Individualidade Afetiva

E como estamos nos relacionando

by Greg Rakozy on Unsplash

Dei uma pausada nas relações casuais para evitar desgraçamentos mentais em looping. Lidando com ansiedade, decido que é melhor pautar os possíveis gatilhos de uma vez cada, assim consigo viver. O caso é que desta pequena pausa algumas reflexões importantes me ocorreram. Como boa desbravadora de mim esse exercício de pensar me renderam dancinhas pela manhã que merecem ser compartilhadas.

Me deparo com a constatação talvez um tanto evidente do quanto a afetividade de cada um está restrita a aprovação constante do outro ou de outros. A relação de socialização e de usar o outro como espelho e parâmetro para si nos sucumbe em diversas situações que creio que falhamos ao pensar a nossa individualidade afetiva. Ela existe e deveria ser muito possível. Mas quando foi a última vez que você permitiu questionar-se sobre estar se relacionando por vontade genuína ou por que lhe foi ofertado uma possibilidade de relação (independente de sua natureza)? Eu quero porque sinto vontade ou quero porque me está sendo dado?

Não acredito em nenhum enquadramento e fórmula para se relacionar. Dentro do exercício de vivência de cada um há que se considerar que as narrativas são escritas de acordo com a particularidade de quem vive, mas penso sempre que o exercício da crítica e do constante questionamento não deveria ser um objeto de tabu ou de dor. Questionar é parte de nossa natureza e deveria ser devido e simples.

Então, neste curso e dinâmicas de pessoas chegando e saindo da vida, ofertando suas mais variadas formas, tamanhos e posições (intelectuais ou não) deixando suas medidas de afetos e suas ofertas: “quero um compromisso”; “quero casualidade”; “quero um casamento”; “quero este momento”; “quero comprar flores e fazer poesia”; “quero sexo sem ligações no dia seguinte”. De que maneira as vontades próprias são firmadas a ponto de ter uma resposta autêntica e não mera recepção do que está sendo colocado a postos? Conseguimos dialogar com a contradição de vontade do outro, a ponto de que as nossas próprias sejam uma pauta válida e justa conosco?

Saiu-se de casa com a roupa mais querida e o perfume mais agradável, dançou-se a música e a tensão sexual pela promessa de sexo e disposição de prazer ou se gostaria de estabelecer uma relação duradoura antes? Todas as coisas juntas ou nenhuma delas? Perguntamos sobre o motivo que move nossas paixões e intensidades ou ausência delas?

A música de Nina Simone diz algo como: “você tem de aprender a sair da mesa quando o amor já não está sendo servido”. Incorporo como lema de vida de modo a entender: levanto da mesa sempre que minhas necessidades não podem ser minimamente objeto de pauta. A relação egoísta aí é de conseguir me sentir tão plena de modo a ser possível me colocar à disposição de outrem.

Não atender as próprias necessidades e acreditar na plenitude de ofertar prazer sexual, afetivo ou amoroso é um mergulho profundo em frustração. Será possível ofertar, mas não será bom se as as duas partes não estiverem em gozo de suas satisfações pessoais (com o perdão do trocadilho). Contrário a imaginar isso é admitir que uma das partes está sendo silenciada e não é sobre silêncios de vontades que deveríamos pautar nossas relações ou qualquer partícula de existência. E é esse tipo de questionamento que deveria ser iniciado nas caladas da noite, quando perdemos tempo e energia mental nos questionando o porquê de insucessos nos relacionamentos ou por que queremos entrar em contato com aquele @ que não nos faz bem. Se há certeza do que ser quer, é um caminho mais fácil para sair de quem não pode ofertar.

De verdade é preciso pensar o que não nos faz bem e o que nos faz, que o motiva o ódio e a paixão que nos consome, para então descobrir no outro possibilidades de compartilhar os corpos, as mentes, os círculos e os amores. Dessa forma, quando estivermos em contextos que não beneficiam o exercício da liberdade, saberemos trilhar um caminho muito próprio e de retorno a si. O mundo não vai cair, ao contrário do que muito cedo nos postularam o filmes hollywoodianos.

Questionar a própria individualidade afetiva é empregar um olhar um pouco mais profundo e demorado em si. É seguir o clichê de antes de beber da fonte do outro, descobrir o que motiva a sua sede. De repente ela pode ser saciada a qualquer dia, à noite, depois de um longo dia de trabalho com um banho e um prazer muito particular e somente seu.

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Thanks to New Order - Redação

Jessica Luana Castro

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Rio Branco, Acre. Escrevo por tesão e às vezes seriedade.

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