Liberdade, piranhice, (não-)monogamia e hipocrisia

(ilustração por Beatriz Leite | contato: beatriz.hmleite@gmail.com)

Embora a gente ache que o amor é um sentimento universal e natural às relações humanas, o que se entende por amor varia de cultura pra cultura e mudou várias vezes ao longo da história. Aquilo que acreditamos que é o amor serve de guia para as relações amorosas que temos. Se acreditamos que amor é fazer sacrifícios, acharemos normal fazer sacrifícios em nossas relações. Se acreditamos que amor é difícil, aceitaremos viver uma relação que nos parece ter muitas dificuldades. Se acreditamos que tem que ser leve, teremos apenas relações que julguemos leves. E por aí vai.

Entender que não existe o amor como um sentimento puro, mas sim conceitos construídos sobre ele, que mudam de acordo com o contexto sócio-histórico, nos permite entender que, se é construído, pode ser desconstruído. Não precisa ser o que nos ensinaram, pode ser de outro jeito. E é aí que começa a alegria: podemos tentar nos conhecer de verdade, saber quais são nossos desejos e necessidades e construir relações amorosas que de fato atendam a eles. Podemos construir relações mais satisfatórias do que o molde que nos deram.

Foi estudando amor no mestrado que aprendi sobre como esse sentimento é, acima de tudo, um conceito e o que fazemos com ele. Quando entendi que não preciso seguir o molde, tentei me ouvir. E foi assim que cheguei ao que se chama de amor livre. E é por isso que me proponho frequentemente a tentar derrubar mitos e mal-entendidos sobre o que isso é.

O que é compromisso?

Um dos maiores mitos sobre relações não-monogâmicas é que as pessoas escolhem se relacionar assim porque não querem compromisso, isto é, não querem ter responsabilidade com ninguém e não conseguem se comprometer com uma pessoa só e por isso fazem questão de estar abertas a outras.

Antes de prosseguir com a leitura, tente responder essa pergunta para si mesmo/a. O que é um relacionamento compromissado?

Para mim, ter compromisso é estar presente, não deixar na mão, poder contar com a companhia pra momentos bons e ruins, ajudar, não sumir sem explicações, fazer planos... Se ficássemos um tempo fazendo brainstorming, provavelmente pensaríamos em muito mais. Arrisco dizer, no entanto, que sexo não é algo que surgiria como sinônimo de compromisso.

Acredito que tanto pessoas não-monogâmicas quanto pessoas monogâmicas concordam que sexo não é sinônimo de compromisso.

O que pessoas monogâmicas muitas vezes fazem, sem perceber, é tratar o sexo como se ele fosse sim um sinônimo de compromisso, como se ele fosse a coisa mais importante em um relacionamento. A teoria é de que, sem exclusividade sexual, não há compromisso, não há amor, não há intimidade, não há respeito, não há planos para o futuro, não há responsabilidade afetiva, não há nada que sustente uma relação. E eu simplesmente não acho possível que sexo seja capaz de carregar tudo isso.

Sexo é apenas sexo. Quando é com alguém que amamos, é melhor. Mas o amor e o compromisso que temos com quem amamos não depende do sexo.

Lógica monogâmica X Lógica não-monogâmica

Na lógica monogâmica, uma pessoa solteira pode se relacionar com quem ela quiser — especialmente se for homem; se for mulher, normalmente é tachada de vadia. Em algum momento, essa pessoa encontra alguém que prefere em relação às outras pessoas com quem sai. Ela para de sair com todas as outras e passa a ficar apenas com essa. Nesse momento, não importa o grau de afeto, afinidade e profundidade que havia naquelas pequenas relações: todas elas serão descartadas em prol da preferida. No senso comum, um dos primeiros sinais de que se está namorando é parar de sair com outras pessoas, ou seja, tornar aquela pessoa sexualmente exclusiva é um dos primeiros requisitos para configurar um namoro.

Na lógica não-monogâmica, uma pessoa solteira pode sair com quem ela quiser. Em algum momento, ela pode se apaixonar e querer começar um namoro. Quando começa esse namoro, ela não precisa descartar todas as relações que tinha na solteirice. Todos os afetos continuam sendo cultivados, em acordo com a(s) pessoa(s) com quem ela escolheu ter um relacionamento.

