Só existe um desfecho possível para Game of Thrones

Desde a última temporada, Game of Thrones vem causando discórdia entre os fãs. Há quem defenda, há diga que a série desandou e resolveu agradar aos fãs e se prender a personagens idolatrados, há quem ache que os rumos tomados são devido à falta de informações do próximo livro, ainda não escrito pelo George R. R. Martin, e pela má qualidade dos roteiros e também tem aqueles que acreditam que tudo acontece rápido demais, já que as primeiras temporadas eram muito mais cadenciadas. O fato é que não há unanimidade em absolutamente nada que é decidido e a coisa se intensificou ainda mais agora, no penúltimo episódio da última temporada.

A partir daqui o post está carregado de SPOILERS. Então é por sua conta em risco :)

No episódio desse domingo, chamado de “The Bells”, Daenerys finalmente colocou seu plano de tomar o trono de ferro, invadindo Porto Real com todas as suas tropas e claro, Drogon. O ataque foi extremamente efetivo, fazendo com que, mesmo contra a vontade de Cersei, o sino de rendição fosse tocado. A surpresa, no entanto, foi a reação da mãe dos dragões, que mesmo sob rendição do adversário incinerou não só o exército, como também um número incontável de civis.

Antes de mais nada é preciso analisar a construção do papel de Daenerys durante toda a série. Se engana quem acha que toda essa revolta foi realizada do dia pra noite. Desde as temporadas passadas, ela demonstrou que sua política era muito mais uma luta em favor à sua família do que simplesmente dar consentimento aos seus governados. Era muito claro que suas táticas eram feitas na base do domínio ao invés de empatia.

A questão é que todas as vezes em que a Nascida-da-Tormenta precisou agir dessa forma, havia alguém ao seu lado para dosar esse tipo de atitude. Jorah, Tyrion, Varis, e até mesmo Daario e Jon Snow brecavam suas ideias tiranas e a maioria de suas decisões foram baseadas no que esses terceiros acreditavam ser o melhor para que ela seguisse nessa jornada em busca do trono.

"Daenerys é uma conquistadora, não uma governante", Daario Naharis

Ao optar por lutar uma guerra que não era sua por Jon — sob a condição de que ele e o Norte se ajoelhariam a ela — Dany perdeu boa parte de seu exército, Jorah e um de seus dragões. Em troca, viu resistência de Sansa e a notícia de que, na verdade, ela não era a legítima herdeira do Trono de Ferro. Depois, ao migrar pra Porto Real, perdeu outro dragão e Missandei, sua fiel escudeira, numa emboscada feita por Cersei.

Neste episódio, ela toma conhecimento de que muita gente sabe da notícia de que Jon é o verdadeiro herdeiro e vê traição de todos ao seu redor. Ao ouvir o sino de rendição, que já havia sido proposto por Tyrion, viu novamente uma afronta. E foi aí que decidiu, sozinha, sob seus próprios conceitos, manter seu plano inicial em prática: botar fogo em tudo e tomar os sete reinos à força. A cena onde as vidraças do brasão da família Lannister são destruídas é simbólica. É a retomada da família Targaryan ao trono. É o triunfo de Daenerys, e é um equívoco ser chamada de vilã, já que a série sempre ofereceu essas nuances entre os personagens.

Mas e aí, e agora?

O trailer do próximo episódio dá a entender de que finalmente Daenerys é dona do trono e é justamente esse o intuito desse texto: Defender que esse é o único final possível dentro daquilo que The Bells ofereceu.

Antes disso, havia dois caminhos a serem seguidos. O primeiro mais convencional, com Porto Real dominado e Daenerys e Jon no trono, baseado na paz e, claro, discussões sobre o futuro de Westeros. Se o Norte se manteria independente, se os Sete Reinos se dissolveriam, entre outros pontos. Tudo perfeito para que o desfecho dos personagens principais seja o melhor dentro daquilo que é possível.

O segundo caminho foi o escolhido, mais violento, onde Dany colocou seu plano em pratica e finalmente alcançou seu objetivo, mesmo que isso lhe tenha custado o apoio de seus súditos e a baixa de diversos deles, causado por ela mesma.

Ao optar por esse caminho, não faz o menor sentido voltar duas casas e fazer um malabarismo para que Jon ou qualquer outro personagem assuma o trono além dela.

Daenerys teve perdas irreparáveis por uma luta que não era sua

Não tem porque Dany descer do dragão na intenção de conversar com quer que seja sobre o futuro de seu reino. Ela possui seu exército, conquistou o território mais importante praticamente sozinha, e ainda tem Drogon, sua maior arma. Dialogar com aqueles que ela sabe de seus desvios de lealdade seria contraditório.

Ela sabe que Sansa tem uma enorme resistência ao seu reinado em prol da independência do Norte, e sabe que foi ela quem disseminou a informação da descendência de Jon e que vai até as últimas consequências para que ela não seja rainha.

Sabe também da capacidade de Arya, já que ela mesmo a reconheceu como heroína de Winterfell ao derrotar pessoalmente o Rei da Noite e sabe, claro, da instabilidade de Tyrion, ainda mais depois que souber de Jamie, solto por ele.

A única pessoa que poderia se salvar disso seria Jon Snow, isso se ela não descobrisse que foi ele quem contou à suas irmãs sobre sua descendência e ainda tem um novo agravante, onde o Verme Cinzento o viu negar as ordens de sua rainha e ir contra o próprio exército. A não ser que haja uma nova traição, dificilmente ela não ficará ciente sobre isso.

Daenerys sabe também que não possui apoio de outros reinos, ainda mais quando souberem da verdade sobre o legítimo herdeiro. Mas isso não seria problema, pois como já dito aqui, ela possui todos os recursos para se manter no poder.

Portanto, não faz sentido ela acreditar novamente em quem quer que seja, já que sua atitude principal foi tomada sozinha. O desfecho mais coerente — e distante da discussão de ser bom ou ruim — de acordo com esse caminho escolhido é que Daenerys seja a nova governante de Westeros, retome o poder à família Targaryan e siga sua filosofia, baseada em FOGO E SANGUE, retornando aos seus princípios das primeiras temporadas, sem ninguém ao seu lado e sob os conceitos que sempre se propôs a fazer.

Quanto ao resto dos personagens, que sejam presos ou mortos, num final completamente inesperado, atípico e discutível, mas coerente com as decisões tomadas, principalmente no penúltimo episódio.

Resta esperar domingo e torcer para que David Benioff e D.B. Weiss tenham separado uma conclusão à altura do que foi a série, que mesmo irregular no seu final, se manteve como um dos maiores fenômenos da televisão.