Gaslighting e um novo caminho para honrar as emoções

O QUE VOCÊ ESTÁ SENTINDO AGORA?

“Bem, obrigada” ou no máximo “Hoje não estou muito bem, mas logo fico” são as respostas mais comuns para mim. Mas e se eu realmente experimentasse dar espaço para as emoções? Qual a importância de nomear as emoções, e inclusive honrar e dar espaço para elas? Não seria uma perda de tempo ou até mesmo um perigo me entregar ao sentir?

Como mulher já escutei algumas vezes coisas como “você está muito sensível”, “você é tão emocional”, “você está surtando”, “para que tanto drama?” (gaslighting* detected). E para deixar de ser louca, exagerada e sensível demais às emoções aprendi que a minha mente é uma grande aliada para me ajudar a racionalizar e não me deixar à mercê das emoções.

Quando começo a sentir alguma emoção negativa criei o mecanismo do “Calma lá! Para quê isso?”. E posso dizer que isso é de fato muito útil. É a forma que criei para investigar internamente as raízes da minha aflição, me re-equilibrar e sair do mimimi de responsabilizar qualquer situação externa as minhas próprias emoções. Me tornei realmente muito boa em controlar o que eu sinto. Mas ao contrário do que eu podia imaginar, as consequências não foram lá muito boas.

Problema número 1: O feminino distorcido

“Feminino: intuitivo, colaborativo, interligado, emocional, passional, criativo, receptivo, não verbal. Masculino: analítico, competitivo, singular, racional, determinado, linear, lógico, objetivo, assertivo, verbal” Todos nós enquanto seres humanos temos dentro de nós características essencialmente masculinas e femininas.

Mas, o que acontece em uma sociedade materialista racional patriarcal? Muitas características femininas ficam suprimidas. Não é difícil reconhecer nessa lista o quanto as características masculinas em geral são mais apreciadas na ciência clássica, no mercado de trabalho e consequentemente no nosso mundo atual.

Tenho me dedicado a estudar sobre esse momento de transição que estamos passando enquanto humanidade, e as transformações que os desafios atuais nos tem exigido. Acredito que uma das grandes mudanças que estamos passando é a transição para uma sociedade pós materialista, na qual a racionalidade será acompanhada de outras formas de conhecimento e apreensão.

“O fato é que energia é comunicação e nós vibramos e transmitimos como um rádio. Estamos transmitindo quem somos no campo e alteramos o que está acontecendo o tempo todo. E isso está além da linguagem, é uma comunicação que não tem nada a ver com palavras.

É uma energia que está disponível e você só precisa senti-la. E acho que essa é a grande questão: sentimentos. Então, temos um novo mundo que estamos entrando, e é baseado em energia. E se você pode ler energia, você está sendo guiado. Você pode perguntar a sua mente e racionalizar qualquer coisa, mas eu lhe digo, não leve as questões para sua cabeça, pergunte ao seu coração.” Bruce Lipton, biólogo celular.

Ler energia, ouvir o coração, sentir e não pensar? Percebi que isso foi se tornando muito difícil para mim. Para tentar me encaixar, eu neguei o feminino e supervalorizei o masculino em mim e perdi muito. Acredito fortemente que aquilo que a gente nega vira sombra, e a sombra pode se manifestar de maneira distorcida ou desequilibrada. Perdi a minha capacidade de conectar com o sagrado, com esse campo de energia e essa inteligência que ultrapassa o mental.

Problema número 2: Alô intuição!

O pensamento é uma importante faculdade mental, mas não é a única. Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Jung, as funções psicológicas orientadoras da consciência, são: sensação, pensamento, sentimento e intuição.

A sensação nos diz que algo existe, são os órgãos de sentido, aquilo que se manifesta no nosso corpo, o que observamos. O pensamento formula racionalmente aquilo que percebemos, nos dizendo o que é aquilo. O sentimento conecta nossas emoções dá valor e propósito ao que é observado. E a intuição seria então uma junção de todos os nossos sentidos, de modo a dar significado e conectar o todo nos mostrando as possibilidades do que fazer.

