Igual a todos, diferente dos demais

Hoje era pra ser um dia diferente. Eu iria levantar cedo e adiantar tudo que procrastinava com louvor e orgulho disfarçado de “veja como minha vida segue um ritmo além de todos vocês, colegas de classe”. Mas no fundo, cada dia sem colocar os projetos em andamento era como um maré alta e forte que me colocava mais distante da praia que eu sempre quis ficar. Ou pelo menos, que eu aprendi a querer ficar.

Eu nunca fui um cara igual a todos os outros. Minha primeira namorada sabia disso, meu primo do interior podia atestar isso e minhas amigas do ensino médio sempre desconfiavam disso. Só que eu não sou gay, pensava eu, toda vez que imagino como seria minha vida se eu pegasse a rota mais fácil, que era não resistir minha curiosidade no vestiário depois da educação física ou me aproximar daquela turma de meninos mais divertidos, que eram evitados pelos meus parceiros de ping pong. Fico aliviado de saber a verdade sobre mim, aquela que ninguém sabe e que ninguém precisa saber. Por mais que o ambiente que me acolhia fora de casa incentiva experimentar, lá em casa só eu sei o que seria dito se essa leveza que vejo meus amigos caminhado ficasse transparente na minha cara, que forço a fechar quando me aproximo da entrada da casa dos meus pais.

Só que eu não consegui escapar da risada rouca dele, um menino da minha sala de aula que era alegre, leve, curioso e expansivo — tudo que eu repulsava e desejava tanto poder exercitar. E essa mistura antagônica encontrou espaço e incentivo no meu coração que disparava diferente pela primeira vez por esse menino da risada rouca, ingenuidade aparente e segurança disfarçada de extroversão. Como eu queria estar com ele fora da escola! Depois de um tempo, compreendi como eu queria ser ele. Mais do que ficar com ele, como inevitavelmente ficamos.

Se não foi o primeiro beijo dele, eu prefiro não saber. Porque a fragilidade que eu nunca via pelos corredores da escola agora estava latente nos meus lábios em forma de tremores nas mãos dele. Se não foi a primeira transa dele, eu nunca vou saber. Porque aquela facilidade de falar e sorrir para todos agora desapareceu no silêncio ensurdecedor que era o meu quarto naquela tarde que minha mãe deixou a gente em casa fazendo uma pesquisa de geografia para um trabalho em dupla.

Só que eu não era gay, lembra? E o alívio que eu me vangloriava sentia antes nunca mais apareceu nas noites em que ia dormir e me via pensando em como as escolhas que tínhamos feito eram ao mesmo tempo faróis de esperança e pontas soltas de um caminho que eu estava convencido que não podia percorrer. E a ânsia por esse alívio de me afirmar como quem eu devia ser me afastou dele, brusca e repentinamente. Pelo menos pra mim foi assim. Pra longe e o mais rápido possível para quem sabe começar do zero. E nesse começar, me encontrar e não sentir mal por não ser igual e bem por me sentir diferente.

Nada disso foi como planejei.
E nada deu certo como eu esperava quando de longe eu permaneci.

Até porque na indisponibilidade de ser quem eu deveria (e até poderia) ser, eu transformei tudo que a gente podia ser numa história isolada no tempo que desaparece dos pensamentos iniciais a medida que ela ganha mais poeira lá no fundo, onde eu deixei o sorriso dele quando me encontrava pelas ruas da cidade quando matávamos aula pra ver qualquer um desses filmes no cinema onde nenhum dos nossos amigos costumavam ir.

Pensando bem, hoje tinha tudo para ser um dia diferente. Aqueles projetos passados podiam ser retomados, não é? Afinal, o que são 15 anos de distância, né? Algumas coisas podiam ser ditas e absorvidas com a maturidade que a nossa juventude não permitia. Mais igual a vários outros, o dia hoje não foi diferente. Igual a vários antes desse e muitos que viriam depois e ainda estão por vir.

Mas talvez, e quem sabe talvez mesmo, não tenha sido um dia igual pra ele.
Ainda bem.

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