Geração Y e mudanças na vida: ainda estamos preparados?

Quase ninguém gosta de ficar preso em uma rotina do tipo todos-os-dias-fazendo-as-mesmas-coisas-do-mesmo-jeito. Tudo sempre igual. Chato né? Eis que surge uma oportunidade de mudar. E agora? O que eu faço?

Fonte: Pinterest

A mudança, por mais desejada que seja, sempre causa um medinho. A gente fica com receio do desconhecido, sem saber como se portar, desconfortável mesmo por estar saindo da nossa rotina. Não parece, mas a gente se acostuma com aquela zona de conforto de tal maneira que quando saímos dela sentimos um medo que nem dá pra explicar direito.

Eu sou uma pessoa da geração Y. Aquela geração que não para quieta, sabe? Que não se estabiliza nos empregos, quer sempre novidades, desafios, que quer fazer “tudoaomesmotempoagora”. Que usa o tablet e o celular ao mesmo tempo, enquanto vê TV e come um lanche. Que se incomoda quando alguém demora pra responder uma mensagem online, que mal se lembra do tempo que mandava cartas manuscritas para os amigos e precisava esperar por dias a resposta. Então, sou dessa geração da urgência de viver tudo a gente puder, como se nossa vida fosse curta demais, fosse acabar logo.

Já deu pra sacar que a inquietude está no meu DNA. Até os 20, tava tudo lindo. Mudar de visual, mudar de emprego, mudar de cidade. O importante era renovar a paixão, mesmo que ela dure poucos meses. Mas agora, na casa dos 30, o preço por mudar me parece cada vez mais caro. Só de pensar na trabalheira que dá mudar de casa, por exemplo, já bate uma preguicinha. Que dirá mudar de cidade ou de emprego. Definitivamente não é mais tão simples quanto era há 10 anos.

Mudança e Trabalho

Hoje eu quero falar especificamente das mudanças de trabalho. Estou passando por uma nesse momento. Eu entrei no meu emprego na esperança de ficar por lá até me aposentar. Naquele mesmo setor. Fazer carreira naquele cantinho da empresa e pronto. Considerando que a empresa onde trabalho é de grande porte, não era um sonho pouco ambicioso, pelo contrário, era um planejamento de uma pessoa que tinha foco. Teria 30 anos de trabalho pela frente. No começo era interessante, dinâmico… mas depois já foi ficando chato. E o olhar para o horizonte pesava ainda mais o cotidiano. “Vou ficar fazendo isso pro resto da minha vida???”, pensava, já desconfortável com aquela situação.

Sabia que precisava mudar, pois se em 4 anos já estava ficando cansativo e monótono, imagine depois de 30? Mas me faltava coragem, me faltava o desprendimento da juventude e a autoconfiança de que eu poderia render mais que aquilo.

Por sorte, ou por resposta do Universo às minhas emanações, meu setor precisou ser reestruturado e eu tive a oportunidade/necessidade de procurar outros caminhos. Na hora, meu chão se abriu. Mas depois de alguns minutos eu percebi que era a hora de voar. E lá vou eu, prum novo voo, sem um destino certo ainda mas com algumas possibilidades bem estimulantes, fazendo um voo para o qual o não tive coragem de saltar, como das outras vezes, mas percebendo que minhas asas não estão cortadas nem atrofiadas, que eu ainda sei fazer isso e é bem gostoso.

De repente eu me vi com a possibilidade de dar um novo rumo na minha carreira, de refazer planos e me permitir experimentar coisas novas. Já não sou mais aquela moça que entrou na empresa com a ideia fixa de trabalhar em um determinado setor. Já tenho outros interesses, outras demandas e aquela rotina não estava mais se encaixando em meus anseios. Eu estava enjaulada em um planejamento de vida que eu mesma havia feito pra mim e não tinha coragem de reprogramar.

Muita gente da minha geração está hoje voando por necessidade, pela conjuntura econômica e política de nosso país. Demissões são cada vez mais frequentes e não importa o quão capacitado ou qualificado o profissional seja, as empresas estão reduzindo os custos para tentar sobreviver a essa crise.

É duro saber que nem sempre a mudança vem por uma iniciativa nossa, e sair dessa nossa bolha narcísica é o primeiro passo pra conseguirmos um novo ninho. O jeito é lembrar dos nossos começos de carreira, quando o trabalho logo se tornava insuficiente para nossas demandas e buscar novas perspectivas. Lembrar daquela energia e disposição, aquela mesma que te fez subir mais rápido que o convencional na carreira ou te motivou a largar tudo, mudar de cidade e experimentar novos ares. Então, lembrou? Tira a poeira dela e vá em frente Voe!

Não sou sozinha

Não sei se a geração Y está começando a criar raízes. Estamos amadurecendo, tendo filhos e assumindo cada vez mais compromissos à longo prazo. Isso é verdade. Mas aquela vontade de jogar tudo pro alto ainda persiste. A cada reviravolta na vida, reviramos também outras vidas, que talvez nem estejam tão entediadas assim com a rotina. E é preciso avaliar bem o quanto uma mudança pessoal pode impactar a vida das pessoas que te cercam e que dependem de você. Fica cada vez mais difícil colocar tudo numa mochila e viver descobrindo lugares por aí. No meu caso, meu novos voos se limitam a uma distância e a um horário de trabalho que eu possa buscar e levar minhas filhas para a escola. É a vida. É a minha realidade hoje. E para outros, as limitações podem ser diferentes, mais ou menos restritivas.

Mas nada disso é impeditivo. As limitações são pontuais e específicas. A gente sabe que, nesse modelo machista e patriarcal de sociedade, as mulheres acabem ficando mais restritas. Basta a mulher que é mãe trabalhar em horários não convencionais que já rola uma culpabilização pela sua “ausência” na educação dos filhos. Ou pior ainda, quando mulher-mãe opta por ir morar em outra cidade por uma oportunidade de trabalho e os filhos ficam com o pai ou outro parente. Aí é o fim do mundo! Sempre aparece um pra apontar o dedo.

Mas quer saber? A partir do momento que você se permite romper barreiras pessoais, vencer medos e encarar desafios, essas barreiras externas também podem ser vencidas. Quem sabe o que é melhor para sua família são os membros dela. Quem sabe o que é melhor pra você é você mesma. O equilíbrio é construido com diálogo e compreensão, e não com pitacos externos e opiniões preconceituosas.

Ainda estamos preparados?

Sou uma mulher da geração Y. Cresci em uma época de prosperidade econômica, em um modelo de sociedade que me dava retornos rápidos e quase sem nenhum esforço. Aprendi que conhecimento acadêmico era capital e que ele me faria chegar longe. Eu sei voar, nasci sabendo. Agora, cabe a nós, aprendermos que só isso não basta. Que às vezes é preciso subir todos os degraus, um por um, e não só sair pulando, querendo chegar mais rápido. E se a gente cai lá de cima, é possível subir tudo novamente.

Talvez tenha demorado, mas agora estamos aprendendo que nem tudo é do nosso jeito, no nosso tempo. E também aprendendo a lidar com outro cenário socioeconômico. Saímos da nossa bolha de privilégios e conhecemos a realidade. Descobrimos que não somos tão extraordinários e perfeitos como crescemos acreditando, somos normais, falíveis. E estamos preparados para mudança, basta ter coragem para alçar novas rotas de voos e por em prática o que aprendemos com a vida.