Dentro da lógica monogâmica, relacionar-se sexualmente com outras pessoas é traição. Logo, é normal que se pense que transar com outras pessoas é algo abusivo e transportar esse pensamento para as relações não-monogâmicas. Acontece que, dentro da lógica não-monogâmica, relacionar-se sexualmente com outras pessoas é tão abusivo quanto jogar War com outras pessoas. Ou seja, embora legítima, a preocupação que muitas mulheres dentro do feminismo têm com esse tipo de abuso é, na verdade, fazer análise do mesmo elemento dentro de uma lógica que é fundamentalmente diferente. O contexto é todo outro.

Se, na lógica monogâmica, falta de exclusividade sexual é abuso, na lógica não-monogâmica, abuso é cercear a liberdade da pessoa que amamos. A liberdade, no caso, apenas inclui a liberdade sexual, não se limita a ela. (Discorro sobre isso mais abaixo.)

É um grande mal-entendido acreditar que relacionamentos não-monogâmicos são essencialmente abusivos apenas por não terem exclusividade sexual. Não que relações não-monogâmicas não possam ser abusivas; é claro que abusos existem, como não poderia deixar de ser em qualquer tipo de relação, especialmente uma heteroafetiva em sociedade patriarcal. Mas os abusos se dão em outro contexto — a lógica não-monogâmica — e são frequentemente discutidos em grupos para pessoas não-monogâmicas. Tais discussões são muito mais ricas, produtivas e compromissadas com a realidade do que as críticas vazias que muitas pessoas monogâmicas preconceituosas teimam em jogar por aí por acreditarem que, com isso, estão protegendo mulheres de sofrerem abuso. Sendo que, em seus argumentos, o conceito de abuso parte da crença de que a falta de exclusividade sexual tira de um relacionamento uma série de características importantes que formariam, então, uma relação abusiva. Só que, volto a afirmar: o contexto é outro, a lógica é outra.

Vou tentar explicar a confusão usando uma analogia que já usei na newsletter:

  1. Uma mulher diz que não é feminista, porque acredita que homens e mulheres devem ter direitos iguais.
  2. A definição mais básica do feminismo, aquela que eu acho que todas as vertentes concordam, é acreditar que homens e mulheres devem ter direitos iguais.
  3. Quando uma pessoa, por desinformação, fala algo assim, ela passa pra outras um conceito errado sobre feminismo.
  4. Quem escuta isso sai achando que feminismo é equivalente a machismo, cria um preconceito contra feminismo e passa a advogar contra ele também.

Vejo o mesmo acontecendo com o amor livre.

  1. A pessoa diz que não quer um amor livre, porque quer uma relação com compromisso, carinho, intimidade, planos.
  2. Amor livre não exclui nenhuma dessas coisas, muito pelo contrário.
  3. Quando uma pessoa, por desinformação, fala algo assim, ela passa pra outras um conceito errado sobre amor livre.
  4. Quem escuta isso sai achando que amor livre é não ter compromisso, carinho, intimidade, planos e cria um preconceito contra amor livre e passa a advogar contra ele também.

Eu também quero uma relação com compromisso, carinho, intimidade, planos… Mas quero tudo isso dentro da não-monogamia e sei que a monogamia não garante nenhum dos itens.

Relações não-monogâmicas são sanduíches do Subway

Há um conflito inevitável entre as duas lógicas quando tentamos analisar os elementos de uma usando os parâmetros da outra. Da mesma forma que uma pessoa monogâmica acha um absurdo se relacionar com outras, uma pessoa não-monogâmica acha que absurdo é não poder fazer isso.

Vamos voltar ao que falei lá em cima: o que se entende por amor — e consequentemente relacionamentos — varia de acordo com o contexto sócio-histórico e, por isso, não há um molde a ser seguido. Porém, existe um molde referencial, tido como correto e único, que é o sistema monogâmico. A monogamia é um pacote pronto. Em um relacionamento monogâmico, você não precisa adotar tudo que o sistema monogâmico propõe. Você pode adaptar o pacote. No entanto, isso não muda o fato de que o pacote existe como referência, seja pra você ratificar, desafiar, problematizar ou o que for.

As relações não-monogâmicas, por sua vez, são tipo os sanduíches do Subway. Até tem uns modelos, uma variedade de modelos (poliamor, relacionamento aberto, relação livre etc.) prontos pra você tomar como referência inicial se quiser tentar uma relação assim e estiver muito perdida/o quanto a como vai fazer isso. Mas você também pode criar totalmente do zero. Gosto de pão três queijos, 30 cm, frango defumado com cream cheese, queijo cheddar, dobra com suíço, molho chipotle, molho mel e mostarda, muito orégano e pimenta do reino e tá pronto pra mim. Isso mesmo, eu pulo a salada. Sabe por quê? Porque o sanduíche é meu e eu posso montá-lo de acordo com as minhas preferências. Não me sinto pressionada a comer alface nenhum, porque não tem nada ali dizendo que o correto é comer alface.

