Hobbes e a liberdade na internet

Você já percebeu que a atitude adotada por uma parcela (ou maioria) das pessoas dentro do mundo on-line é diferente da postura adotada no mundo off-line? Creio que a melhor maneira de perceber e exemplificar tal movimento é considerando o debate que ocorre nas redes sociais, principalmente através da opinião emitida pelos usuários.

Atualmente, com a democratização do acesso à internet, as pessoas estão conseguindo emitir opiniões de diversos assuntos, principalmente nas redes sociais. Este movimento de popularização da emissão da opinião ocorreu, a meu ver, em dois períodos: primeiramente em razão de um anonimato (no caso de blogs anônimos ou em perfis falsos, por exemplo) onde as pessoas conseguiam expor as suas opiniões sem que ocorresse alguma represália no mundo off-line. Em um segundo momento, ao perceberem que tal anonimato é de certa forma irrelevante — pois tantas ações anônimas como não-anônimas não resultam em nenhuma represália — deixou-se de utiliza-lo.

Quando o anonimato no mundo virtual deixou de ser uma regra para aqueles que expõem as suas opiniões é que passamos a perceber quais as reais atitudes das pessoas. Atitudes que elas não conseguiriam adotar fora da rede, que são genuínas do seu desejo: na internet é possível paquerar aquela pessoa que lhe é desejada, buscar informações que não perguntaria para nenhum amigo ou professor, defender os seus ideais políticos, bem como mostrar-se superior aos outros membros da rede. E aqui destaco os dois últimos, pois a cada dia que passa, percebo uma maior necessidade de sobreporem-se as outras nas redes sociais, usando como principal argumento de difamação a ideologia política do sujeito.

O olhar Hobbesiano

Até aqui acredito que não há nenhuma novidade. Contudo, ao realizar a leitura do contratualista Thomas Hobbes, é possível criar uma associação entre a internet e o Estado de natureza proposto pelo autor.

Em sua essência a internet propõe um equilíbrio (para não dizer igualdade) entre as pessoas. Este equilíbrio pode ser exemplificada na capacidade de acesso à informação (todos possuem as mesmas ferramentas de busca por notícias e artigos).

Utilizando um olhar Hobbesiano, é possível argumentar que quando a internet passa a ser um espaço de convívio social, os problemas começam a surgir. Este espaço social reacende a necessidade das pessoas de exporem suas opiniões, tal como no mundo off-line, defendido como direito à liberdade de expressão.

Ocorre que, no mundo off-line, as discussões não acontecem de maneira tão acalorada como no mundo on-line. Na sociedade off-line, dificilmente você perceberá a cada esquina um grupo de pessoas discutindo acaloradamente, livres para expor a sua opinião quanto as suas crenças, seja de políticas econômicas ou de orientação sexual do sujeito. Os que o fazem publicamente são minoria. Hobbes argumentaria que esta inibição ocorre pois existe um contrato que coloca regras na sociedade. Tal contrato que norteia as atitudes dos indivíduos é concretizado através de uma fiscalização efetuada por uma entidade superior ao indivíduo (o Leviatã).

Já no Facebook, por exemplo, ao abrir os comentários de uma notícia aleatória, poderá ser observado um grande número de comentários com justificações políticas para tais acontecimentos bem como um número maior ainda de réplicas, muitas vezes utilizando de xingamentos ou ataques a ideologia com o intuito de desmoralizar o indivíduo. E, rotineiramente, além de ataques a ideologia política, encontram-se ataques a gêneros e classes sociais. Os exemplos tendem ao infinito. Tudo aquilo que os indivíduos pensam sobre a sociedade e que não expõem off-line, o fazem no mundo on-line. É inevitável.

E aqui, é pertinente trazer um trecho da obra de Thomas Hobbes que exemplifica de uma maneira similar tais ocorrências:

“[…] os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito. Porque cada um pretende que seu companheiro lhe atribua o mesmo valor que ele se atribui a si próprio e, na presença de todos os sinais de desprezo ou de subestimação, naturalmente se esforça, na medida em que a tal se atreva […], por arrancar de seus contendores a atribuição de maior valor, causando-lhes dano, e dos outros também […]”

Ao percebemos que “quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito”, podemos atribuir que toda a desordem e difamação causadas hoje na internet é ocasionada pela falta da presença de uma figura capaz de manter a ordem entre os usuários.

A figura em questão é o Estado, pois não é possível atribuir esse caos na internet as pessoas por si só, muito menos querer mudar o que elas são, visto que ao tentar muda-las elas tenderam a enxergar tal atitude como um sinal de “desprezo ou de subestimação”, causando novamente intermináveis discussões onde cada uma delas tentará impor a sua verdade a qualquer custo.

Hobbes argumenta que “de modo que na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança, e terceiro, a glória”. Aqui, o homem virtual compete para mostrar que detêm um conhecimento superior ao outro, que possui uma vida mais prazerosa que a do outro, que possui um corpo físico melhor que o outro; a desconfiança é gerada quando o outro não compactua com os mesmos ideais, quando discorda de suas publicações; e a glória é dada quando o sujeito recebe um like em seus posts, quando aumenta seu número de seguidores no Instagram, ou quando suas publicações recebem comentários positivos de pessoas estranhas.

Ora, se as pessoas consideram que tudo é possível para se destacar, se para conseguir um maior número de seguidores basta adotar posições que não adotaria no mundo real (fora da internet), caberá ao estado determinar o que poderá ser feito na internet ou não. Quais atitudes são plausíveis de punição e quais devem ser permitidas, caso contrário, a internet será apenas um refúgio para aqueles que gostariam de praticar ações que não praticariam fora dela, pois como dizia Hobbes:

“[…] durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama de guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens.”

Fica a reflexão.


Quer entender mais sobre Hobbes? Deixo a obra abaixo como indicação:

Hobbes, Thomas. LEVIATÃ ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Nova Cultura, 1988.