Interdependência para independência

e a visão de um oculto poder dos Comuns

by Kohlmann.Sascha

Há uma realidade que acontece independente de você, que foge de modo estrito ao seu controle. Há sua interpretação desta realidade, desenhada com o auxílio do seu campo sensorial e das suas concepções, conhecimentos, história e toda a bagagem que te torna único em meio à diversidade humana. E há a sua atitude em relação a esta interpretação da realidade.

A realidade de certa forma acontece em você. Invariavelmente há uma via de contato entre o externo e o interno, ao qual é seu campo sensorial. Isso nos possibilita tentar o exercício de enxergar o mundo como equivalente à pessoa e não como equivalente ao planeta. O benefício disso é compreender que podemos constituir o mundo não a partir de expectativas, mas de atitudes, que transformar o mundo está ao nosso alcance. Podemos vivenciar — que seja em “estado de espírito” — o mundo por um modo de escolher e de olhar as coisas mais condizente com como nos portamos.

Muitos de nós, em geral, estão acostumados a determinar o mundo em que vivem pelos sinais e respostas que a sociedade como um todo lhes informa. Assim, alimentamos e nos movemos por expectativas, tentando corresponder a elas para sermos aceitos. O mal disto é o sentir-se impotente e pouco influente no meio — além do despreparo para fracassos e frustrações, que acontecem.

Entende-se de tal modo o mundo como equivalente ao planeta e vive-se em correspondência com esta padronização, constatação ou expressão generalista, muitas vezes cultivando um desânimo ou a revolta de uma situação que, na prática, ainda não o atingiu (quer dizer, ante uma hipótese, alteramos o nosso emocionar); quando atinge, sim, mas não em todo caso, restringe a capacidade de viver, de sobreviver e sobressair.

Necessário deixar claro não querer aqui se negar quaisquer problemas ou cenários. Apenas digo que os problemas e o cenário também não podem significar a debandada e a desobrigação do que cada um pode fazer como protagonista. Apenas expressa esta reflexão uma maneira de revelar o potencial micro social de nossas atitudes no dia a dia em favor de se chegar a uma solução real para a teia de problemas complexos que sempre, vez ou outra, iremos experimentar, porque o que se bem contrapõe à complexidade do problema é o humano complexo quando estes humanos percebem a capacidade de extrair da complexidade social um poder. Neste mais belo sentido, vale uma frase de estilo “alto-ajuda” (paráfrase proposital com o erro de grafia): Somos todos energia!

Importante também que se revele o que é o protagonismo e o que pelo termo “fazer” devemos considerar: Somos seres emocionais. Somos muito mais animais emocionais do que racionais (como defende o neurobiólogo Humberto Maturana). E aprendemos o tempo todo. Interagimos nos movendo no mundo. E assim mudamos com o mundo e mudamos o mundo. Interagir é, de certa forma, conversar. Por todo o tempo estamos, em algum sentido, conversando com o mundo. Mas esta conversa, este conversar, não se deve entender somente pela linguagem oral. Temos inúmeras outras linguagens, por exemplo, a linguagem corporal, a gestual.

Em todo este “linguagear” da interação estamos em contato e, portanto, conhecendo, refletindo sobre algo, desencadeando um emocionar que nos leva a um reposicionar em relação a este mundo, tomando atitudes e assim praticando este mover que também é em si, um mudar. Deste modo, esta dimensão do termo “fazer” abrange algo menos perceptível que, por isso, pouco valorizamos. O nosso protagonismo é a expressão conjunta de mente e emocionar. Manifestamos em nosso “estar no mundo” continuamente este emocionar e todo este ciclo é o ciclo da aprendizagem, sendo possível disto se concluir que um simples gesto, como um aperto de mãos, um sorriso, o ouvir o próximo, o perdoar, o pedir desculpas, um abraço, um doar o lugar, um “muito obrigado”, tudo isto e mais um pouco constroem progressivamente virtudes em você e no outro. Da mesma forma, atitudes como melhorar uma praça, plantar árvores, ocupar de maneira criativa o espaço público, doar livros pra pessoas nas praças, protestar enérgica mas pacificamente, também constroem virtudes em você e no outro. Mas, o oposto também é verdadeiro para a construção de vícios e tudo o que se opõem às virtudes.

