Pobre menina rica: a triste trajetória de Rory Gilmore

Essa expressão facial resume.

Já sabe que tem spoiler, né? Tá avisado.

Gilmore Girls, além de ser uma série sobre família e maternidade, é uma série sobre classe social. Se isso nunca passou pela sua cabeça, assiste de novo, assiste direito. A questão da classe social está presente em tudo desde o primeiro episódio.

Sabemos que Lorelai vem de uma família rica. Lorelai nunca gostou desse meio: os valores, as convenções sociais, as tradições, as formalidades e, de maneira geral, o tratamento frio e distante que sempre recebeu dos pais. Aos 16 anos, Lorelai engravida de Christopher, que também tem uma família rica. As famílias se unem para discutir o futuro dos dois. Para os pais de Christopher, está tudo resolvido: ele irá trabalhar em sua empresa e os dois se casarão. Com pavor dessa ideia e rejeição àquele mundo, Lorelai foge com a bebê ainda pequena e vai trabalhar de faxineira em uma pousada em Stars Hollow, cidadezinha próxima.

Esse início da série já é uma forçaçãozinha de barra. Por pior que fossem Emily e Richard, é exagerado pensar que uma menina de 16 anos, que cresceu com empregadas, mordomias e tudo na mão, vai trabalhar de faxineira com uma recém-nascida só pra ficar longe dos pais. Me pergunto, se isso fosse a vida real, quanto tempo levaria pra que ela achasse a vida difícil demais e voltasse correndo para eles. Mas Gilmore Girls é uma série meritocrática e, com muito esforço, muito orgulho e sem nenhuma ajuda financeira, Lorelai vai subindo na vida e, aos 32 anos, é gerente da tal pousada onde começou como faxineira. A primeira dificuldade que a faz pedir ajuda aos pais é a necessidade de pagar uma escola cara para Rory.

Lorelai, como mãe, é o total oposto de Emily. Por julgar sua mãe distante, autoritária e crítica, Lorelai cria Rory com muito afeto, relação simétrica (o que é meio impossível entre mãe e filha) e total aceitação. Rory é, desde bebê, muito amada. Não que Emily não ame Lorelai, mas Lorelai é melhor nessa coisa de demonstrar amor pela filha. Rory cresce se sentindo especial. Logo que a série começa, sabemos que ela é inteligente demais, boa demais, especial demais pra viver pra sempre naquela cidade que não tem nada a oferecer — deu pra perceber um elitismo? Embora Lorelai tenha fugido daquele mundo, ela reconhece que sua filha terá mais oportunidades na vida se estudar no melhor colégio possível, na melhor faculdade possível.

É assim, então, que as três se reúnem. Rory, com dinheiro dos avós, vai estudar em colégio de gente rica. E é só aí, aos 16 anos, que Rory começa a ter contato com esse mundo. Até então, Rory tinha vivido sem luxo com Lorelai. E o que acontece é que Rory, a princípio toda certinha e perfeitinha, com o tempo, fica deslumbrada com as facilidades que tem ali. Ora, temos aí o pacote completo para a formação de uma adulta frustrada: primeiro, ela cresce ouvindo da mãe — e de toda a cidade — que pode tudo e, em seguida, ela passa a ter acesso a facilidades que tiram dela a necessidade de fazer muito esforço. Seus avós são cheios de contatos e estão sempre prontos para resolver o que quer que seja.

Vamos pular pra faculdade. Acho muito interessante a relação da Rory com o Logan, o namorado mais odiado dos três que ela tem ao longo da série. Logan costuma ser odiado por ser playboy e por ser o cara que leva Rory a fazer um monte de besteiras. Vejo o Logan como um cara muito mais responsável e consciente do que a Rory. Acredito que o que a atrai nele é essa liberdade que ele tem. Rory não é perfeita, é reprimida. E, com Logan, ela se solta e começa a fazer as besteiras que não fez quando era mais nova.

O emprego no jornal do pai do Logan, ela consegue exatamente por ser namorada do Logan. Quando Mitchum diz que ela não leva jeito pra ser jornalista, é compreensível que aquilo seja um baque gigante para ela: ninguém, em toda a sua vida, havia lhe dito que ela não era boa em algo. Rory, embora estudiosa, nunca precisou se esforçar na vida. Nesse momento, em que o jornalismo se torna um desafio, ela surta e decide trancar a faculdade.

Foi mais ou menos nessa época que desenvolvi antipatia pela Rory, por causa da maneira que ela trata a mãe quando tudo isso acontece. É ali, quando Rory é contrariada pela primeira vez na vida, que fica evidente o quanto ela é mimada — o que não deixa de ser culpa da mãe. Ela consegue passar um ano fazendo NADA, vivendo às custas dos avós, enquanto tenta superar a dor que foi ouvir que não era boa naquilo que tinha escolhido fazer. Com o tempo, Rory cansa da avó se metendo em sua rotina, e vai morar com Logan, às custas da família dele, com direito a motorista.

