Mídia internacional se espanta com o sistema político brasileiro

Arte André Arantes

A tradicional imprensa estrangeira não acatou a tese da presidente Dilma Rousseff e de seus aliados políticos de que foi vítima de um golpe de Estado. Jornais tanto da Europa, dos Estados Unidos quanto de países da América Latina consideraram o impeachment da presidente constitucional, da mesma forma que a imprensa brasileira, porque as peças dos fatos políticos ocorridos no Brasil não se encaixaram com exatidão no quebra-cabeças da versão governista.

No entanto, diferentemente dos jornais do Brasil, os estrangeiros demonstraram espanto com o sistema político brasileiro e fizeram uma relação entre a queda da presidente e esse sistema formado por quase três dezenas de partidos e liderados por políticos com acusações mais graves do as que levaram à destituição de Dilma.

Reportagens, artigos assinados por colunistas e editoriais publicados depois que o Senado confirmou o afastamento da presidente da República em jornais como The Guardian e Financial Times (Inglaterra), The New York Times (EUA), Le Monde, Le Parisien e Le Figaro (França), El Mercurio (Chile), El Tiempo (Colômbia), El Observador e El Pais (Uruguai), La Nación e El Clarín (Argentina) abordam o caos do sistema brasileiro. Os editorais do Financial Times, New York Times e The Guardian foram os mais duros contra nosso modelo político.

América do Sul

A cobertura dos jornais sul-americanos foi a que mais se aproximou da cobertura dos jornais brasileiros. A teoria de golpe foi tratada com o mesmo tom crítico dos jornais locais. Mas mesmo estes questionam o sistema político que derrubou Dilma e como este permaneceu firme mesmo depois da queda da presidente. O chileno El Mercúrio no editorial Brasil en suspenso, publicado em 13 de maio, afirmou que não houve golpe no Brasil e que o impeachment foi fruto de uma série de fatores, entre eles a dificuldade da presidente de gerenciar a crise econômica.

Entretanto, o jornal faz uma ressalva: “É difícil para um presidente no Brasil conseguir uma maioria cômoda no Parlamento que lhe permita governar sem necessidade de cooptar partidos que ingressam na base governista. A alta dispersão do voto, uma multiplicidade de partidos não alcança maiorias claras e impede o Executivo de governar com folga. E aqui é onde aparece a corrupção”.

No editorial Em Brasil, fin de una era, El Tiempo, da Colômbia, disse em 17 de maio, que Dilma não roubou, não foi atingida diretamente pelos escândalos de corrupção que golpearam o país, que recebeu 54 milhões de votos e, ainda assim, foi afastada do poder e que será julgada por um Senado que tem 80% de seus integrantes investigados em algum tipo de crime, incluindo corrupção. “Seu crime: maquiagem das contas públicas, que, segundo ela, é uma infracção administrativa menor, que seus antecessores têm praticado”.

Feitas essas ressalvas, El Tiempo faz um relato da grave crise econômica que se abateu sobre o Brasil sob o comando da presidente Dilma e observou que a mudança de lado do vice-presidente, Michel Temer, selou o fim de seu mandato. “O que não significa que a crise foi evitada, mas talvez muitos outros tenham sido abertas: Temer tem um processo por falsificação de contas na campanha presidencial de 2014.”

Os vizinhos Uruguai e Argentina seguem o mesmo tom de crítica aos erros da presidente Dilma na condução da economia e na relação com o Congresso Nacional. Em 13 de maio, o uruguaio El Observador afirmou em Incógita después de Dilma que persiste o enigma em torno de um sistema político “golpeado por pavorosos escândalos de corrupção que envolvem os líderes de todos os principais partidos”.

E lembrou da sessão da Câmara dos Deputados que acatou a admissibilidade do impeachment com os parlamentes justificando seus votos “com gritos e argumentos de vaudeville”. O editorial observa que o país precisa recuperar sua confiança perdida, fortalecer sua institucionalidade ferida pelos casos de corrupção e “por um impeachment levado a cabo com duvidosa base jurídica”.

