Game of Thrones e a filosofia política conservadora

Fonte: www.vexels.com

Aviso: Antes de seguir com a leitura deste texto esteja ciente de que ele está repleto de spoilers sobre a série, do princípio até o fim. Porém, não se trata de uma análise dos últimos episódios ou da minha opinião sobre as decisões tomadas pelos produtores e roteiristas, mas uma abordagem a respeito da "guinada" da personagem Daenerys Targaryen sob a ótica da filosofia política conservadora. Também não significa que sou partidário dessa linha de pensamento, apenas apresento uma forma de ler o desenvolvimento da personagem.

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No último dia 12 de maio de 2019 foi ao ar o quinto episódio de Game of Thrones, série de TV produzida pelo canal HBO. O que se viu ao final foi aterrador e pegou muitos fãs de surpresa. Mesmo com a rendição dos exércitos na cidade de Porto Real, Daenerys optou por lançar mão de seu dragão e verter fogo indiscriminadamente sobre todos os cidadãos que ali estavam, mesmo aqueles indefesos e, entre esses, crianças.

Quase todos os espectadores ficaram chocados e saíram culpando os roteiristas por desvirtuarem os valores da personagem, reconhecida por ter matado antigos senhores de escravos, tendo-se colocado ao lado de crianças indefesas e libertado milhares de cativos de sua condição de submissão, dando-lhes a opção de segui-la ou não. Outros, entendem que essa atitude se deu, pois ela teria sucumbido a um tipo de maldição que assola sua família: a loucura. Ela, assim como seu pai, e mais um número grande de ancestrais, teria uma pré-disposição ao desvario, delírios de grandeza ou esquizofrenia. Como nos é dito na própria série “toda vez que um novo Targaryen nasce, os deuses jogam uma moeda para o alto e o mundo segura a respiração para ver como ela vai pousar”. Existem apenas duas opções, a grandeza ou a insanidade.

De qualquer forma, as duas alas de fãs não perdoaram o episódio. Alguns alegaram que faltou uma melhor construção dessa transformação no caráter da personagem, até então, tida como uma das heroínas da epopeia televisiva. Para outros, sendo a mãe dos dragões uma das mulheres fortes da série, a sua conversão em louca apenas reforçou estereótipos machistas sobre o gênero feminino em sua relação com a loucura e o poder.

O espectador conservador, talvez, tenha sido o único que não foi pego de surpresa com tal virada. Aliás, seguindo essa visão, o arco da personagem não poderia ser visto como uma guinada, mas como a evolução de um tipo de político idealista que tem em sua visão de mundo o modelo pelo qual o resto da humanidade deve se guiar. Ao levar tal missão ao extremo, converte-se em um tirano. Assim, desse ponto de vista, o caso de Daenerys não é o quadro crônico de loucura, mas de tirania. Daenerys não é louca, apenas levou ao máximo a sua vontade de transformar o mundo e é isso o que a torna uma tirana.

O conservador, ao contrário do que estabelece o senso comum, não é aquele que se impõe contra as mudanças da humanidade ou às novas formas de sociabilidade geradas pela modernidade, apegado aos dogmas da fé e avesso à ciência ou que pauta suas decisões segundo preconceitos de raça e gênero. Na verdade, o que melhor define o conservador, segundo uma tradição britânica de tal pensamento, é o ceticismo. Filósofos como David Hume e, mais especificamente, Michael Oakeshott são aqueles que estabeleceram tal definição.

Enquanto cético, o conservador desconfia daqueles que dizem possuir a fórmula mágica para transformar o mundo em um lugar melhor, mesmo que esse desejo esteja provido da mais pura sinceridade e boa intenção. Isso porque, suspeita da infalibilidade humana em tomar sempre as decisões corretas ou de sua capacidade de exercer um domínio racional sobre a realidade. Como bem definiu Eduardo Wolf, sobre a visão conservadora em relação aos políticos idealistas: “desconfie de todos aqueles que em nome da sua convicção e boa vontade querem fazer o bem pela humanidade […] invariavelmente isso termina em extermínio”.

Neste sentido, várias passagens da série serviriam como exemplo para comprovar tal natureza de Daenerys. Na terceira temporada, por exemplo, na baía dos escravos, ela liberta o exército dos Imaculados e mata todos aqueles que, ao seu julgamento, estavam de uma forma ou de outra ligados à escravidão. O mesmo ocorre na temporada seguinte, em Meereen: ela condena senhores de escravos à morte por crucificação. Mesmo aqueles que não eram possuidores de escravos, mas que se opuseram a tal pena foram mortos. Porém, em ambos os casos, sua ação teria se dado obedecendo "motivos nobres", afinal de contas, a escravidão é algo moralmente deplorável, certo?