Ser protagonista de sua vida é o modo pelo qual você irá escrever sua carta de independência dos governos e instituições com seus princípios, tornando-se governador de si mesmo. Este o modo pelo qual se é possível dispensar, aos poucos, os “serviços do rei”. É um modo de Desobediência Civil, noutros tempos defendida por primorosas obras como o Discurso da Servidão Voluntária de Étienne de La Boétie, o texto de Thoreau, as atitudes de Gandhi, o discurso de Martin Luther King, dentre tantos outros. Ou nos remete à real dispensa do governo em 2008 pela população da Islândia e em 509 A.C. em Atenas quando da origem da democracia.

Contudo, esta independência se conquista sobre instituições (e o poder institucional) e não sobre pessoas. Aliás, só se consegue ser independente e livre das instituições, em certa medida, tornando-se cada vez mais interdependente uns dos outros. A interdependência é o que nos liga em responsabilidade mútua a tudo o que expressa a vida, principalmente à humanidade. Interdependência é o prezar pelo bem comum, não num sentido estatístico de se qualificar pela maioria, pelo que é mais frequente, mas sob a conotação de todo e qualquer elemento que daquele contexto faça parte.

Vejamos pelo oposto, quanto mais dependentes das instituições e governos, quanto mais alterarmos o nosso estado de espírito, quanto mais nos abalarmos pelas decisões do governo, mais nossas possibilidades de agir com o que temos se tornam reduzidas (porque surge o medo que tolhe sua capacidade de arriscar, ou a raiva que torna sua convivência seletiva), mais freiamos nossa capacidade de influência construtiva talvez por dirigir influências destrutivas e levar a impacto que certamente não fazemos dimensão, em vista da complexidade humana. Quanto mais dependentes e abalados, mais minha busca e atenção acaba por se voltar para a culpabilidade. Mais tal repercussão pode gerar ações punitivas individuais contra pessoas, que apenas desvelam nossa própria fragilidade.

A orientação à culpa e a punição de pessoas resultam em comportamentos de divisão (generalizações) e exclusão (julgamentos), o que nos afasta da convivência social e do sentido de interdependência. Assim, nos blindamos e entrincheiramos no Eu, guardados pelo individualismo. Individualismo que em certa medida, desumaniza. O culto ao Eu se reforça, o EGOísmo intensifica-se, o que é a essência do comportamento hierárquico, característica intrínseca em menor ou maior grau às instituições erigidas, o tal poder institucional. Quanto menos nos compreendermos (num sentido amplo) interdependentes, mais parecemos nos tornar governáveis por outros.

É importante que se saiba que todos nós, pessoas, seres humanos, seres sociais, somos Educadores. Podemos construir vícios ou virtudes, mas quando educamos construímos virtudes. A consciência desta condição de Educador demonstra estar aí a nossa busca pelos princípios que podemos determinar para nossas vidas. Pois o principal papel de todo Educador é o de educar-se a si mesmo. Esse dever e esforço — que naturalmente se dão o quanto mais a pessoa percebe-se capaz de influenciar sua maneira de viver e, por ela, a dos outros em prol de tornar-se mais feliz, e o quanto mais ela pressente se dar mais a felicidade coletivamente do que individualmente — acontecem num colocar-se aberto à interação, no respeito, reconhecimento e valorização da humanidade que há no outro e da sua capacidade de vir-a-ser, no saber-se poder dar sentido à vida sendo, assim, uma diretiva para ela, na não divisão e exclusão do seu mundo mesmo daqueles que se afastam e excluem outras pessoas do mundo no sentido de não se prestar exclusivamente a cuidar da falta de ética do outro buscando eliminar (em alguma medida) ou congelar num exílio o “incorrigível” da face da Terra, mas dar oportunidade a que toda e qualquer pessoa refaça o seu curso a partir do presente, entendendo que é possível aprender e ser diferente a partir das experiências, embora esta seja uma decisão de competência pessoal, e que sobretudo se ocupe em encontrar-se progressivamente com a sua ética.

Nada garante que uma mudança virá, mas a natureza humana permite que a qualquer instante a mudança possa vir. Na simultaneidade das interações do mundo, na contínua confecção deste imprevisível multiverso, seremos sempre, cada um, o ponto de esperança quanto ao outro, já que sua imprevisibilidade pessoal pode tocar tesouros internos ao outro qual força de gravidade a arrastar uma íntima transformação. Embora o tom poético, fato é que podes fazer o que impressionar a alguém e de qualquer forma, sempre poderá neste decurso tocar e transformar ainda mais a si mesmo.

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