Jessica Jones: vale a pena?

Sem spoilers, saiba o que promete a nova parceria entre Marvel e Netflix.


Antes de qualquer coisa, devo assumir que nunca havia dedicado tempo à história de Jessica Jones nos quadrinhos. Se esse é o seu caso, acredite, você está no lugar certo.

Mas essa inexperiência me agrada: se por um lado acabo me limitando em relação ao universo da personagem principal, por outro me parece promissor analisar sua adaptação partindo do zero, já que isso me traz inúmeras possibilidades interpretativas e, de quebra, me permite concluir se a atração é capaz ou não de se sustentar sem "bulas".

Dito isso, Jessica Jones é um verdadeiro sinal dos tempos. Indo de encontro ao historicamente patriarcal portfólio da Marvel, a produção da Netflix traz um universo recheado de representações femininas incapazes de viver às custas de outrem, utilizando o preconceito do sexo oposto como principal disfarce e confrontando dolorosos estigmas como forma de manter artérias pulsando.

Carrie-Anne Moss (Matrix) como a influente advogada Jeri Hogarth.

"E deixar uma mulher vivendo sozinha, sem fechadura e sem porta nessa cidade?", questiona certo personagem ao perceber que a casa de Jessica Jones encontra-se vulnerável. É a partir de confrontos como esse que a série desconstrói costumes sociais e concebe uma heroína não apenas admirável, mas necessária.

Para isso, a produção segue à risca o clima sombrio proposto por Demolidor, diferenciando-se por trocar as chamas que cercam Matt Murdock pelas densas sombras que dão charme e mistério ao cotidiano voyeurístico de Jones. E aí se encontram dois dos principais ingredientes apresentados pelo piloto da série, capazes de me envolver a ponto de me obrigar a garantir presença até o fim da primeira temporada.

Semelhanças com Demolidor não se restringem à linguagem visual: clima sombrio também faz parte de Jessica Jones.

Comecemos pela inspiração cinematográfica. De acordo com o crítico de cinema Roger Ebert, os filmes noir, dentre todas as suas inúmeras definições, podem ser considerados obras nas quais:

"Há locações que cheiram a noite, a sombras, a becos, a porta dos fundos de lugares luxuosos, a prédios e apartamentos com alta taxa de rotatividade, a bartenders e taxistas que já viram de tudo."

Emendando ao afirmar que trata-se de um gênero no qual:

"Mulheres podem tanto matá-lo quanto amá-lo, e vice-versa."

Seguindo essa linha, adivinhem o que temos já nessa primeira visita à série.

Crimes, apartamentos, becos, táxis e voyeurismo: as sombras do Noir invadem Jessica Jones.

Já a protagonista, encaixando-se perfeitamente na definição de Ebert, carrega consigo muitas outras camadas que já no primeiro episódio garantem ricos debates para o público. E o que poderia se tornar apenas insípido noutras mãos, acaba se beneficiando de maneira marcante pela visão adotada por Melissa Rosenberg, criadora da série.

Pois o que pude notar ao longo dessa primeira visita é que, além da inspiração advinda do gênero noir, traumas relacionados ao tratamento da mulher em sociedade constituem a espinha dorsal de Jessica Jones, num discurso que ganha destaque absoluto ao ser desenvolvido a partir de uma dolorosa relação conjugal presente no passado da personagem.

Assim, é possível tratar o desejo de fuga alimentado por Jones como consequência natural de experiências traumáticas que apenas mulheres poderiam ser capazes de transpor com tamanha sensibilidade a uma produção desse porte. E basta conferir casos reais de estupro, agressões domésticas ou assédio sexual/moral para notar quão sensível é o trabalho de Rosenberg e de sua equipe, além de quão atual é a ambição temática de uma série que, ao menos por enquanto, me parece promissora em sua íntima e cadenciada abordagem.

Fatos esses que me fazem desejar apenas duas coisas: 1) acompanhar Jessica Jones enquanto a heroína toma coragem para lidar com o seu passado; 2) mergulhar de vez nos quadrinhos que por tanto tempo ignorei e que, hoje, me soam como algumas das coisas mais interessantes que a Marvel já produziu.

Vamos aos trabalhos, portanto.

Ps: que Marvel e Netflix continuem optando por ignorar as origens de seus heróis. Assim como aconteceu em Demolidor, o ritmo de Jessica Jones ganha muito ao, de cara, lançar o público em meio à já evoluída — e cicatrizada — realidade da personagem, num esforço que parece apontar para uma interessante unidade narrativa entre as séries.

Ah! E aproveite para conferir a bela abertura da produção logo abaixo, capaz de sintetizar as características que descrevi ao longo do texto.


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