Justifique seu preconceito aqui

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Quando alguém diz que “não é bem assim” para justificar algo é porque provavelmente é bem assim sim. Se alguém diz que “todo mundo tá chato” para explicar sua falta de posicionamento diante de algum problema social é porque provavelmente esse alguém se posiciona do lado errado.

Sempre que alguém diz “chega de coitadismo” para deslegitimar alguma vitória ou reflexão de grupos menos favorecidos é porque provavelmente esse alguém não quer perder seus privilégios. Toda vez que alguém diz que “tudo vira mimimi” para reclamar que sua piada não foi bem recebida é porque provavelmente essa piada não é na verdade uma piada.

Se alguém não entende que delimitação de lugar de fala não é ofensa é porque provavelmente esse alguém não acredita que nem todo mundo precisa ou até merece ter uma voz. As vezes que alguém diz que “você entendeu errado” é provavelmente porque você entendeu exatamente certo.

Invariavelmente, quando alguém fala “com todo respeito” antes de emitir uma opinião sobre você é porque provavelmente não existe respeito nenhum nessa fala. Mesmo que alguém diga que “não foi isso que quis dizer” é provavelmente porque esse alguém quis dizer exatamente isso. E quando alguém fala “não tenho nada contra, mas…” para explicar sua visão, opinião ou reflexão sobre algo que não a compete é porque provavelmente existe alguma, muita ou todo tipo de restrição contra.

Nessas horas, para essas falas e posturas, sobra maldade e falta compaixão, sobra faculdade e falta educação e sobra liberdade e falta noção. Fingir que isso não acontece é tentar pasteurizar algo que salta aos olhos, colocar de cinza o que está em destaque de vermelho (ou qualquer cor livre de associação política), silenciar o que berra nos ouvidos de quem sente na pele. É tornar natural o que deve ser combatido todo dia.

E tornar o racismo, o machismo, a misoginia, a homofobia e todas as outras formas de discriminação “natural” deixa a gente com a sensação que temos hoje de que nossa dor deve ser explicada ou justificada. Como se não bastasse ser negra, da favela e homossexual, a pessoa precisa ser agredida ou ofendida e ainda submeter a agressão e ofensa a um juri que não tem direito de fazer parte para que lhe concedam o direito de “se sentir” agredida ou ofendida.

Até quando alguém diz que “foi só uma brincadeira” é provavelmente uma verdade que só virou brincadeira porque você se ofendeu. E aquela vez que alguém disse que “não tem como comparar” é provavelmente porque esse alguém já está comparando. Então toda vez que alguém falar ou agir assim, lembre-se: as pessoas dizem exatamente o que elas querem dizer.

Fique atento.
Esteja alerta.
Mantenha o seu coração aberto.
Mas não os ouvidos fechados.
Nem a boca calada.