Quanto vale a carne negra no mercado?

NERO
NERO
Feb 20 · 5 min read

Hoje de manhã fui no centro comprar algumas coisas que precisava e, quem sabe, outras que alguém me convenceu de que também preciso. Encontrei com minha namorada no metrô e rumamos à São João.

De cara compramos uns três ou quatro itens essencialmente dispensáveis e entramos em uma loja de roupas. Confesso que tenho um pouco de fobia de comércios muito movimentados, mas esta loja até que não era. Tinha detector de roubo na porta e tudo mais.

Escolhemos algumas peças, passamos no caixa, dividimos no máximo de vezes sem juros, nos demos um beijo, trocamos algumas piadas com a atendente sobre o chapéu engraçado da senhora que tinha acabado de entrar, nos despedimos e andamos em direção a saída.

Fiquei meio atordoado quando as sirenes começaram a tocar. Aqueles totens antirroubo brilhavam em laranja e cegavam meus olhos e minha percepção. Só recobrei a noção quando senti uma mão me segurando pelo braço.

A mão, que me apertava forte, veio junto com um olhar penetrante e um imperativo às cusparadas: “Moleque, larga essa sacola!”. Do outro lado só pude sentir a aproximação e outra voz marcante sussurrando no pé do meu ouvido: “Fica calmo, vagabundo. Deixa a sacola.”

Procurei com o olhar alguma referência segura, algum ponto de apoio que me ajudasse a compreender. Dopei com os olhos dela, estáticos, assustados. Minha namorada parecia tão perdida quanto eu.

Alguns instantes eternos se passaram, em um vazio metafísico de tempo e espaço, e tudo se misturou. Motores, gritos, cheiros, sensações, dores, medo. Ela gritava: “Solta ele, é um engano, ele não fez nada! POR FAVOR!”. E eles continuavam me mandando soltar a sacola. Que eu segurava com toda a força do mundo, sabe-se lá porque.

Tomei o primeiro tapão na nuca e meu tronco inteiro foi pro chão. Sacola ainda pregada na mão. Acho que foi um joelho, ou cotovelo, não sei, só sei que pressionava minhas costas tão apertadas que quase não conseguia respirar. Os gritos dela só aumentavam e se tornavam cada vez mais balbuciantes. Já não dizia só para me largarem, cuspia palavras horríveis. Xingava os dois de animais, escrotos, imbecis… recorria à Deus em outras frases, mesmo que não soubesse se havia um Deus ali pra nos ouvir.

Olhei por entre as pernas fardadas em pano azul escuro com detalhes em couro preto e vi um garoto, moreno e magro, com uma mochila mirrada nas costas, canela fina e um celular na mão. Apontado pra mim. Filmando meu rosto humilhado contra a calçada suja e irregular.

Fiquei absolutamente indignado. Retomei a consciência, soltei a sacola e retruquei com todo meu corpo e minha voz, naquele momento, ainda potentes. “Me larga, vai com calma, eu não fiz nada!”.

Com uma força, que não sei de onde, consegui me virar e olhar nos olhos deles. Como não era mais tão fácil me imobilizar os dois se concentravam em segurar minhas pernas e braços, que se mexiam descompassados, mas firmes. Olhei para eles e disse: “PARA, para, relaxa, não precisa disso. É um engano!”.

Não sei se foram minhas palavras ou meu olhar tão insolente, mas a resposta veio com um jato de spray que ardeu todo meu rosto, como nada nunca antes, e me fez completamente cego por segundos. E dolorosamente cego por todo o tempo restante.

Os gritos continuavam e agora não vinham mais só dela. Vinham também do menino com a câmera, vinham da senhora com o chapéu engraçado, vinham de lugares que não conseguia distinguir. Todos pedindo para que aquele massacre parasse. Agora eles não apenas me seguravam, eles estavam prestes a quebrar meu braço, me arrastando pelo chão em direção a rua.

Nessa hora ela veio correndo de dentro da loja segurando a atendente pelos braços e dizendo: “Explica pra eles, explica pra eles!”. A menina, meio amedrontada, disse: “Calma, eu acho que esqueci de tirar o alarme de uma das roupas”. Abaixou, e começou a procurar a sacola para encontrar o tal alarme perdido. Mas eles não deram ouvidos. Sacaram o spray de novo e miraram em todos que estavam em volta. Dedicando um tempo especial na minha namorada e na atendente.

Sei que não devia, mas perdi absolutamente o controle quando vi, por entre meus olhos cerrados de lágrimas vermelhas, o rosto dela se retorcendo assim como o meu.

Me debati com tanta força e gritei coisas tão sem sentido que nem vi quando uma das mãos liberou meu braço, ganhou o céu lentamente e, como uma tora, de punho fechado, afundou meu rosto contra o asfalto. Senti uma dormência imediata e apaguei.

Acordei já no camburão. Algemado e balançando de lá pra cá. Voando levemente a cada lombada e caindo de volta. Recobrando a consciência aos poucos.

Não conseguia mais prestar atenção no que eles falavam, ou me preocupar com o que estava acontecendo. Pensava apenas no meu nariz, que sentia estar estraçalhado. Eu nunca tinha tomado um soco no nariz. Na real, eu nunca tinha tomado um soco.

O carro parou de supetão e bati de costas no porta malas. As portas se abriram, as botas tocaram o chão, o camburão se iluminou, as mãos me agarraram novamente, agora, muito mais firmes e truculentas do que da primeira vez… e…


… e é aqui que este conto acaba. Sim, porque este relato não é real. Nenhum policial nunca encostou a mão em mim. Eu nunca fui desrespeitado em um comercio. Nunca tomei uma “geral”. Nunca fui confundido com um suspeito de nada. Nunca fui ultrajado, nunca fui humilhado, nunca fui abusado ou espancado por qualquer segurança público ou privado.

Não coincidentemente, também nunca fui pobre. Nunca fui negro. Nunca fui oprimido. Fui sempre privilegiado. Sempre parte de uma minoria que nasceu com o tom de pele “certo”, e só conhece a truculência e a repressão, a partir de fotos e vídeos compartilhados pelo celular.

Vivemos em uma sociedade regida por aqueles que só sabem cuidar do seu próprio nariz, e talvez você só acorde quando quebrarem o seu.

Essa semana, quando vi, no meu celular, o vídeo do menino de 19 anos sendo morto por um segurança do Extra no Rio de Janeiro, pensei: e se fosse eu?

Acho que estamos perdendo o ponto enquanto discutimos se o menino estava ou não drogado. Tentou ou não roubar a arma… Poucos meses depois de uma comoção nacional por um cachorro morto em circunstâncias “similares”, e assistindo parte da população “celebrar” a morte de Marielle, a pergunta certa a se fazer é: quanto vale a carne negra no “mercado” brasileiro?

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por eu.luiscardoso@gmail.com

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