Lesly B. Juarez

A intuição não possui apenas uma definição, mas para mim seria como uma espécie de consciência ampliada que se conecta com o campo de energia, o espaço imaterial, o todo. É essa percepção simultânea do todo, a habilidade de enxergar as conexões e assim de fato vivenciar esse todo. O problema não é usar a mente e racionalizar, isso inclusive pode ser o ponto falho que precisa ser trabalhado por algumas pessoas. Mas para mim, ao supervalorizar o pensar, percebi que precisava reaprender a me conectar com emoções e sensações para conciliar as quatro funções dessa bússola e me conectar com a intuição.

Problema número 3: efeito Medusa

Acredito muitíssimo no poder das histórias e nos trabalhos de Joseph Campbell, Clarissa Pinkola e da minha própria tia Elizabeth Fonseca Pinto sobre como a nossa vida repete os mitos. O estudo das deusas gregas me apresentado através do contato com a Ciranda das Deusas é para mim um grande sustentáculo no estudo sobre o adoecimento do feminino e a integração com o masculino.

Estudando sobre as deusas percebi que apesar de Atena não estar entre as minhas “deusas de base”, ou seja, aquelas que mais naturalmente eu me identificava, ela havia se tornado muito forte na minha vida. Principalmente após sofrer com o gaslighting a ponto de acreditar que de fato eu era louca e não sabia lidar com minhas emoções, tentei adquirir a praticidade e objetividade de uma boa Atena. E acredito que como eu, várias mulheres tenham aprendido a desenvolver uma Atena forte para transitar no mundo racional materialista patriarcal.

Quem é Atena?

“Nascida pela cabeça do pai”, a menina Atena se identifica desde cedo com o modelo patriarcal. O molde patriarcal parece ter sido feito sob medida para as características de praticidade e baixo envolvimento emocional próprios do arquétipo de Atena.

No mundo de hoje, e especialmente para quem vive nas grandes cidades, é muito fácil encontrar mulheres Atena. A afinidade com as leis do patriarcado faz com que esta mulher transite com bastante desenvoltura no mundo masculino dos negócios e atraia admiração e respeito por parte de seus colegas. O mundo moderno valoriza sobremaneira as mulheres Atena que se tornaram símbolos de mulheres modernas bem sucedidas.

No entanto toda essa maneira ‘espetacular’ de ser, essa forma tão valorizada e respeitada, que parece colocá-la acima de qualquer sofrimento, também tem seu preço. Vocês se lembram que, no mito, a deusa Atena portava em sua armadura, na altura do peito, uma cabeça de Medusa? Essa terrível Górgona tinha o poder de transformar as pessoas em pedra! Uma das maldições que acompanha uma mulher Atena que não desenvolveu habilidades de outras deusas, é a tendência a ‘petrificar as pessoas’ em seus relacionamentos (Jean Shinoda Bolen denominou muito oportunamente, essa tendência como ‘efeito Medusa’). Essa mulher tem uma incrível habilidade para intimidar os que não são como ela, para minar-lhes a espontaneidade e jogar um ‘balde de água fria’ nas expressões sentimentais. Falta-lhe a empatia necessária ao estabelecimento de relações íntimas e profundas, e ela pode aparentar ser arrogante e fria em suas relações.” A Ciranda das Deusas

Temendo que sentir demais pudesse me levar a loucura, aprendi a suprimir em parte características do meu lado feminino e a expressão das outras deusas. E não mais de uma vez, me vi com dificuldade de me relacionar emocionalmente com as situações, o outro, e comigo mesma. Teria eu sido amaldiçoada pelo efeito Medusa?

