Jogos Vorazes: A Esperança - O Final | A revolução midiática

Em tempos de espionagem e revoltas populares, a mídia cria seus ícones

A literatura sempre inspirou, filosofou e debateu sobre a organização da sociedade, refletindo momentos políticos, guerras, revoluções, entre outros. A ficção científica, talvez seja, um dos diamantes mais raros entre os gêneros reflexivos e que buscam agitar debates que traçam paralelos diretos com a realidade. George Orwell, Ayn Rand, Aldous Huxley e Anthony Burgess são alguns dos vários autores de renome que inspiraram gerações na escrita e também em outras artes.

Trabalhando diversos conceitos sobre vigilância de governos autoritários, violência opressora e o “pão e circo” para domar e dopar a população, a franquia bem-sucedida Jogos Vorazes finaliza seu ciclo cinematográfico com momentos de extrema ação, aflição e um tímido suspiro vitorioso.

Em tempos de terrorismo e espionagem intensa de países que se dizem prezar pela liberdade de sua população, a história de Suzanne Collins, adaptada em seus últimos três filmes pelo diretor Francis Lawrence, é um marco no cinema tanto pelas qualidades técnicas que a máquina Hollywood pode oferecer de melhor, quanto pela adaptação fiel da obra original.

Em Jogos Vorazes, A Esperança: O Final (2015), Lawrence traz o ritmo alucinante de volta, visto nos dois primeiros filmes da franquia, como base do desfecho. Se na primeira parte de A Esperança acompanha-se os bastidores da campanha midiática da revolução que tem como ícone a jovem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), vitoriosa dos Jogos Vorazes (uma mistura de arena de gladiadores e reality show), esse final traz a guerra que visa destronar Snow (Donald Sutherland), presidente de Panem, a Capital, que mantém 13 distritos como colônias submissas ao governo autoritário e violento.

O mais interessante da história foi incrementar nessa jornada final os elementos que constaram nos outros filmes, como o marketing em torno de Katniss, que muito remete ao modo de se fazer política, de se vender e criar mitos, as intrigas políticas não só entre os vilões declarados, mas até entre os revolucionários (a sede pelo poder é capaz de rachar qualquer ideal), e também os jogos que são verdadeiras maratonas sangrentas e imprevisíveis.

Trágico do início ao fim, Jogos Vorazes termina mostrando como são as revoluções de uma era tecnológica, controlada pela mídia, governos e uma população faminta por liberdade. O derramamento de sangue só acaba nos último minutos, até mais sangue surgir, então chega um momento de paz, democrático e esperançoso. O filme, de forma genial, corta seus minutos finais não para mostrar o futuro de Panem e seus distritos, mas sim para a liberdade de Katniss, que foi tratada como uma marionete o tempo todo, mas que mostrou personalidade revolucionária no seu importante ato final. Uma liberdade melancólica, após todas as desgraças que ela jamais imaginaria passar em sua vida. E depois um recomeço.

Katniss é o tordo da revolução
“Trágico do início ao fim, Jogos Vorazes termina mostrando como são as revoluções de uma era tecnológica, controlada pela mídia, governos e uma população faminta por liberdade.”

A arte imita a vida

Os ícones que surgiram nos últimos anos contra sistemas políticos controversos, como Julian Assange, Edward Snowden, Yoani Sánchez, entre outros, estão sempre com a mídia como base de suas ações, ampliando seus discursos, e assim levantando debates que são de interesse da população. Esses usam o respaldo do jornalismo, da internet, para promoverem suas revoluções, mesmo contra poderosos.

A propaganda política que foi a arma de Hitler e de outros ditadores perversos, hoje é a base para todos os lados políticos, sem exceção. O trabalho pela mídia ou garante a vitória ou, pelo menos, faz muito barulho.

Em Jogos Vorazes, o poder midiático, como o da violência, é usado por todos também, na intenção de controlar, de idealizar ou construir uma nova mentira. As ações filmadas, forjadas, refletem no poder do marketing que se apossou do senso de realidade para mudar caminhos. Nos dias de hoje, o melhor político, na verdade, é o responsável pela propaganda. Curiosamente, os ícones verdadeiros (heróis para alguns) deixam que sua história seja mais importante que o seu nome, mesmo que na sociedade midiática, os personagens são muito importantes para o impacto das ações.

Jogos Vorazes deixa para Hollywood e para literatura um sinal que é possível ainda equilibrar qualidade e entretenimento em obras que vão além do sentido de faturar muito dinheiro. Obras que são reflexivas e traçam ricos paralelos com a realidade que nada perde para a ficção. E hoje, pelo menos no cinema, é muito bem vindo.