Garotas que amam garotas: falem mais

Um viés além

Engraçado constatar como ainda somos um mistério e como é sofrido para os homens entender que não temos uma fórmula, que nunca seremos de fato desvendadas pois não somos e nunca seremos una. E é sobre essa diversidade que o texto fala, sobre o complicado e o fantástico em ser mulher.

Aqui no Medium, sigo majoritariamente mulheres, seja porque gosto e valorizo a escrita feminina, seja pelo empoderamento que isso nos impulsiona, porque acredito ser de suma importância enxergar a perspectiva das manas e a multiplicidade que cada uma traz dentro de si. Acho fundamental as iniciativas já citadas por tantas outras escritoras daqui, de nos dedicarmos mais à leitura de mais mulheres, pois ainda temos tão pouca representatividade no mundo literário que não tem como não tornar isto uma verdadeira causa a se engajar.

E foi lendo tantas escritoras maravilhosas com suas vozes tão bem estruturadas que me peguei pensando que, por mais que eu as admirasse, ainda faltava algo, ainda não me sentia plenamente representada, e é desse ponto que meu texto se bifurca e se torna um pouco diferente daquilo que eu já li ou acompanho.

Essa sensação vai além do Medium, e começa lá atrás, quando jovem, e sentia que não existia nenhuma revista especializada no público lésbico, a TPM de longe foi a mais próxima disso, mas ainda assim, nunca vi um material específico, rico e de qualidade voltado ao meu nicho. E embora hoje, as revistas tenham se tornaram um pouco obsoletas, o que enxergo é que seus substitutos: blogs, sites ou mesmo em nossa plataforma, é que se enquanto mulher ainda “brigamos” com a massificação masculina nos meios de comunicação e mídia social, enquanto lésbicas temos um enfrentamento ainda maior.

Não quero levantar críticas às garotas cis héteros, até porque se existe uma bandeira a ser levantada, ela tem de ser hasteada por aquelas que fazem parte da luta, então meu texto é mais como um apelo para que as garotas que amam garotas falem mais, é de um diálogo honesto que precisamos para nos sentirmos cada vez mais inseridas e participantes. O preconceito existe, mas creio que a nossa maior arma contra é a discussão, é se mostrar de peito e coração abertos para de fato dizer “ei, estamos aqui, não somos aquele estereótipo de 'mulher macho' ou 'mal comida'", “não existimos para que sua libido seja acarinhada”, queremos, ao contrário, destruir esse estigma, esse engodo que nos acerca.

E porque falar disso? Por que insistir que, embora feministas, ainda sentimos que nossas questões ainda não são completamente entendidas pela maioria, sejam por homens e até mesmo mulheres cis héteros, seja pelos companheiros de luta contra homofobia? Porque é exaustivo viver num mundo heteronormativo em que tudo, TUDO nos faz crer desde pequenas, que o certo e bonito é você ser a mocinha comportada e bela que espera por seu príncipe encantado, seu salvador. Isso é tão incrustado socialmente que mesmo nos dias de hoje, ainda existe a clara divisão de brincadeiras e até mesmo livros para meninas e para meninos.

Enquanto mulher, é deprimente enxergar que sempre fomos condicionadas à submissão e sendo um mulher lésbica nos é podada a nossa essência, nossa existência, nos vêem como desafios a ser violados ou escárnio a ser destruído. Estamos ainda mais a margem, pois não temos a mesma visibilidade quanto a luta do homem gay, assim como somos um nicho por vezes excluído, ignorado e até execrado no âmbito das lutas feministas.

Enfim, isto é apenas o início da discussão, talvez uma esperança de viabilizar um diálogo saudável. Espero que as pessoas entendam que não se tratam de críticas, mas de um outro viés das lutas que já lutamos e nos engajamos a tanto tempo. Discutir sobre outras perspectivas, não desvaloriza nossa luta feminista e contra a homofobia, apenas amplia para que entendamos outras realidades, outros quereres.