O que harmonização facial, políticas de diversidade e solidão têm em comum além do fato de que provavelmente você ouviu falar dos três nos últimos tempos?

Marcelle Xavier
May 23 · 6 min read

Padrões estéticos e suas consequências

O que é bonito para você? Talvez você não perceba, mas somos influenciados por um padrão de beleza europeu, reproduzido de Hollywood a TV Globo (sem deixar de fora nosso feed do Instagram). Pegando o exemplar de mulheres, uma vez que somos as maiores vítimas da objetificação e massificação, somos reconhecidas como bonitas quando somos BEM magras, com silicone, sobrancelha preenchida, cílios longos, lábios carnudos, pele mais clara…

Um estereótipo alimentado por fotos photoshopadas, permutas de influenciadoras com clínicas de estética e rostos cirurgicamente modificados. A nova moda agora é a harmonização facial, que combina procedimentos estéticos para “melhorar” a harmonia do rosto basicamente deixando todo mundo igual.

Um dado impressionante que mostra o quanto entramos na esteira de objetificação é a quantidade de pessoas loiras versus a quantidade de pessoas NATURALMENTE loiras. Considerando vários graus de loiro (começando do castanho claro) apenas 2% da população adulta de todo o mundo pode ser considerada naturalmente loira. Mesmo sendo minoria, esse padrão acaba sendo reproduzido em massa uma vez que é o europeu. Não consigo contar o número de mulheres que conheço que passam quatro horas no salão e gastam pequenas fortunas ressecando os fios de ponta a ponta para serem aceitas como bonitas na nossa sociedade.

Vale ressaltar que não estou condenando mulheres (e homens) que se submetem a procedimentos estéticos para se sentir melhor. Quem nunca? Seu corpo, suas regras! Mas é importante perceber o quanto admiramos e replicamos padrões de beleza restritivos e provavelmente irreais. E o quanto isso causa sofrimento, principalmente em pessoas que não se reconhecem nesses padrões, como mulheres negras, gordas e trans, por exemplo (o que graças às deusas está sendo questionado e reconstruído).

E o sofrimento por não se identificar com os padrões não é só estético.

Padrões corporativos e suas consequências

Quando olhamos para dentro das empresas, percebemos o quanto certos padrões também predominam. Homens brancos heterossexuais estão, de maneira geral, no poder. Vamos a alguns números?

Mulheres hoje ocupam menos de 38% dos cargos de liderança nas empresas e negros ocupam menos de 5% dos conselhos administrativos das 500 maiores empresas do mundo.

Uma pesquisa realizada pela Etnus Hay Group identificou que 67% dos entrevistados deixaram de ser contratados por serem negros, outros 62% disseram já ter sido alvo de discriminação racial numa entrevista de emprego e 60% contam que já sofreram preconceito racial no ambiente de trabalho.

A falta de diversidade nas equipes é um atraso e pode causar grandes problemas. Desde aquele errinho de pauta ou de abordagem que poderia ser facilmente evitado se tivesse mais diversidade nos times de comunicação (65% das mulheres brasileiras não se sentem representadas na publicidade segundo o Instituto Patrícia Galvão) até a dificuldade de criar produtos que realmente fazem sentido para diferentes perfis de consumidores.

(Coca Cola em campanha de diversidade criticada por só trazer homens brancos)

Basta pensar que a maioria da população do Brasil hoje é feminina (52%) e negra (54%), e a maioria dos funcionários das empresas são homens brancos. Discussões acerca do parto humanizado ou em torno da foto do peitoral feminino, que surpreendeu muitas de nós que nunca nos vimos representadas nem mesmo nos livros de biologia, são exemplos que nos mostram que estamos consumindo produtos, conteúdos e até tratamentos médicos criados por homens que pouco conhecem sobre a realidade de quem os consome.

Imagem que viralizou com a legenda “ Acabei de perceber que nunca tinha visto uma foto do sistema muscular feminino.” e gerou reações que demonstraram que de fato não é um conhecimento comum

Talvez nos cursos de inovação e abordagens centradas no usuário deveríamos sim falar sobre a necessidade da empatia para desenvolver coisas que fazem sentido no mundo. Mas deveríamos falar sobre o fato de que a empatia tem um limite, e que diferentes pessoas não devem ser só estudadas e “empatizadas” se queremos criar realmente coisas úteis no mundo, e sim envolvidas de ponta a ponta na criação.

