[Fiz a Travessia] Deixei de ser um designer gráfico prestando serviço para qualquer empresa e comecei a criar um mundo com mais autonomia, autenticidade e empatia.

O entrevistado de hoje é o Victor L. Pontes, na série “Fiz a Travessia”, um projeto para inspirar e incentivar pessoas a fazerem uma transição para serem mais felizes, satisfeitas e realizadas no trabalho e na vida.

Nome: Victor L. Pontes

Idade: 27

Antes fazia: Design Gráfico para qualquer empresa, sem foco no processo e com muito foco no resultado final estético. Produzia uma coisinha aqui ou ali, mas sem muita conexão.

Hoje faz: Design, na sua forma mais ampla e profunda, para pessoas, projetos e empresas criativas.

  • Marcas_dePropósito: Consultoria e Design de marcas e serviços com foco na cultura e no propósito.
  • Anônimo&Unânime: Estúdio de design gráfico e arte para projetos culturais e experimentais. Sempre trabalhando em colaboração com um artista, designer ou fotografo.
  • Integra o Casulo Moda Coletiva, loja de moda, design autoral e produtora cultural. É co-fundador do espaço compartilhado Voluem570.
  • cursos e palestras sobre criatividade, empreendedorismo e gestão de marcas para micro e pequenas empresas.
Victor L. Pontes

Lella Sá: Por que você faz o que você faz hoje?

Victor L. Pontes — Sem dúvida as consultorias e os cursos tem sido minhas grandes fontes de satisfações, não que me desagrade prestar serviços em design, mas os cursos e as consultorias tem me permitido ter uma dinâmica completamente diferente. É mais humanizado, mais acessível, mais profundo e muitas vezes mais simples, do lado de cá e de lá. Muitas vezes na relação prestador-contrante, você não tem chance de aprofundar alguns novos conceitos, tendências/movimentos, você precisa executar, mousear, produzir, terminar logo, sem pensar muito.

O que faço atualmente não é A FORMA FINAL como vou trabalhar para sempre, aliás, mudei esse conceito do que eu faço. Não sou (só) um designer, sou o Victor que tem experiência com marcas, projetos, colaboração, coletivos, poesia, fotografia, artes, que gosta de música estranha, que vive saindo da zona de conforto. Meu propósito é o que me guia e não a minha profissão de formação.

Meu propósito hoje gira em torno de Autonomia, Autenticidade e Empatia. Não, não são palavras aleatórias ou bonitinhas. E sim estou longe de alcançá-las, mas estou também em eterna busca. O que compreendo sobre elas? Autonomia para mim é poder dizer não, para ter melhores sims. Autenticidade é muito mais que originalidade, é estar alinhado com os seus valores e propósito. Empatia, bem, é a base de TUDO, tudo gira neste espaço que fica entre eu (você) e o outro, e como nos relacionamos no final disso tudo.

Lella Sá: Por que você decidiu sair da onde estava?

Victor L. Pontes — Estou passando por uma transformação profunda no meu trabalho e na minha vida. Comecei essa jornanda em 2012 quando resolvi sair do meu estúdio de design que tinha fundado em 2008, bem no meio da faculdade.

Estava bastante incomodado com o modelo de negócio de estúdio de design. As relações cliente-estúdio e até a questão de crescimento, pois íamos precisar de mais e mais funcionários para poder ter “segurança” e “estabilidade”. O ciclo era vicioso, quanto mais trabalho mais funcionários, quanto mais funcionários, mais gerenciamenteo precisava, mais gerenciamento menos eu criava. Até aí tudo bem, a questão era a qualidade de trabalho final e processo. Não queria ter pessoas mandadas, queria ter parceiros e colaboradores. Montei um estúdio para não ter que trabalhar numa agência de publicidade e estava indo no mesmo caminho, de uma forma diferente.

Nessa época já tinha trabalhado como funcionário, como colaborador, como autônomo e prestador de serviço recorrente. Vi que o buraco era mais embaixo e precisaria testar, estudar e errar muito mais.