(ilustração por Beatriz Leite | contato: beatriz.hmleite@gmail.com)

Enfim, dentro da não-monogamia, cada pessoa monta seu próprio relacionamento, como se fosse um sanduíche do Subway, de acordo com suas próprias preferências.

Liberdade e liberdade sexual

Outro mito frequente — diretamente ligado ao primeiro — sobre relações não-monogâmicas é que elas são uma grande putaria desenfreada e que as pessoas que escolhem se relacionar assim fazem isso porque querem transar com o máximo de pessoas possível.

De acordo com esse mito, pessoas não-monogâmicas são loucas por sexo, isto é, dão muita importância ao sexo e à variedade e por isso não querem “se prender” a uma pessoa só. Existe no senso comum uma pressuposição de que pessoas não-monogâmicas se importam mais com sexo do que pessoas monogâmicas. Na verdade, é exatamente o contrário: sexo é tão sem importância, que fazer ou deixar de fazer com outras pessoas não muda em nada a relação amorosa que você mantém.

Mas amor livre, ao contrário do que se pensa popularmente, não é sobre liberdade sexual. É sobre liberdade. O termo “amor livre” costuma ofender algumas pessoas monogâmicas, como se a maneira que elas têm de amar não fosse livre também. Uma pessoa monogâmica lendo isso agora pode dizer: “mas eu não me sinto presa”. A prisão não é a relação monogâmica que você escolheu pra si, mas a monogamia como sistema imposto como única forma legítima de se relacionar afetiva-sexualmente com alguém.

Amor livre é um termo que vem do anarquismo. Representa o ideal de viver relações amorosas desligadas da Igreja e do Estado. Sendo a monogamia (e o casamento e outros valores tradicionais) o modelo de relação amorosa imposto pela Igreja e pelo Estado, é isso que o anarquismo rejeitava. Chamar relações não-monogâmicas de amor livre não é o mesmo que dizer que aqueles que não vivem relações dessa maneira estão presos. É só um amor livre dessas convenções sociais que nos são impostas.

Acontece que poder se relacionar sexualmente com outras pessoas é algo que choca tanto aqueles que têm uma visão mais tradicional de como relacionamentos são que, quando falamos de amor livre, parece que falamos apenas de liberdade sexual — que, dentro de um contexto patriarcal, será sempre limitada para mulheres. Pessoas monogâmicas costumam focar muito nisso quando falamos de amor livre, mas as pessoas não-monogâmicas, na verdade, se preocupam muito pouco com sexo. Poder fazer não quer dizer fazer sempre ou até chegar a fazer.

Autonomia

O que mais me agrada no amor livre é a autonomia — diferente de individualismo e egoísmo — que ele encoraja. O amor romântico, aquele que pauta as relações tradicionais, é necessariamente um amor de dependência emocional, pois parte da premissa de que uma pessoa completa a outra. Eu gosto da ideia de que já sou completa e que meu parceiro também é. Gosto também que não temos obrigações um com o outro — o que não quer dizer que não fazemos nada um pelo outro.

Eu e ele somos livres para nos relacionarmos com quem quisermos, da maneira que quisermos, limitados apenas por alguns acordos — eu não ponho salada no meu sanduíche do Subway e ele respeita isso, assim como eu respeito que ele odeia pimenta. Saber que ele não está comigo por nenhuma dívida, obrigação, carência, medo de ficar sozinho ou necessidade e que ele pode ir embora a qualquer momento e ficar com outra pessoa e que, ainda assim, ele escolhe permanecer comigo, me faz sentir amada. Além disso, acredito que pessoas livres de restrições a seus desejos são mais felizes e gosto de vê-lo feliz. Gosto que ele saia e se divirta com outras pessoas. E também me sinto amada que ele me encoraje a fazer o mesmo e quando ele se preocupa se estou sendo bem tratada por outra pessoa com quem me relacione. Eu, com todos as minhas questões de autoestima e insegurança, me sinto muito mais segura em uma “relação aberta”.