Problema número 4: o entorpecimento

Raiva, tristeza, ciúme, medo, desequilíbrio e tantas outras emoções negativas realmente não são confortáveis e é natural tentar escapar delas. E foi o que eu fiz. Hoje é muito mais fácil me ver sorrindo que chorando, apreciando as situações teoricamente difíceis, e adquirindo uma certa praticidade para lidar com as questões da vida.

E mais uma vez, não vou negar que há um lugar para isso. Mas como tudo na vida, precisamos aprender a nos equilibrar e chegar no caminho do meio. Foi com a Brené Brown que aprendi que não existe entorpecimento seletivo. Quando optamos por não nos relacionar com emoções negativas, também entorpecemos a luz e as emoções positivas.

A alegria é espinhosa e aguda como qualquer das emoções sombrias. Amar alguém apaixonadamente, acreditar em algo com todo o coração, comemorar um momento fugaz, se dedicar totalmente a uma vida que não vêm com garantias, esses são riscos que envolvem vulnerabilidade e frequentemente dor. Quando perdemos nossa tolerância ao desconforto, perdemos alegria.” Brené Brown.

Essa praticidade e distanciamento emocional me levou primeiramente a me afastar também de sentir qualquer emoção com intensidade. Me lembro da minha família contando da minha alegria incontrolável nas noites de natal, ou da primeira vez que me apaixonei e do frio na barriga nas vésperas do encontro, ou da excitação antes de uma festa de aniversário. Mas assim como não perco o meu controle e não me entrego profundamente na dor, também adquiri uma resistência inconsciente a sentir qualquer coisa com tamanha entrega.

E ainda, percebi que muitas vezes se tornou mais fácil para mim optar pelo que é leve e fácil para turvar profundidade e evitar me perder em emoções. Afinal, não posso controlar emoções, e se não posso controlar poderia me tornar passional, louca e emocional demais outra vez.

O caminho do meio

Resolvi então entrar nessa jornada rumo ao caminho do meio, no integrar do feminino e masculino, do pensar e do sentir. Durante 40 dias, topei ao menos uma vez por dia me conectar profundamente com aquilo que eu sinto. Por alguns instantes, sem racionalizar, sem buscar justificar, entender ou mitigar dou espaço e honro as minhas emoções. Dou boas vindas, abro as portas, convido para ficar comigo. Observo como ela se move pelo meu corpo, acho graça da minha mente tentando conversar com ela, mas deixo claro para a emoção que aquele momento é todo dela.

Depois, dou mais um tempo para ela sem me preocupar em entender e levar para a mente. Para isso, quase intuitivamente, escolho uma música que suporta aquela emoção. Não vou para a minha zona de conforto de tentar escrever sobre ela, conversar ou entender de onde vem. E depois, para finalizar, procuro nomear de forma mais específica possível aquela emoção, o que faço com ajuda desse e desse site.

Estou percebendo com esse exercício a minha forma de chegar no caminho do meio não me tornar vítima das minhas flutuações emocionais, e ao mesmo tempo não entorpecer meus sentimentos.

  • Primeiramente não ter medo do que eu sinto. Sem o medo, percebo que quando dou espaço para minhas emoções, tiro elas da sombra e não sou dominada por elas.
  • Não tentar pensar sobre minhas emoções, mesmo que por alguns instantes, me permite uma conexão com meu corpo e com minha capacidade de sentir.
  • Nomear minhas emoções é uma forma de não ser dominada por elas, e de abrir minha mente para aí sim investigar e reconhecer soltando a história e desapegando do mimimi.

*Gaslighting: comportamento manipulador usado para induzir pessoas a pensarem que suas reações são tão insanas que só podem estar malucas. Uma pessoa gaslaiteadora é alguém que apresenta informação falsa para alterar a percepção da vítima sobre si mesma. O termo se tornou comum no vocabulário feminista, uma vez que mulheres são frequentemente as maiores vítimas desse fenômeno.