Quando Rory, enfim, volta aos estudos e a correr atrás da carreira que pretende seguir, temos a impressão de que ela aprendeu alguma coisa naquela fase, mas não temos prova nenhuma disso. Imagino que deva mesmo ser difícil aprender alguma coisa quando sua vida é tão fácil. Trancar a faculdade não teve grandes consequências na vida de Rory: ela não precisou trabalhar pra se sustentar nesse período e não passou por nenhum tipo de necessidade. Muito pelo contrário, no período em que ficou afastada da faculdade, Rory apenas se divertiu com o namorado e seus amigos, enquanto gastava dinheiro dos outros. Assim é fácil ficar deprimida e tentar se descobrir, não?

Acontece que Lorelai, por rejeitar tudo aquilo que o mundo dos ricos representava para ela, criou Rory totalmente afastada desses privilégios. E Rory, quando descobre que eles existem, quer mais é aproveitá-los. Ela não aprendeu os valores que a mãe tentou ensinar e, por isso, não vê nada de errado naquele mundo e, mais que isso, se sente atraída por ele. Ela quer sim as facilidades que o dinheiro traz. Ela gosta daquela inconsequência do grupo do Logan, que pode roubar barcos, matar aulas, destruir clubes e se jogar de penhascos, sem que nada nunca dê errado pra eles, pois o dinheiro compra a solução de todos os problemas. Rory quer a vida boa. Enquanto Lorelai tem orgulho de batalhar pelas próprias coisas, Rory quer tudo de mão beijada e faz pirraça se não conseguir.

Nove anos depois, ao que parece, nada mudou. Rory agora tem 32 anos e continua sem emprego fixo, sem lugar pra morar, rondando em volta do Logan (que, incentivado pelo pai, tornou-se muito mais responsável que ela) e se achando uma grande coitada por tudo isso. Tudo bem que, hoje em dia, é bem comum ter 32 anos e não ter a vida toda resolvida. Mas estamos falando de uma menina que tem avós ricos, um pai milionário, uma mãe que a incentiva para absolutamente tudo, que estudou no melhor colégio possível e em uma faculdade Ivy League. Duvido muito que, aos 32 anos, Rory esteja desempregada porque lhe faltaram oportunidades. Aos 32 anos, Rory está desempregada e sem lugar pra morar, porque tem dinheiro o suficiente pra que emprego e moradia não sejam prioridades. E, enquanto isso, ela fica dando um pulinho ali em Londres e volta como se Londres fosse um bairro vizinho.

Todo o incentivo que família e vizinhos sempre deram a Rory se converte agora em uma semi-adulta com atitude de criança. Uma pessoa que acredita mesmo que é boa demais pra certos empregos e que recusa boas oportunidades que surgem enquanto aguarda uma entrevista no lugar dos sonhos — entrevista essa, que ela só consegue quando o pai do Logan mexe uns pauzinhos pra ela.

Os privilégios e mimos que Rory sempre teve agora jogam contra ela. Todo mundo à sua volta tem uma vida. Lane tem uma família, um emprego e ainda toca com a banda. Paris tem toda uma clínica de fertilidade, além da família com Doyle. Logan trabalha e está de casamento marcado com alguém que “a dinastia aprova”. E Rory continua a mesma de sempre, perdida por aí. Ela era tão boa, mas tão boa, e tão especial, que não fez nada com a própria vida.

Lembra de quando ela era uma adolescente brilhante, que adorava estudar?

Do ponto de vista da trajetória da Rory, o revival de Gilmore Girls foi muito triste. Mostra que, nesses nove anos que se passaram, Rory não aprendeu que o mundo não lhe deve nada e que ela não tem passe livre pra fazer tudo que bem entender. Ela ainda é a mesma menina irresponsável da faculdade, como se tivesse gastado toda a cota de responsabilidade na adolescência. O caminho que ela parece tomar para enfim chegar a algum tipo de amadurecimento é escrever um livro sobre ela e sua mãe — veja bem, algo que ela, sem emprego ou qualquer tipo de remuneração, tem tempo pra fazer. Mas parece que Amy Sherman-Palladino, autora da série, quis castigá-la.

Entendo a romantização de mostrar o ciclo e a Rory como uma nova Lorelai, o Logan sendo o Christopher dela etc. Acredito, no entanto, que a questão chave aqui é que Rory vai ter que aprender na marra. O mundo de fantasia no qual ela vem vivendo está para acabar e, finalmente, a inconsequência dela tem uma consequência: ela está grávida do Logan. Ela não tem emprego, não tem carreira, não tem namorado, e vai ter que criar uma criança sozinha (sem pai).

A gravidez da Rory como fim da série me parece muito mais uma lição moral do que um fechamento de arco da personagem. No entanto, não sei o quanto de empatia podemos sentir por ela, quando estamos falando de alguém que 1) passou dez anos vivendo de maneira irresponsável, 2) tem toda a estrutura necessária (e muito mais) para criar um filho e 3) só está desempregada porque quer.

É nesse sentido que Gilmore Girls é uma série sobre classe social. Toda a trama dessa série só é possível em um mundo privilegiado em que ninguém nunca está realmente ferrado, porque, se de fato chegar a isso, é só usar o dinheiro ao qual tem acesso e que não usa porque não quer. Esse é todo o mote da série: Lorelai nega suas raízes de elite até o momento em que surge algo que ela considera importante o suficiente pra retomá-las. E Rory, por fim, leva uma vida inteira de pequenos fracassos pessoais simplesmente por não ter aprendido a fazer esforço — e, provavelmente, nunca vai aprender, porque não precisa.