enterrado, os viúvos da Ditadura estiveram de volta às ruas. Engraçado é o quanto aqueles senhores de uniforme militar formam uma alegoria perfeita desse passado teimoso: mesmo velho, com a memória difusa e gagá, ainda estando ali, vivo, cismado, insistente.