Sexo é desejado igualmente por pessoas monogâmicas e pessoas não-monogâmicas. A diferença é que, quando uma pessoa monogâmica faz sexo fora de seu relacionamento, isso é uma traição do acordo do casal e, quando uma pessoa não-monogâmica faz isso, não é. Via de regra, quem escolhe viver uma relação de amor livre não está em busca de transar com o máximo de pessoas que conseguir. Quem escolhe o amor livre gosta de saber que, se quiser, pode, e gosta de saber que, se a outra pessoa quiser também, ela também pode. Essa autonomia de cada um para fazer escolhas verdadeiras a quem somos em vez de apenas obedecer regras que nos ensinaram me faz sentir especialmente leve.

A hipocrisia da lógica monogâmica

Conforme comentei mais acima, o senso comum acredita que pessoas não-monogâmicas valorizam muito o sexo e por isso escolhem relações livres de exclusividade sexual. Em paralelo, acredita-se também que é na monogamia que se dá importância ao que realmente importa, os sentimentos, o companheirismo etc. Embora não seja tão aparente, na prática, são as pessoas monogâmicas que dão essa importância toda pra sexo, visto que desejar outra pessoa sexualmente é motivo para duvidar de tudo que houver na relação (do amor, do respeito, da confiança...).

No meu texto sobre relacionamento aberto a partir da declaração da Jout Jout, escrevi que “É um mito achar que uma pessoa transa com todo mundo só porque está em um relacionamento não-monogâmico. O que vale é a ideologia: a sexualidade é parte do indivíduo e o respeito à liberdade do indivíduo faz com que ele possa se relacionar sexualmente com outras pessoas caso queira. Na prática, muitas pessoas não-monogâmicas nem chegam a ficar com ninguém e acabam sendo muito mais monogâmicas do que muita gente que se diz monogâmica.

Em um compartilhamento aleatório do texto, li um comentário muito interessante. A pessoa destacava o trecho que copiei acima e dizia:

Traduzindo esse “ata”, o que ele estava dizendo era: “Se eu pudesse transar com outras pessoas, eu faria isso o tempo todo. Quer dizer então que eles podem transar e não fazem isso? Até parece! É óbvio que não é assim!” Isso é bem como a lógica monogâmica funciona: diz se importar com um relacionamento amoroso e compromissado, mas associa amor e compromisso à exclusividade sexual, e gostaria de transar com outras pessoas, mas renuncia a isso ou trai — e aí desdenha de quem escolhe fazer diferente. (Por favor, não estou falando que todas as pessoas monogâmicas funcionam assim, hein, estou criticando o sistema!)

É comum as pessoas dizerem que “não podem começar a namorar em janeiro, porque em fevereiro tem carnaval”. Tem também um monte de gente que termina namoro um pouco antes do carnaval e volta logo depois. São, muitas vezes, pessoas que praticam uma pegação desenfreada nessa época do ano e se afirmam monogâmicas, achando que ser monogâmica significa ter valores dentro de um relacionamento amoroso, só porque, quando namoram, prometem exclusividade — coisa que frequentemente não cumprem. Conheço diversas pessoas solteiras (ou não) que se entendem como monogâmicas, que afirmam ser monogâmicas e, na prática, se relacionam por semana com mais gente do que eu já me relacionei na vida.

Veja bem, não há problema nenhum em transar com uma pessoa diferente cada dia da semana se for consensual pra todo mundo. E uma pessoa não deixa de ser monogâmica só porque, quando está solteira, sai com muita gente. O que estou criticando aqui é a hipocrisia de julgar pessoas não-monogâmicas como promíscuas, quando a realidade é que pessoas monogâmicas fazem tanto sexo quanto as não-monogâmicas, variando de indivíduo pra indivíduo e não de acordo com a lógica de relacionamentos que seguem.

A única diferença entre um grupo e outro é que, dentro da não-monogamia, fala-se abertamente sobre isso – isto é, todo mundo sabe que sou não-mono, então é óbvio que a piranha sou eu. Dentro do sistema monogâmico, de maneira hipócrita, confunde-se amor e compromisso com machismo e moralismo.

Promiscuidade e moralismo

Também em um comentário no texto que escrevi a partir do relacionamento aberto da Jout Jout, li que “enquanto houver maternidade compulsória, é irresponsável defender relações livres no contexto brasileiro”. Foi um comentário que me deixou muito triste, pois há duas premissas nessa afirmação:

  1. mulheres não-monogâmicas transam com mais homens do que mulheres monogâmicas e
  2. relações não-monogâmicas não têm compromisso, por isso é mais fácil abandonar a mulher que engravidar acidentalmente.