Um pouco de diversidade (será?)

Os números da pesquisa do Etnus Hay Group apontam para os benefícios indiscutíveis da implementação de políticas de diversidade nas empresas. Elas são mais inovadoras (76% dos funcionários das empresas que se preocupam com diversidade reconhecem que têm espaço para expor suas ideias e inovar no trabalho), há maior engajamento (em ambientes de diversidade os funcionários estão 17% mais engajados), menos conflito (a existência de conflitos chega a ser 50% menor em empresas onde há diversidade) e até mesmo são mais lucrativas (empresas que investem em diversidade têm probabilidade 33% maior de superar outras empresas na lucratividade).

Apesar de todos esses números, quando olho para muitas das empresas mais inovadoras ao meu redor, vejo um board formado por homens e/ou brancos, e mesmo em ambientes que estão tentando quebrar paradigmas, não vejo muitas pessoas que fogem da bolha jovem classe média/alta.

Algumas empresas já estão buscando intervenções focadas em promover diversidade, inclusão e interseccionalidade. Mas a verdade é que até empresas onde temos muitas mulheres (para citar um exemplo) valorizam prioritariamente aquelas que se adequaram a padrões masculinos de trabalhar e produzir. Não é à toa que o índice de desigualdade salarial aumenta consideravelmente quando as mulheres engravidam. Poucas empresas estão preparadas e dispostas a valorizar outros modos de trabalho e outros saberes para realmente acolher as diferenças.

De maneira geral, políticas de diversidade falham porque em sua maioria não endereçam estruturas de poder. Apesar de olhar para os grupos excluídos, elas mantém intacta a cultura dos grupos dominantes. É mais ou menos assim: eu até te aceito, desde que você se ajuste ao que já temos aqui!

Inclusão real significa criar uma cultura que permita que todas as pessoas sejam inteiras e tragam tudo que são para os ambientes de trabalho. Quando as empresas contratam funcionários com perfis diferentes dentro da organização, ou quando promovemos diversidade em qualquer outra coisa que realizamos, como vamos criar uma cultura de inclusão que permita a todos pertencer? Precisamos garantir que as pessoas não sejam marginalizadas e que suas diferenças sejam recebidas, consideradas e valorizadas.

Falta de diversidade e solidão

A eliminação da alteridade, o princípio do desempenho típico do arquétipo masculino, a padronização estética e cultural, tudo isso influencia até mesmo o amor e a sexualidade. A forma como nos relacionamos hoje é altamente narcisística e, de maneira geral, buscamos nos relacionar apenas quando o outro vira um espelho que confirma nosso próprio ego.

Somos muito ruins de nos esvaziar para experimentar o outro. Perseguimos tanto a normatividade que muitas vezes preferimos ficar sozinhos a permitir a vulnerabilidade que envolve sair de si mesmo e direcionar-se para o outro. Quando já estamos com alguém, topamos enxergar apenas aquilo que nos valida, o que a gente concorda, o que a gente faria se estivesse no lugar no outro.

O filósofo coreano Byun Chul Han defende que se fosse possível eliminar a distância em relação ao outro, aprender ou se reconhecer nele, não seria mais o outro, e sim um reflexo de nós mesmos. Não é possível amar alguém se o privamos de sua particularidade, de sua diferença, se somos incapazes de tomar distância.

“Hoje tentamos aproximar o outro o máximo possível, buscamos eliminar a distância em relação a ele, produzindo proximidade. Mas, com isso, já não temos mais o outro, antes, fazemo-lo desaparecer. A total eliminação da distância não gera proximidade, mas ao contrário, afasta-a”. Byun Chul Han

Vivemos o inferno do igual, e nesse lugar a diferença pode ser apocalíptica. Mas como propõe o filósofo, talvez somente esse apocalipse poderá nos libertar e nos mover em direção ao outro. Estaríamos preparados?

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