Infiltrado na Klan e o poder dos ativismos

Filme dialoga com passado e presente e busca refletir as armas de combate ao ódio.

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Em 2017 a cidade americana de Charlottesville, Virgínia, decidiu remover a estátua do militar Robert E. Lee, líder do exército confederado durante a Guerra Civil americana. Lee defendia os estados sulistas e seus ideais racistas, negando o fim da escravidão proposto pelo então presidente Abraham Lincoln. A decisão de remover sua estátua foi imediatamente constatada por grupos reacionários, sobretudo de homens brancos, que viam naquilo um apagamento de “sua história”.

O clima esquentou a ponto das manifestações tornarem-se extremamente violentas, com ataques a grupos contrários e o atentado terrorista que matou Heather Heyer e feriu mais 20 pessoas. James Fields, 20 anos, simpatizante da “causa branca” simplesmente acelerou em direção aos manifestantes.

“Infiltrado na Klan” (BlacKkKlansman), filme baseado no livro “ Black Klansman” e dirigido pelo consagrado Spike Lee, busca entregar um histórico devastador e real vivido pelo ex-policial Ron Stallworth no Colorado dos anos 1970, que nos faz refletir sobre os acontecimentos violentos tão recentes vistos nos Estados Unidos, baseados na supremacia branca, no neonazismo e no ódio.

Ron Stallworth, no filme interpretado por John David Washington, é o primeiro policial negro de Colorado Springs. Após investigar um coletivo de estudantes negros da universidade local, o jovem policial decide encontrar algo mais útil e com mais chances de alavancar sua carreira: propor à polícia uma investigação sobre a Ku Klux Klan, organização antiga de perseguição a negros que parecia surgir com novos ares no país.

Usando seu colega Flip (Adam Driver), a investigação consiste em infiltrar Adam, branco, no círculos secreto dos homens brancos e indignados de Colorado Springs. Enquanto isso, Ron acompanha tudo por telefone, mantendo contato com membros e diretores da “Organização” (o re-branding de KKK).

“Infiltrado na Klan”, além de um filme denúncia sobre um movimento que sempre existiu e que ganha força de tempos em tempos — e estamos vivendo um novo auge agora — é também uma produção importante na reflexão sobre as militâncias. Patrice (Laura Harrier), presidente da união de estudantes negros da universidade, é uma jovem combativa e revolucionária, que se vê próxima de Ron após sua primeira investigação na polícia. Totalmente anti-polícia, Patrice é um ponto de reflexão importante para Ron, que deseja incansavelmente encontrar seu lugar na luta contra o racismo, conciliando com seu sonho de ser policial, a profissão do “inimigo”.

A construção da identidade militante, seja ela qual for, é muito bem explora. As incoerências que sofremos ao lutar por qualquer causa, a exposição e os contrapontos de nossos desejos, vivências e visões de mundo ficam claras quando Ron omite sua identidade policial, não somente pela necessidade do sigilo, mas pelo que irão pensar. É contraditório ser policial e reconhecer e lutar contra o racismo. Mas para Ron suas duas facetas devem encontrar um ponto de equilíbrio, para que a militância não apague sua identidade e vice versa.

Que tipos de ativismo estão corretos? É o que sempre se perguntam pessoas comprometidas com justiça social. É verdade também que existem caminhos mais explorados e aceitos, enquanto todos os espaços são, em essência, campos de batalha.

Em um mundo extremamente violento, odioso e sangrento, com homens brancos buscando à força recuperar o pouco de protagonismo que mulheres, negros, latinos e LGBT’s conquistaram, um filme que evidencie a necessidade da união e importância de se abordar todas as frentes têm o poder de abrir os nossos olhos.

O papo sobre privilégio e racismo, e todas as outras manifestações de opressão, não chega a todos. Nesse vácuo, se proliferam ideais violentas e estúpidas sobre um passado maravilhoso que não existiu, sobre uma ameaça, seja ela comunista, negra ou de gays corruptivos de crianças (parece familiar, não é?). Portanto, enquanto homens brancos se munem de tochas à luz do dia, o alerta vermelho de quem está preocupado com o fim do racismo e das opressões está ligado.

A obra de Spike Lee é o filme mais forte do ano até agora, com uma narrativa que bate na boca do estômago de tão fascinante, crítica e dura. Eu desafio você sair da sessão sem arrepios pelo corpo, lágrimas ou com ainda mais raiva de racista.