Inteligência é um copo pela metade

A antibiblioteca e a epistemocracia aplicada: meu conceito de inteligência

Umberto Eco: dono de uma biblioteca maior que a de qualquer booktuber adolescente.

1. Crianças prodígios dão ótimos adultos com baixaestima

Houve um tempo em que fomos chamados de inteligentes por lidar bem com matemática. Nossos professores nos chamaram de inteligentes porque nossa média ficava sempre acima de 80. Nossos pais nos chamaram de inteligentes – e nos prometeram presentes que nunca nos deram – porque fomos aprovados com notas altas na escola, porque sempre estudávamos em casa.

E é provável que você, como eu, tenha crescido com esse conceito de inteligência.

Mais pra frente, percebemos que saber matemática não era inteligência. Não entender equações simples ensinadas de forma didática seria burrice; aprendê-las não era mérito algum.

A matemática no ensino médio ficou complicada na mesma medida em que se tornou inútil. Por que aprender coisas que não seriam usadas em nossa vida?

Essas crianças que eram consideradas superdotadas acabam muitas vezes se tornando adultos com baixaestima, por perceberem que não são inteligentes igual as pessoas os consideravam na infância.

E surgiram várias teorias sobre o que é inteligência. Minha favorita diz que existem múltiplas inteligências: matemática, lógica, interpessoal, intrapessoal, linguística, e assim vai.

Mas não sou sociólogo, psicólogo, pedagogo nem nada disso. Sou só um marketeiro metido a ensaísta nas horas vagas. Então vou expor meu próprio conceito de inteligência, que tem a ver com um copo pela metade e a biblioteca do Umberto Eco.

2. Antibiblioteca

Umberto Eco foi escritor, filósofo, linguista, bibliófilo etc. Um dos pensadores mais importantes de seu tempo (nosso: ele morreu em 2016). Mas vamos focar nesse último título que dei a ele: bibliófilo.

Ó o Betão Eco na biblioteca aí.

Umberto Eco já se tornou bem conhecido por ter uma biblioteca com mais de trinta mil títulos (30 mil, com quatro zeros depois do três mesmo. A maioria das cidades do Paraná não tem isso nem de habitantes).

No livro A lógica do cisne negro, o Nassim Nicholas Taleb diz que havia dois tipos de visitantes na biblioteca do Eco:

O primeiro era composto por pessoas entravam em sua enorme biblioteca e diziam:

“Caramba, Betão! Que biblioteca E N O R M E. Quantos você já leu?

Uma reação normal, certo? Você já deve ter feito isso na casa de algum acumulador de livros. Qualquer um fica fascinado ao ver longas e intermináveis fileiras de livros.

Mas havia um segundo tipo de pessoa que ia na biblioteca do Eco, e era uma minoria. Esse grupo não fazia a pergunta “quantos você já leu?”. Essa pergunta é muito bobinha.

Esse segundo grupo entendia que uma biblioteca com tantos títulos não é pra inflar egos nem pra exibir o tanto que já foi lido, mas sim pra valorizar o que não foi lido como ferramenta de pesquisa.

Os livros que já foram lidos são muito menos importantes do que os que ainda não foram – os que foram lidos são um conhecimento que já tá na sua cabeça. Então sua prateleira deve conter tudo que você ainda não sabe.

Dessa forma, quanto mais você souber, mais livros não lidos você vai ter. E a isso o Taleb deu o nome de “Antibiblioteca”.

3. Copo pela metade

Um tempo atrás, vi o Diego Knebel – que é professor, coach, treinador etc. e sócio da empresa onde trabalho – falando de um conceito parecido que me chamou atenção.

Você certamente já viu o velho clichê do copo pela metade.

by manu schwendener on Unsplash
“Esse copo tá meio cheio ou meio vazio?”

Quem diz meio cheio é otimista, quem diz meio vazio é pessimista. Acho isso uma simplificação boba, mas esse não é o assunto aqui.

O Knebel mostrou esse copo pela metade e disse que a água ali dentro é seu conhecimento. O copo é sua cachola. Mas isso significa que, se você ler demais, o copo corre o risco de transbordar?

Não, porque esse não é um copo comum. A cada gota de água que você coloca nele, ele cresce o dobro. Se você jogar dez litros de conhecimento no copo, ele fica do tamanho de um galão de água e tu fica parecendo o Jimmy Neutron.

Jogaram muita água nesse copo. /Reprodução

Assim como na Antibiblioteca do Eco, que terá sempre mais livros não lidos, o copo — que representa onde guardamos nosso conhecimento — vai crescer sempre que colocarmos mais água — conhecimento — nele.

Onde eu quero chegar com isso?

4. Reconhecer o que você sabe não é arrogância

Eu cresci ouvindo que era inteligente e já fui considerado prodígio por professores.

Mais tarde, eu cada vez mais pensava que não era inteligente igual diziam que eu era. Eu não sabia nada sobre um monte de coisa. Eu não entendia quase nada de matemática, eu não prestava atenção nas aulas de biologia, eu não sabia as leis da termodinâmica nem entendia como surgiram ursos polares na ilha de Lost.

Mas, hoje, eu acredito que conhecimento seja exatamente isso.

Vocês lembram da frase do Sócrates: “só sei que nada sei”. Reconhecer o que você não sabe é uma forma de conhecimento.

Inteligência não é saber tudo – achar que sabe de tudo é arrogância e burrice. Inteligência tampouco é pensar que não sabe nada – isso é burrice e autodepreciação. Inteligência, pra mim, é reconhecer o que você sabe e aceitar o que não sabe.

Existem milhões de coisas que eu não sei. Mas existem muitas coisas que eu sei – e não vou ficar com vergonha de assumir nada disso.

Você não precisa ter vergonha de dizer “eu sei disso, essa é minha especialidade, meu amigo”. Isso não é prepotência. E também não precisa ter vergonha de dizer “cara, não sei nada sobre isso”. Afirmar que sabe, nesse caso, é que seria arrogância (e desonestidade intelectual).

5. Epistemocracia

O Nassim Taleb, no mesmo livro, fala sobre o epistemocrata: um intelectual humilde que reconhece o que não sabe e não faz questão de fingir saber de tudo. E tá aí: epistemocracia é o meu ideal de inteligência.

Enfim, finalizo esse texto dizendo que, sim, eu escrevi isso tudo só pra dizer que eu me considero inteligente pra caramba. Mas tenho consciência de todos os livros que eu não li e sei plenamente que sou burro pra caramba e um completo ignorante em grande parte dos assuntos que talvez eu nunca estude (mesmo que eu já devesse tê-lo feito).

Espero que você consiga o mesmo.