Neste ponto, para o pensamento conservador, o problema não é a natureza da condenação ou a sentença, mas os motivos que a levaram à mesma. Em outros termos, quais são os limites que devem ser respeitados para a construção de um mundo melhor? Até onde um político que se diz possuidor de uma verdade libertadora está disposto a ir para que ela se torne uma realidade de fato?

Na cabeça daquele que se julga capaz de construir uma sociedade mais justa, a régua que mede obstáculos é maleável e, quando levados ao extremo, produzem aquilo que chamamos de tiranos. O Tirano não é apenas aquele que vocifera impropérios, mas todo aquele que quer anular o outro, mesmo que seja por um bom motivo. Neste ponto, o senso de justiça pode se transformar em justificativa para impor à força vontades pessoais, por vezes, vis.

Na sexta temporada, por exemplo, Daenerys tem uma "audiência" com o conselho de mestres Dothraki que, recorrendo às tradições de seu povo, quer submetê-la aos seus "cuidados", acolhendo-a como uma das viúvas do bando. Ela, por sua vez, oferece a eles a oportunidade de se juntar a seu exército. Vendo sua oferta negada, decide queimar o edifício onde o conselho se reunia, matando a todos que não quiseram se curvar a sua liderança. O mesmo podemos dizer sobre quando ela executou Dickon e Samwell Tarlly por não quererem jurar obediência. Os motivos para a eliminação do outro são sempre nobres aos olhos do tirano.

No último episódio, Porto Real era o exemplo necessário para convencer o mundo de seu poder de transforma-lo. Em uma referência clara aos conselhos dados por Maquiavel ao Príncipe, escolheu ser temida ao invés de ser amada. É isso o que ela diz a Jon Snow quando esse lhe nega o amor. Ao perceber que não tem o afeto de ninguém em Westeros, ela vaticina: "se não é pelo amor será pelo medo".

E assim foi.

Não sabemos ainda, mas em sua cabeça, a capital dos Sete Reinos poderia ser vista como o epicentro de uma sociedade corrompida, lar de pessoas que pouco a pouco a traíram e se colocaram como obstáculos em seu caminho. Como política idealista, na impossibilidade de reforma-lo, literalmente destrói o mundo para reergue-lo a sua imagem e semelhança. Do lado oposto do que entende o pensamento conservador, desrespeitou as tradições representadas pela Fortaleza Vermelha, antiga morada de seus ancestrais, transformando-a em ruínas.

Desta forma, seguindo a tradição conservadora, um político que realmente acredita em suas ideias e na capacidade que elas possuem de transformar o mundo são muito mais perigosos do que aqueles que não acreditam em nada. Sob este aspecto, na série, é possível dizer que Varys representa o pensamento conservador em sua essência. Esse diálogo com Tyrion é bastante revelador. Vejamos:

Varys: Eu servi tiranos a minha vida toda. Eles sempre falam sobre destino.

Tiryon: Ela é uma garota que saiu do fogo com três dragões. Como ela não vai acreditar em destino?

Varys: Talvez esse seja o problema. A vida a convenceu de que ela está aqui para salvar a todos nós.

Tyrion: Como você sabe que ela não irá?

Varys: E tem o problema com o Jon Snow… Talvez seja uma solução. Você conhece os dois, diga-me, quem seria um melhor governante?

Tyrion: Ele não quer o trono. Por isso ele dobrou os joelhos.

Varys: Você já considerou que o melhor governante deve ser alguém que não quer governar?

Para Varys, portanto, Jon Snow seria melhor rei justamente por não dar importância ao cargo. A política no pensamento conservador não possui um tipo de função transformadora na sociedade. Ao contrário, ela deve ser responsável por prevenir a sociedade dos solavancos da história e servir de auxílio na condução para a evolução gradual dos tempos. O conservador não é contra a mudança, ele é avesso à mudança pela mudança.

Justamente por isso, entende que existe uma lógica estabelecida pelas tradições que deve ser respeitada. As tradições representam o peso da experiência consagrada, daquilo que deu certo e que, por isso mesmo, deve ser mantida. Isso não significa que mudanças não devem ocorrer, mas que elas devem respeitar a velocidade dos consensos. Neste ponto, Jon Snow, ao não “saber nada”, ou melhor, não querer nada, seria o mais apto a exercer a função primária de um governante: conservar as coisas como são.