Leia isso antes de falar mal de Pokémon Go

Esta semana fui questionado em diversos ambientes (trabalho, faculdade, família) sobre Pokémon Go, novo jogo/app da Nintendo/Niantic para smartphones. Este texto é uma versão revisada, ampliada e sem palavrões de um post no Facebook sobre os alguns aspectos do jogo que servem principalmente para pessoas que não entendem muito bem o frenesi em torno do jogo e acabam falando algumas bobagens sem fundamento e tratando os jogadores como“zumbis” ou supondo que eles “não tem o que fazer” etc.

Antes de tudo, trata-se de uma diversão. Ponto. Cada indivíduo faz o que quiser pra se divertir. Não precisa servir pra nada. Basta fazer as pessoas felizes por alguns momentos.

Passada a questão da individualidade e escolha de cada um, Pokémon é uma franquia muito popular da Nintendo. É normal os jogadores se interessarem por jogos de Pokémon. Jovens e adultos cresceram assistindo o desenho animado e jogando os mais de 30 jogos lançados ao longo de 20 anos sobre capturar bichinhos. Talvez até outros jogos de Pokémon sejam mais legais, a diferença é que eles estavam nos consoles exclusivos da Nintendo e você, pessoa normal, não sabia disso (e teve que aturar nos seus telejornais diários na Grobo reportagens e mais reportagens sobre… um joguinho). Agora, pela primeira vez, uma IP da Nintendo está na maior plataforma de publicação da história da humanidade, sim, os smartphones.

(Como jogador de videogames eu não me interesso muito pelo jogo em si. Isso é normal, ok? Você não precisa amar Pokémon. Eu nem curto muito Pokémon. Mas como desenvolvedor de games e pesquisador de inovação, é muito importante entender o valor da marca Pokémon e o uso da tecnologia presente no jogo que está gerando uma série de novas interações sociais e negócios.)

EDITADO em 4/8: Fazendo um contraponto do parágrafo acima, o jogo é divertido sim. E mesmo eu que não me interesso tanto por Pokémon gostei de jogar. Existem momentos distintos de “jogo”: se deslocar pra encontrar Pokémon, capturar os Pokémon, evoluir os bixinhos, batalhar contra outros nos Ginásios e recuperar itens nos Pokestops. E no mundo real, grupos de amigos, famílias e tudo mais estão fazendo isso juntos, ao ar livre. É um jogo que consegue satisfazer os 4 tipos de jogadores (segundo a teoria de Richard Bartle): conquistadores, exploradores, vencedores e sociais.

Além de estar nos smartphones, o Pokémon Go se apropria de forma coerente da Realidade Aumentada (ou de seu conceito primordial que é a relação da realidade com a virtualidade, uma aplicação de elementos virtuais baseado em localizações reais) com uma parte importante do recorte de narrativa dos Pokémon, ou seja, as pessoas podem andar pelo mundo caçando Pokémon. Entenda: nos outros jogos os jogadores se divertiam caçando Pokémon num mundo virtual, sentados no sofá. Agora os jogadores caçam Pokémon no mundo real, se movendo, viajando, etc. É divertido, vai por mim. Lembra as brincadeiras de Caça ao Tesouro, Meu Mestre Mandou e outras de busca e exploração? Pronto. É bem por aí… só que você coleciona os Pokémon, evolui e com certeza no futuro vai poder batalhar com amigos. E todo mundo reclamava que o videogame deixava as crianças em casa, certo? Então porque agora estão reclamando que todo mundo está tomando banho, caprichando no tênis, se juntando à la Gonnies e saindo pra se divertir na rua?

Lembra quando falei que o jogo não precisava servir pra nada? Foi apenas para cutucar você, mas com certeza um jogo desse vai (já está fazendo) muita gente se socializar, se conhecer, conseguir novos amigos, dar uns beijos e quem sabe até conhecer mais sua cidade e cuidar da saúde. O jogo também vai influenciar e gerar muitas ideias novas que podem ser aplicadas em outras áreas, utilizando Realidade Aumentada mas também o conceito/design do jogo. Por que é assim que acontece. Crianças se tornam astronautas porque queriam encontrar Chewbaccas espaço à fora. Minecraft vai fazer crianças se tornarem (melhores) arquitetos. E assim o mundo gira.

Eu só jogava 2 jogos com Camilla: Final Fight e Diablo 3. De resto não jogamos quase nada juntos. Pokémon GO a gente saiu na rua fim de semana passado pra jogar juntos. E vimos pais jogando com crianças, vários casais jogando, irmãos mais velhos andando com os mais novos… isso é fantástico pô! É simplesmente maravilhoso ver isso acontecendo. É algo inédito. — Claudio Lins, gamedev brasileiro vivendo na Finlândia.

Se tudo que falei ainda não te convenceu, talvez você seja uma pessoa ligada em grana. E Pokémon Go também é um negócio, é business. É dinheiro que você pensa que dá razão a existência de tudo? Então? Se você está reclamando do jogo, talvez você consiga gerar 14 milhões por dia com sua vida? Não? Então é melhor baixar a bola, observar e aprender com Pokémon Go. Não bastasse a grana indo diretamente para o jogo, você sabia que Cafés estão comprando itens pra atrair jogadores que acabam lanchando por lá? Sabia que serviços de Táxi oferecem planos pra jogadores se locomoverem pra caçar os bichinhos? Que alguns Pokémon habitam pontos turísticos e isso tem movimentado diversas regiões? Parece bobagem né? Mas não é. Isso é o dinheiro circulando. Dinheiro circulando é a economia sendo lubrificada. Valor sendo gerado “do nada”.

A indústria de games já é uma das mais importantes do mundo em todos os sentidos, produtos inovadores, business, expressão artística e empurra a tecnologia para frente dando insights para diversos outros mercados que ainda estão no Século 20.

Por trás dos “zumbis” e do jogo tem todo um mundo de coisas acontecendo, servindo aos propósitos e objetivos de muita gente diferente e gerando sim, muita coisa boa. Pessoas se divertem, socializam, compram, novos negócios são gerados, novas ideias surgem e tudo isso é valor. Só quem não ganha nada com isso é você que fica aí reclamando.