Homens dão medo

E todas as mulheres, em algum momento, se sentem apavoradas

Eu não gosto de pegar taxi sozinha. Quando vou ao médico, ou a qualquer local no qual eu preciso circular pelas ruas por mais tempo, evito roupas curtas, justas ou que me impeçam a mobilidade caso em algum momento, eu precise correr. É sério. Fico nervosa ao circular por uma porção de ruas desertas, em qualquer hora do dia ou da noite. Se vou viajar, no geral, o faço acompanhada e, de preferência, por uma pessoa da qual confie muito. Já desisti de fazer uma série de cursos, pós gradução e mestrado por medo. Já abri mão de empregos com horários em que eu poderia me sentir ameaçada ou em locais muito distantes. Por medo. E, desde muito cedo, me corrigiram a postura, a roupa, o palavreado e me fizeram acreditar que toda e qualquer violência deve ser silenciada quando põe em questão a conduta de um homem: a desonra da mulher é sempre maior que qualquer violência que ela possa sofrer e sempre questionada ainda que existam todas as provas possíveis da sua veracidade.


De forma geral e sintomática percebi que, em algum momento da vida, todas as mulheres, sejam elas de qualquer classe social, orientação sexual, etnia ou idade, sentem medo dos homens. De algum em específico, por uma situação que, infelizmente, lhe foi provocada, ou simplesmente de todos eles: que é o meu caso. No transporte público, lotado de faces com histórias que não se conhecem e que parecem igualmente ameaçadoras, ou em casa, por uma demonstração de poder um pouco mais efusiva — que pode vir do pai, do tio, do instalador de gás ou do próprio parceiro. E isso também se dá em qualquer local aberto, onde os machos se aglomeram em bando e parecem virar o que há de mais primitivo e irracional do humano. Podem ser estádios de futebol, shows, seminários ou qualquer evento que os reúnam e lhes dêem sensação de pertencimento. Nessas situações, é bizarro: eles deixam exposta e livre uma agressividade e um orgulho que não é normal em nenhum outro universo no qual nós, mulheres, fazemos parte. Reparem.

A triste verdade é que todas nós, fêmeas, em algum momento, sentimos aquele frio na espinha por nos vermos sozinhas com um homem. E isso, pode sim, acontecer com desconhecidos ou total conhecidos, parceiros recentes ou de longa data, parentes, irmãos, chefes, mendigos ou executivos de sucesso. Nos sentimos completamente impotentes porque sabemos que até as mais sutis violências são (ou serão) vistas com naturalidade pelas demais pessoas da sociedade, serão questionadas e terão que ser provadas como legítimas, seja para outros homens, mulheres, amigos ou até mesmo para o sistema jurídico. Todo o testemunho e relato de medo (ou de praticamente qualquer coisa) que sai da boca de uma mulher é questionável, questionado e acometido de uma neurose que se definiu ser inerente ao nosso gênero. Somos loucas, exageradas, somos mentirosas sem escrúpulos desde nascença. Não somos passíveis de confiança nem ao olhar de outras mulheres, que, muitas vezes, se dizem amigas fazendo um desserviço. Querem se misturar aos seus agressores e agredir também, num mecanismo para se sentirem aceitas quando mal sabem que também são vítimas.

A cultura machista de uma sociedade mata. Aprisiona. Fere. E se você, mulher brasileira com pelo menos 20 anos, nunca esteve próxima a outras mulheres que viveram qualquer tipo de situação de abuso, felizmente, você vive em uma bolha. A realidade é que o Brasil é o quinto país onde matam mais mulheres e, as que não morrem, vivem feridas, traumatizadas, se tornam alguma coisa que não deveriam por conta de uma situação da qual nenhum ser vivo merece passar.

O que vemos nos jornais não retrata nem 1/8 do que de fato acontece. As notícias nos escandalizam, mas o que nos deveria chocar mesmo são os comentários. Os julgamentos, ameaças e questionamentos:

Onde ela estava? Por que não gritou? Por que não fez uma denúncia antes? Por que não fugiu? Essa mulher não deveria (viajar, trabalhar, se locomover) sozinha. Também, ela era solteira. Também, ela era casada. Também, ela estava de roupa curta. Também, ela se portava como um homem. Não dá pra culpar o cara, vai saber o que essa mulher fez, né? Por que ela estava nessa boate? Por que bebeu? Ela não deveria confiar em qualquer um. Onde estava a mãe dessa menina? Quem mandou ser sapatão? Quem mandou ser puta? Quem mandou ser beata?

Sentimos medo, sentimos pânico e passamos a acreditar que isso é comum. Tão comum, que fugimos de homens, atravessamos as ruas, não confiamos em policiais, em líderes, em transeuntes, em porteiros, não confiamos em mais ninguém. E se isso, como muito dizem, apenas nos impedisse de usar uma determinada peça de roupa — mais curta, mais ousada, ou marcante, qualquer que seja — já seria muito, mas não é só isso. Não nos é permitido evoluir. Ir e vir. Não nos é permitido revidar. Não nos é apropriado reclamar, questionar, peitar, duvidar. Precisamos ser mais corajosas e ousadas que qualquer homem, precisamos ignorar as falas que nos machucam, que nos violentam, precisamos continuar caminhando.

E, após qualquer situação de violência, ainda temos negada a justiça. Ainda temos negado o apoio. Não podemos abortar. Não podemos apontar culpados. E, por muitas vezes, não podemos, sequer, continuar a viver.

Ser mulher é ter medo de homens. Desde cedo. Desde sempre.
E é preciso falar, lutar, não desistir. E tentar fazer algo sobre isso.