Halloween renova e revigora o terror slasher

Há 40 anos, Halloween chegava às telas do cinema e ficaria marcado como o primeiro slasher movie da história. Criado por John Carpenter sob o custo de US$ 300 mil, o filme não só estourou nas bilheterias mundiais (US$ 70 milhões), como se transformou em uma das maiores referências do terror por muitos e muitos anos, ditando tendências e temáticas para as maiores franquias do gênero, como Sexta Feira 13, Pânico, entre outros. Porém, suas continuações nunca chegaram à altura do clássico, pelo menos até agora, em que chega o décimo filme da franquia como uma continuação direta do primeiro filme.

Halloween se passa exatamente 40 anos depois dos acontecimentos daquele Dia das Bruxas de 1978. Myers está preso em um manicômio e Laurie vive à sombra de seu passado, tentando superar os traumas enquanto reconquista a confiança de sua filha e sua neta, sem esquecer um dia sequer do assassino que acabou com sua vida.

Uma das coisas mais curiosas desse novo filme está na sua produção. David Gordon Green é basicamente um diretor de comédia, e aqui trabalha no roteiro ao lado de outro especialista do gênero, Danny McBride, com quem trabalhou em Segurando as Pontas. As chances de dar errado eram enormes, mas parece que a dupla realmente estava preocupada em entregar um resultado respeitoso ao clássico.

Isso porque o novo Halloween é exatamente isso, um filme que ignora completamente todas as nove sequências, mas respeita e homenageia o primeiro filme como poucas sequências fazem nos dias de hoje. São diversos takes que relembram algumas sequências de 78, todas elas naturais, sem a necessidade de criar um alarde, são só referências pro fã apontar e esboçar aquele sorriso de canto.

E mesmo assim, bebendo declaradamente na fonte de Carpenter — que também produz o filme- Green consegue trazer alguns elementos que tornam a obra autêntica, como não se tratar apenas de um filme de terror gratuito. Logo no começo já se constrói toda a narrativa para ligar os dois filmes e a partir daí já há a existência de uma nova trama, num contexto diferente, marcado por traumas e desejo de vingança, tanto por parte de Michael Myers, quanto por parte de Laurie.

Jamie Lee Curtis de volta ao papel que a consagrou

Trazer Jamie Lee Curtis de volta ao papel foi o maior acerto. A atriz que eternizou a personagem surge mais carregada, com algumas camadas a mais e muito mais casca grossa do que quando conseguiu escapar do assassino há quarenta anos. Seu semblante e toda a história em volta de sua família e a criação de sua filha são bem colocadas, as consequências do que aconteceu no passado também servem como um fio condutor ideal pra criar a atmosfera.

O assassino Michael Myers também retorna em alto nível. Muito longe daquele personagem das sequências, ele volta a atuar nas sombras, silenciosamente e sem a menor misericórdia por suas vítimas. A mescla entre mortes explícitas e as subjetivas ajudam a construir o tom do personagem. É a volta triunfante do mascarado, que funciona perfeitamente com Curtis, e o jogo de gato e rato entre os dois é instigante, alternando a caça entre os dois, sendo ora por parte dele, ora por parte dela.

No fim das contas, o novo Halloween é uma sequência honesta, que não tenta reinventar a roda, mas ainda assim surge como uma obra bem legítima, mesmo tendo todos os clichês básicos do gênero. Além disso, é também a prova de que é possível criar um bom slasher, uma categoria que desde muito tempo não acerta a mão, nos dias de hoje.