As duas premissas denotam os mitos que vim discutindo ao longo do texto, o de que não há compromisso em uma relação livre e o de que ela é uma putaria desenfreada (baseando-se em outra premissa, a de que não existe essa suposta piranhice no meio monogâmico).

Considerando que todos os métodos contraceptivos são falhos em alguma porcentagem e que o aborto não é permitido no Brasil, de fato, uma gravidez indesejada é algo com que se preocupar. No entanto, alegar que mulheres não-monogâmicas estão mais propensas a ficarem grávidas e a serem abandonas por seus parceiros do que mulheres monogâmicas (solteiras ou não) é apenas preconceito e, por isso, me ofende e me chateia. Não há estatística nenhuma pra embasar essa propensão; há apenas um senso comum que discrimina formas de se relacionar que não são a padrão.

O que me parece irresponsável é fazer tanta questão de defender a monogamia tradicional em um contexto social em que 1) homens se acham donos de mulheres e 2) mulheres são criadas sem autoestima, aceitando serem controladas e submissas. Se uma mulher acredita na lógica monogâmica que descrevi mais no início do texto e escolhe viver assim, nada de errado. Acho importante apenas problematizar o quanto de espaço pra abuso há na lógica dos relacionamentos tradicionais e tentar não reproduzir isso nos próprios. Do mais, como feminista, celebro a oportunidade de defender formas de se relacionar que estimulem a autonomia do indivíduo, especialmente da mulher. E me choca que tantas feministas defendam o oposto, se baseando principalmente em argumentos do senso comum que não correspondem à realidade.

Concluindo

Comentários e textões contra a não-monogamia são frequentes. Alguns por acreditarem que relações não-monogâmicas são essencialmente abusivas, outros por não as validarem como relações amorosas de verdade. Observo também que há certo ranço por parte de algumas pessoas monogâmicas, muito devido ao comportamento esnobe de algumas pessoas não-monogâmicas. É comum, até mesmo nos meios não-monogâmicos, rolar uma batalha de desconstrução, como se, quanto menos ciúme você fosse capaz de sentir, mais evoluído como ser humano você fosse. E isso é besteira. No entanto, como muitas pessoas não-monogâmicas agem como se fossem superiores por isso, é normal que muitas pessoas monogâmicas tenham preguiça e antipatia pelo tema.

A não-monogamia não é um estágio evolutivo a ser alcançado. Ela é apenas uma opção, um arranjo, dentre muitos possíveis para se relacionar. Se defendo tanto a não-monogamia, é porque em um mundo que diz equivocadamente que ela é abusiva, promíscua e descompromissada, que casos de sucesso são excepcionais e não interessam e que a monogamia é o correto indiscutível, ela precisa ser defendida. Não tenho como quantificar casos de sucesso dentro da não-monogamia pra saber se são ou não exceções no meio, mas é um fato que os casos de sucesso dentro da monogamia não são representativos. A diferença é que eu não culpo a monogamia pelo insucesso dessas relações. Mas a não-monogamia é constantemente culpada por qualquer coisa que dê errado (“terminou porque era aberto”, “se era aberto, nem começou”, “tá vendo, isso não dá certo, não” — só comentários reais).

Quando defendo a não-monogamia, não estou atacando pessoas monogâmicas. Estou criticando um sistema quase compulsório de como as pessoas devem se relacionar e clamando por aceitação de outras formas. Muitas pessoas se sentem ofendidas quando leem essas defesas, mas acredito que, em um mundo em que a monogamia é considerada o correto e que não-monogâmicos têm sempre que explicar, justificar e defender seus próprios relacionamentos, acho que dá pra entender e perdoar defesas mais categóricas ao amor livre.

Às vezes sinto que estou tentando explicar por que brócolis é bom no meio de um mundo de batata frita. Sempre que elogio o brócolis, surge um monte de gente pra dizer que batata é bom também, não tem nada errado com batata, por que essa implicância com batata etc., sendo que a batata não está precisando de defesa. É quase senso comum que batata é bom. Nada que seja dito contra a batata vai ser mais agressivo e frequente do que aquilo que é dito sobre o brócolis. Então, deixa eu defender o brócolis, porque ele sim está sendo massacrado — injustamente — de tudo que é lado.