La Tragédie Diplomatique

O legado e as conquistas do Brasil nas relações exteriores estão por um fio

A diplomacia brasileira sempre foi efetiva em conseguir o que queria. De Oswaldo Aranha presidindo a II Assembleia Geral da ONU até a fundação do Mercosul, o crescimento acelerado do protagonismo do Itamaraty no século XX foi notável e suas reivindicações vêm sendo expandidas e colhidas no presente. Das duas conquistas citadas anteriormente, o novo governo eleito já conseguiu cuspir em todas — e nem sequer foi empossado.

De isolacionismo o governo Jair Bolsonaro vai entender. Já declarou sua vontade plena de sair do Mercosul, da ONU e por um momento até mesmo do Acordo de Paris — assinado em 2015 por diversas lideranças mundiais com o objetivo de reduzir as emissões de dióxido de carbono na atmosfera. A União Europeia já entrou em alerta sobre o primeiro: fechou todas as negociações a respeito do esperado acordo entre eles e o Mercosul, e reza para conseguir aprovar o acordo com as condições atuais — sem uma possível interferência de Bolsonaro — ainda nesse governo.

A destruição do patrimônio internacional do país não acaba ai: a lendária “Solução de Dois Estados” para a Questão Palestina, considerada falida para muitos mas ainda viva no que tange às relações internacionais brasileiras, foi morta. A causa? A insolência do presidente eleito e o desconhecimento do povo brasileiro sobre o tema — até então considerado muito distante para ser debatido no país.

Oswaldo Aranha em sessão da ONU // Reprodução

Ajudar no desenvolvimento de outros países menores e, com isso, ter um posicionamento estratégico nas mesas de negociação com os mesmos e até mesmo liderar o voto em bloco em questões de interesse mútuo é considerado viés ideológico para o militar reformado. Sua ideia de relação internacional ideal? Suicídio coletivo.

Com a eleição de Bolsonaro, o país perde o resultado de um constante trabalho de construção de um protagonismo nas relações latino-americanas que data do século passado e foi, inclusive, colocado na Constituição. O Mercosul e outras iniciativas respeitadas em todo o mundo no caminho de criar uma nova dinâmica global, onde países emergentes e subdesenvolvidos se unem no plano das negociações para reivindicar sua paridade frente à gigantes globais, são desrespeitadas à grosso pelo futuro comandante-em-chefe.

Bolsonaro em Israel // Reprodução

A decisão de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é mais do que uma asneira fundamentalista: é também um grave erro de calculo. Os países árabes são juntos o segundo maior importador de proteína animal brasileira — e com isso o país coloca em cheque um importante superávit comercial. O maior frigorifico do mundo é brasileiro.

Não obstante, Bolsonaro coloca o país na mira do terrorismo internacional. Paris vai deixar de ser uma noticia distante no jornal, e pode acontecer na esquina da sua residência. “Segurança em primeiro lugar”, é o lema de seu governo.

Perguntado se a mudança ainda está de pé, Bolsonaro foi categórico: “Quando eu assumir em janeiro, você vai ter a resposta”.

Ernesto Araujo substituirá Aloysio Nunes // Reprodução: O GLOBO

A escolha de Bolsonaro para a chancelaria foi, no mínimo, exótica. O pseudofilosofo e ex-astrólogo Olavo de Carvalho levou ao conhecimento de Eduardo Bolsonaro sua admiração por Ernesto Araujo. Tanto Olavo quanto Araujo compartilham entre si o perfil que, segundo a lenda, Ruy Barbosa chamaria de bucéfalo anacrônico — a crença de que a esquerda tem um grande plano para sequestrar a autoridade de nações soberanas através de órgãos e acordos internacionais é um tema comum nos escritos deles.

De acordo com uma das várias publicações de Ernesto Araujo em seu blogue “Metapolítica 17”, trazidas à luz pelo jornal britânico The Guardian, a esquerda demoniza carne vermelha, petróleo e sexo heterossexual. Diz também que o Acordo de Paris e o aquecimento global é uma “trama marxista” para reforçar a soberania da China e derrubar gigantes capitalistas.

A alucinação da equipe diplomática de Bolsonaro pode levar todas as conquistas do Brasil na área para o fundo do poço. A saída de profissionais cubanos do programa Mais Médicos — que de acordo com o presidente eleito oferecem um atendimento “sem garantia” de qualidade e eficácia — é um dos exemplos de curto prazo. O pioneirismo do Brasil no Acordo de Paris — que foi assinado por quase todo o mundo civilizado — pode ter um derradeiro fim.

No final das contas, a diplomacia brasileira está tão incerta com o futuro quanto todo o resto da nação, talvez até mais.