Lulu Santos, Djavan, Zygmunt Bauman cantam os Tempos Modernos

Se eu começar a cantar “hoje o tempo voa, amoooorrrr…” você certamente saberá completar o verso. Lulu Santos, sábio, sempre soube da natureza fugaz tempo que escorre por nossas mãos.

Djavan, como tantos outros poetas, usou metáforas sobre o amor líquido em Oceano, no indo texto “Você deságua em mim e eu oceano”.

Em partículas maiores ou menos, de forma mais ou menos granulada, a intuição de que a vida moderna é fluida sempre nos ocorreu. Mas foi quando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman definiu a modernidade (e o ser humano moderno) como líquido tudo ficou (no pun intended) mais transparente e cristalino.

O tempo, o amor, você, eu, nosso comportamento, parece ter perdido viscosidade. Lembro de termos da minha infância, da mãe reclamando do ‘grude’ entre amigos, namorados, no clichê ‘esses dois não se desgrudam, parece que estão colados um no outro!’.

Esse sentimento de adesão-aderência-cola era frequente. Não mudávamos de time, nem de escola de samba do coração; princípios eram estáveis, o cotidiano tinha estrutura. Isso não era necessariamente bom, já que tudo o que rígido quebra e o que é flexível verga na ventania, mas resiste a terremotos. É bom ser flexível.Mas entre ser flexível e ser líquido há um longo caminho.

Hoje somos totalmente líquidos, como água. Escorremos entre assuntos. Se uma tragédia nos bombeia para o alto, em 24 horas já estamos ao nível do mar. Totalmente comandados pela força da gravidade, nosso movimento é de maré. Apareceu um famoso/famosa novo/nova, no horizonte da mídia, como uma nova lua ? Eita! A maré já nos leva de novo. Com o tempo a onda estoura e voltamos todos para a areia.

Sim, há momentos em que a coisa congela, como nos momentos de terror. E aí, ficamos todos solidamente contra o terrorismo, a favor da liberdade, contra o Estado Islâmico, a favor de Paris. Mas bastou esquentar um pouquinho e lá vai o mar recla-mar que estão dedicando mais indignação para o atentado em Paris do que a tragédia de Mariana, provando que até a mesmo a dor, o sofrimento e a morte foram incluídas no grande caldo da competição de nossos dias.

Depois que todos nós, as moléculas desse líquidos, entramos em atrito e agitamos muito o nosso meio, ocorre o fenômeno da evaporação. Aquilo que movia massas, que era essencial, evapora, como todos os fã-clubes instantâneos criados shippar--até-a-morte os casais de reality shows, como as injustiças transmutadas em textões publicados em papiros online, como todas as nossas juras, promessas e posições que perdem a validade em 48 horas.

E isso é bom ou ruim? Bem, isso é. Ou melhor, isso está. Ou, homenageando Heisenberg (o Werner, não o Walter White), numa combinação de está-e-não-está. Porque assim vivemos e estamos, de forma líquida, impermanente, moldada a qualquer vazio que nos contenha, espiralando por ralos que nos consomem, buscando médias entre extremos sólidos e gasosos das nossas incoerências. Ou, como Nelsinho Motta Lulu Santos resumiram tão bem, como uma onda no mar. Porque nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa. Tudo sempre passará.