I Said, Hey, What’s Goin On?

Madrugada do dia 11 de junho de 2016. Eu estava em uma festa alternativa em Porto Alegre procurando alguém para ficar, junto com minha turma de amigos gays, que queriam dançar muito com música boa para comemorar o aniversário do meu amigo Felipe. Mas a festa não foi fácil: fila pra entrar, fila para o caixa para pegar ficha para entrar na fila da chapelaria e aí sim, deixar o casaco para sacudir um pouco o esqueleto ao som de Katy Perry e Marina and The Diamonds. Foi uma das noites mais frias do mês, mas o calor humano compensava. Aliás, estava até demais. Um “bafão”, no sentido ruim da palavra. Quase passei mal pelo atrolho de gente.

Saímos da pista de dança e fomos para o lounge, onde era mais tranquilo para dançar, paquerar e descansar nos sofazinhos. As músicas até tinham melhorado lá. Então começou a tocar What’s Up, das 4 Non Blondes. Essa música tem um significado especial pra mim, pois ela era a primeira faixa da primeira fita cassete que comprei (sim, sou velho), que era Olho no Olho Internacional. Foi a primeira música que eu aprendi em inglês, ainda na quinta série. Mas, algumas décadas depois, aquela música tinha se tornado um hino da comunidade LGBT graças à serie Sense8. Ela é a música-tema da série.

Para quem não sabe, Sense8 conta a história de oito pessoas que tem o poder de sentir o que outras pessoas desse mesmo grupo sentem. A cena mais emblemática dessa série é uma orgia numa jacuzzi entre quatro deles. Ou seja, se você pode sentir o que oito pessoas sentem, como seria o orgasmo quadruplicado ao mesmo tempo agora? Pois é. Mas voltando pra festa, começou a tocar What’s Up, que não é bem uma música pra dançar, né?! Mas todo mundo que estava lá naquele lounge começou a cantar a música junto, como se fosse o último lançamento de Lady Gaga ou da Ke$ha. Foi como sentir o que o outro estava sentido: as dores e as delícias de ser um LGBT, um rejeitado da sociedade que tem de aprender a ter jogo de cintura para se aceitar e ser aceito pelos outros e ainda ter um puta orgulho disso.

Eu estava quase chorando ao sentir aquela união por uma causa tão boa. Mas eu pensei, não, Guilherme, tu não vai dar vexame. Tu não vai fazer que nem no show do Green Day em que você chorou quando tocou Basket Case e depois você foi acertado por um copo com líquido amarelo, que, queira Zeus, era cerveja. Güentei. Mas foi bonito.

Então, na tarde do outro dia, meus amigos mandam a notícia por nosso grupo do Facebook: “Atentado em Orlando deixa 50 mortos e muitos feridos”. A princípio não dei muita bola. Pensei que era mais um americano descontrolado disparando tiros como se fossem suas frustrações disparadas num cano fumegante virado pra sociedade. Depois, assistindo à TV, fui me dar conta que fora um crime de ódio, contra a comunidade LGBT e daí sim, não contive as lágrimas. Em casa ninguém vai me jogar um copo de cerveja por me emocionar. É tipo um equivalente emocional de “no espaço ninguém pode ouvir você gritar”.

E aí, vai culpar quem? De quem é a culpa de eu não poder chorar em público? De quem é a culpa de um maníaco que não sabe lidar com seus desejos mais profundos descontasse naqueles que ele sente desejo? E nós, LGBT, por quanto tempo não pudemos demostrar nossos desejos mais profundos, de destruir com as próprias mãos nossos bullies, nossos vizinhos, nossos religiosos, nossa família que não nos aceita, os homofóbicos, os skin-heads, os bolsomínions, os felicianos, mas ninguém fez isso. I said, hey, what’s going on? É um fator cultural, de considerar errado aquilo que é diferente. É uma preguiça mental de desconstruir tabus e pré-conceitos.

Você vai me ver comentando mais a fundo sobre comparações de quadrinhos com a realidade. Mas aqui vai uma bem óbvia. Os X-Men, heróis mutantes dos quadrinhos, uma alusão à defesa das minorias “juraram proteger uma sociedade que os teme e odeia”. A tal sociedade só os odeia porque teme. O atirador de Orlando só odiava os gays porque temia se tornar um de nós. E isso acabou ficando muito claro depois, já que foi revelado por sua mulher que ele era um frequentador assíduo da boate Pulse. Se o tal atirador se questionasse e buscasse desconstruir os dogmas que a sua religião fundamentalista e seu grupo que dissemina o ódio pelo mundo apregoam, nada disso aconteceria. Se o tal atirador tivesse a coragem de ir buscar aconselhamentos com um imã em uma mesquita e se esse imã fosse sábio como sabemos que alguns sacerdotes são (e é pra isso que são formados sacerdotes), nada disso aconteceria.

É um exercício que temos que fazer todos os dias: NOS DESCONSTRUIR para não nos tornarmos loucos. Mais loucos, quer dizer. Porque se tentarmos ser tudo o que a sociedade espera de nós, subir aquela alta colina da esperança, sim, pegamos um fuzil e saímos metralhando todos. Precisamos perceber que o mundo NÃO foi feito para essa IRMANDADE DE HOMENS. Seja lá o que isso signifique! Não acredite em tudo que dizem. Questione tudo e todos. O que fazem e o que dizem. Encontre sua própria verdade.

E eu tento, oh, meu Deus, como eu tento, eu tento o tempo todo, nesta instituição. E eu rezo, oh, meu Deus, como eu rezo, eu rezo todo santo dia por uma revolução. Oh Alá, meu bom Alá, como eu quero uma mudança nas instituições que deixem de me ver como uma mancha no cobertor da sociedade, que a revolução que vem por aí não seja de armas e sim de pensamento. De destruição de fronteiras, sim, mas não religiosas ou territoriais, mas filosófica, de pensamento, de mudanças nas políticas culturais e sociais.

Por fim, eu gostaria que todos os humanos tivessem os poderes de Sense 8, mas nem precisava ser pra sempre, mas por um dia, uma hora, um minuto que fosse. E sentir a incompatibilidade de ser outra pessoa e pensar como ela, talvez as pessoas se tocassem que não existem certezas. Certo ou errado não são conceitos corretos. “O mundo está como está por causa das certezas”, diz uma linda música de Jorge Drexler. São as dúvidas que nos levam além e são elas que nos fazem buscar. Quando estamos certos de uma coisa, estancamos, quando não nos questionamos, não melhoramos. É essa cultura da preguiça do pensar que leva a atos fanáticos e radicais como o de Orlando.

É como uma história. Quando descobrimos tudo sobre o livro, ele acaba. Quando o livro nos deixa aquela sensação de que mudou nossa vida e que precisamos saber mais sobre certos assuntos é que ele é valioso. E eu grito com todas as forças: WHAT’S GOING ON?