Lella Sá: Como fez essa mudança?

Victor L. Pontes — Estou fazendo e acho que sempre estarei fazendo. Como disse é uma mudança lenta, desde 2012 (talvez desde 2008 ou mesmo desde que nasci). De pouquinho em pouquinho, fazendo muito e sem parar. Faço muito mapa mental, sempre fico colocando no papel tudo que estou fazendo ou já fiz. Um dia caiu a ficha que estava mais sendo demandando do que criando realmente. Estava sempre reativo, respondendo a estímulos de fora e nunca de dentro. Foi quando comecei a fazer essa mudança.

Uma primeira ação foi sair da minha zona de conforto que era minha cidade natal, Goiânia, Goiás. Lá eu nem precisava ligar para ninguém para sair, simplesmente ia e sabia que ia encontrar algum conhecido ou amigo. A mudança para São Paulo foi essencial. Sem complexo de vira lata, não acho que SP seja melhor do que Goiânia, mas acho que sim, temos muito o que aprender em outras cidades e com outras pessoas. Meu principal objetivo em São Paulo foi conhecer pessoas de outros lugares do Brasil. Demorei quase 2 anos, mas foi o que aconteceu quando entrei no Estaleiro Liberdade. Este lugar que foi essencial para minha mudança (pessoal/profissional). Lá foi o lugar que mais desaprendi. Foi o lugar que mais aprofundei. Parei. Pausei. Dei um tempo. E cara, valeu demais. Acabei aprendendo a (re/des)aprender.

Minha mudança não aconteceu com um mochilão na Europa, mas sim nas várias pequenas experiências que tive e estou tendo. Mudei a forma como enxergava meu (co\e)ntorno, assim mudei minhas experiências e minhas relações.

Lella Sá: Quais foram os maiores desafios que passou para fazer essa transição?

Victor L. Pontes — Ter paciência. Ter calma. Ter foco. Ressignificar o tempo. Ficar sozinho. Sim, vim para uma cidade de 20 milhões de pessoas e muitas vezes me sentia sozinho e acredito que este sentimento não seja só meu. Né?

E considero que não passei a transição ainda, vejo que muita coisa ainda está em trânsito. E na boa? Como disse antes, sempre estará. Não vejo as transformações como preto&branco, mas sim um espectro de cor muito sútil. Aliás, aprender a sentir essa mudança sutil, os novos significados, as novas formas de agir, isso para mim, é muito difícil. Mas vejo que cada vez fica mais tranquilo, mais fácil e mais perceptível.

Tomar atitudes, decisões, passos para mudar sua vida é mais difícil do que parece. Parece bobo, mas quando você para e pensa que dos 3 anos de idade, ou menos, até os 22–24 anos você mal precisa decidir algo, é só ir no fluxo, só ligar o piloto automático. A única decisão que tomamos em 20 anos é o vestibular, que (quase) todo mundo simplesmente chuta. E não adianta, você pode conversar, trocar ideia, pedir conselho, mas quem decide é você. O pior que não termina por aí, tem um treta maior: Se é você que está tomando as decisões, você que é o responsável para o bem ou para a mal. Nesse ponto é que vejo que a maioria das pessoas travam, congelam, desistem. Pode ser uma benção ou uma maldição, mas você começa a ser responsável pelas suas decisões. Isso é mais difícil do que parece. O fracasso é seu e o sucesso é de todos.

Ia parar de escrever, mas escrevi a palavra fracasso. Então, isso é um grande desafio. Você, eu, nós vamos fracassar. Ponto. Não temos o que fazer com isso a não ser lidar da melhor maneira possível. Por isso escrevi esse texto que fala sobre como tudo que fiz deu certo e errado.

Lella Sá: Como ficou a questão de grana em meio a incerteza?

