Ilustração: Altovolta

Mãos dadas

Topa um sorvete?

Fernando Serrador
Jul 7 · 4 min read

A mãe e o menino seguiam de mãos dadas. Era uma tarde amarela, leve, daquelas com ar fresquinho e sol amigo, caricioso, que se deita devagar sobre a cidade passado o almoço e vai invadindo as moradias pelas brechas das janelas e frisos das portas até bater lá nas paredes, do outro lado, de um jeito meio raro no calendário.

Se moviam sem pressa, pacatos como o comércio da rua principal. Haviam clientes, sim, nas lojas, mas as vendedoras nas portas, de celulares nas mãos, denunciavam a calmaria nas vendas. Sobrava pessoal e tempo para checar as mensagens ou distrair-se alterando o toque do aparelho.

O menino, ainda de uniforme da escola, era bonito e parecia ter saúde, pele lisa, rosto cheio, corado. Criança bonita, como todas deveriam ser. Pisava o chão da calçada com pés e o pensamento serenos, desobrigado daquele pavor que assalta os adultos, aquele horror de que a vida esteja a lhe aprestar um tombo logo ali, no próximo passo. A vida é assustadora, mas não para ele. Vestia o uniforme da escola, e tinha a mão dada com sua mãe.

Avançavam sem rumo, miravam as vitrinas, interessavam-se por um ou outro item. Apontavam com os dedos, checavam os preços. Vê-los, juntos, vogando pelo passeio, cortando as vias pela faixa de pedestres, aguardando, mansos, o favor d’algum motorista, tornava a cidade mais admirável e racional. Não chegavam a flanar: rumavam a algum local, havia um destino para eles, só não sabiam bem qual.

Mais cedo, logo após o almoço, sepultaram o pai do menino. Foi de madrugada que o homem morreu, e a mãe lhe disse ao raiar do dia que comparecesse ao exame de Geometria na primeira aula da manhã e só então voltasse velar o pai. Falou isso enquanto aprontava a lancheira do filho com suco de caju, umas fatias de queijo branco e os biscoitos de maisena que ele gostava, e só apercebeu-se que a tarefa era em vão - o menino viria embora da escola antes de lanchar - ao ouvir a voz chorosa, embaraçada do filho, à mesa, perguntando se contava aos colegas. Ainda assim, terminou a arrumação com carinho, fechou o zíper e gentilmente dispensou a lancheira no canto da pia, onde sempre a deixava.

- Conte a quem você achar que deve saber, filho. Isso, conte sim.

Falar da morte do pai poderia lhe causar algum bem, matutou a mãe. Além disso, seria mesmo questionado do motivo de sair mais cedo, e não era caso de mentir. A classe toda sabia da doença, professores, pais e mães vislumbravam a chegada desse dia, mas criança nunca pensa em morte. Elas pensam é na prova de Geometria, nas três arrastadas semanas que os separam das férias, na figurinha repetida que irão oferecer ao amigo em troca daquela maldita nº44 que nunca vem no pacotinho. Ninguém morre, ninguém devia morrer, no senso de uma criança.

O menino já se despedira, várias vezes. A mãe não precisou dizer nada, ele sabia. Sabia de tudo. As semanas de enfermidade do pai no hospital deram conta de esgotar quase toda a tristeza que um menino daquela idade conseguia sentir, não havia mais dor, ele já compreendia, sem a lucidez dos mais velhos, o fim de tudo. Tão jovenzinho e compreendia! Chorou bastante, mas chorar não prestava de nada. Ou quase nada.

O velório foi marcado logo cedo e, sem pressa, mas também sem demora, houve o sepultamento. O menino mirava curioso os homens trabalhando com a terra, o caixão com seu pai nas mãos daqueles homens. Eram dois sujeitos fortes, todos sujos de terra vermelha e seca que aderia com facilidade ao suor em seus braços e pescoços e depois escorria, formando gotas quase sanguíneas que desapareciam na roupa ou se desprendiam até o chão. Era preciso olhar para algum lugar, então olhava para a obra dos dois homens enquanto recebia beijos e afagos no cabelo dos que se despediam da mãe. Ela recusava a todos os convites de amigos e parentes para que os acompanhassem, que passassem a noite em suas casas, que lhes preparassem a janta ou socorressem de alguma forma. Recusou a todos. O menino, braço envolto na cintura da mãe, só ouvia. Os convites, os pêsames, as diferentes manifestações linguísticas de consolo, de fé, de dó.

No carro, a mãe perguntou sobre a prova.

- Fui bem, acho.

- Vou buscar as calças na costureira antes de ir para casa, as barras ficaram prontas. Topa um sorvete?

- Topo.

E ali estavam os dois, de mãos dadas, naquela tarde amarela, seguindo pela calçada. O comércio, suas lojas e suas vendedoras nas portas, os carros indo e vindo. A mãe e o menino caminhavam tranquilos, havia harmonia em tudo o que faziam, havia um concerto entre os dois de que deviam estar ali, juntos. Perdoavam-se por tudo, um ao outro. Mais tarde, voltariam para casa. Mas antes iriam espiar as vitrinas, buscar as calças da mãe e tomar aquele sorvete.


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