Victor L. Pontes — Foi e não foi tranquilo. Tive micro-empresa durante 4 anos. Quase sempre fui autônomo, então isso me ajudou. Consegui juntar um dinheiro em 2013 num trabalho fixo, o que segurava as pontas quando algo não entrava. Mas a disciplina, a poupança e um senso de manter a vida simplificada, ajudou muito.

Foi uma escolha complicada. O meu trabalho fixo me dava “liberdade financeira”, mas me sugava todas as energias. Trabalhava das 9h até às 20/21h, normalmente ultrapassava isso e teoricamente não sobrava muito tempo para me dedicar aos meus projetos e ideias. Mas foi uma escolha importante, estava chegando numa cidade sem muitos contatos, colegas e amigos, então não sabia como seria recebido e fiz uma escolha pela segurança e estabilidade. Não me arrependo, mas faria umas coisas diferentes. Aprendi que não sou do perfil “emprego + freelas”, isso me desgasta muito, ou emprego ou freela, os dois juntos vira uma bomba. Funciono muito melhor como uma EU-mpresa, administrando meu tempo e projetos, apesar da instabilidade, da necessidade de disciplina extrema e ser seu próprio chefe.

Vi que tive que enxergar o dinheiro de uma outra forma, não como um problema, nem como a única solução. E sim, tinham momentos que eram desesperadores. Passar bons meses, sem nenhuma entrada pode te enlouquecer. Principalmente para quem tem independência financeira desde cedo, mas aprendi a lidar com isso, afinal eu não tinha muita opção.

A questão da grana ser interessante. Rola um mito que você precisa fazer um mochilão em algum lugar do mundo, gastar tudo e voltar diferente. Acho que funciona para muitas pessoas, mas não acredito que seja uma regra. Vejo isso com mais sobriedade digamos assim. Eu vi que podia mudar, podia ter um equilíbrio maior, ter escolhas mais inteligentes. Fiz isso aos poucos. Testando aqui e ali, todos os dias.

Mas tem um lance sobre grana e mudança, não tem como fazer mudança sem se sacrificar. Sem tirar, sem gastar menos, sem comprar menos, sem ressignificar MUITA coisa.

Lella Sá: Qual futuro você está ajudando a criar?

Victor L. Pontes — Como disse meu propósito hoje gira em torno de autonomia, autenticidade e empatia. Quero construir um futuro onde poderemos dizer NÃOs para termos melhores SIMs. Quero um futuro que poderemos ser nós mesmos, autênticos, quem sabe originais, mas sem esse peso de ter que ser algo diferente de tudo, buscando uma leveza de se sentir coerente. Quero um futuro empático, um futuro com um cuidado maior e um respeito ainda maior com o outro.

Lella Sá — Que dicas você daria para quem quer ter um Trabalho com Significado?

Victor L. Pontes — Aprendi no Estaleiro Liberdade: que não se tenha pressa e que não se perca tempo. É isso, tem coisa que tem seu tempo. Tem projetos, trabalhos, negócios e ideias que precisam “engravidar”, ou melhor — serem geridas. Então pega leve, vai de boa, não força a barra, não puxa a planta para ela crescer mais. Mas não perca tempo e não deixa o momento passar. Essa é uma “dica” de merda, eu sei, mas é nessa gangorra que tenho vivido. Sem pressa e sem perder tempo. Errando de um jeito diferente, sempre.

Dificilmente você vai achar seu trabalho com significado de baixo do tapete ou dentro de uma gaveta. Não é algo que se tropeça na rua ou quem alguém vai ter dar de presente, mas pode estar muito mais perto de você do que imagina. Acho que trabalho com significado é como uma caça ao tesouro que tudo sempre muda de lugar e de forma. Você não sabe o que está procurando até achar ( Oi, Serendipidade!). Mas você só vai achar se procurar. E não tá fora de você, num curso, numa viagem, num sócio, está no próprio ato de procurar.


Se você quer fazer a sua transição para um Trabalho com Significado, faça o Programa Travessia.


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