Em outro editorial, Brasil necessita crear confianza, o jornal diz que nada é tão claro no Brasil, cujo complexo sistema político, com 27 partidos no Congresso Nacional e com a maioria de seus dirigentes “igualmente envolvidos na gigantesca rede de corrupção”. Artigo de Alberto Armendáriz, publicado em El País, o maior jornal uruguaio, dedica-se a questionar a idoneidade dos parlamentares que cassaram a presidente brasileira.

El Observador e El País destacam que Uruguai precisa da estabilidade política e econômica do Brasil em função de seus interesses comerciais com nosso país. Exatamente por esses motivos, ambos os jornais criticaram a tentativa de apoio do governo uruguaio à presidente Dilma e depois destacaram seu recuo e a decisão de estabelecer uma posição de “cautela” e “prudência” em relação ao novo governo brasileiro em nome das relações bilaterais entre os dois países.

O argentino La Nación, na mesma linha de criticar a teoria de golpe, publicou entrevista com o cientista político alemão Hauke Hartmann, especialista em América Latina, em que este afirma que “o problema não é o PT, é o sistema político”. No artigo, Sin Dilma, pero lejos de mejorar el panorama, publicado em 13 de maio, no jornal El Clarín, Marcelo Cantelmi diz: “Legal e legítimo não são conceitos similares e a linha entre eles foi exacerbada pelo tamanho atual da crise brasileira. O desafio do novo presidente interino Michel Temer vai ser como reduzir essa distância. Seu dilema é que, tem pouco do primeiro, e definitivamente não tem a última.”

Estados Unidos

O New York Times (NYT) fez, em 12 de maio, um dos editoriais mais críticos em relação ao impeachment. O argumento de que o governo sofre um golpe “é discutível”, e diz, que as chamadas pedaladas fiscais de que Dilma é acusada foram cometidas por outros governantes sem que eles tenham sofrido o mesmo escrutínio. “Muitos suspeitam, porém, que os esforços para remover Dilma têm mais a ver com a decisão dela de permitir que procuradores sigam adiante com investigação de esquema na Petrobras”, diz o texto. O NYT se posicionou pela realização de novas eleições caso a presidente perca definitivamente seu mandato após julgamento a ser feito pelo Senado.

Além do editorial, uma reportagem publicada no mesmo jornal indica que a mudança de governo representa uma guinada à direita da política brasileira. Diferentemente do NYT, a cobertura do Washington Post se limitou a relatar os acontecimentos, com foco nos erros da presidente e denúncias contra membros de seu governo.

Europa

Em 12 de maio, o inglês The Guardian publicou o editorial The political system should be on trial, not one woman (algo como “o sistema político deveria estar no tribunal, não uma mulher”).

O texto diz que Dilma tem suas próprias falhas, que até mesmo seus defensores admitem que são substanciais e que elas contribuíram para sua queda. Mas afirma que ficou claro que não apenas ela errou, “mas o sistema democrático brasileiro como um todo. O jornal afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou da corrupção para “gerenciar as complexas coligações políticas” e que Dilma herdou “esse legado infeliz” e que ela começou a perder o controle durante um período de declínio econômico e das revelações dos escândalos de corrupção.

The Guardian acredita que houve preconceito machista contra uma líder do sexo feminino, e ressentimentos de uma direita política que nunca se reconciliou com a ascensão do partido de Lula e Dilma. Para o jornal, o “elemento tóxico final” da crise foi a preocupação com a possibilidade de o Ministério Público em breve chegar a outros políticos e que uma maneira de evitar ou minimizar esta possibilidade seria a de “distrair a atenção e assumir o controle do processo político buscando o impeachment do chefe de Estado”.

“A ironia é fácil de ver, quando muitos dos acusadores são eles próprios acusados de pecados piores”, diz, para concluir que diante dessa realidade, quem deveria estar em julgamento, acima de tudo, é o modelo político brasileiro que falhou. Explica que a Constituição dá poder ao Legislativo para ajudar o Executivo a governar, mas critica o modelo que permite grande quantidade de partidos políticos, pulverizando o poder, enquanto um presidente chega a ter, com sorte, só 20% do Congresso. O texto termina com uma sugestão e uma dúvida. Diz que a nova administração brasileira deve iniciar mudanças constitucionais radicais que fariam a política tanto mais funcional quanto mais honesta, mas duvida que o novo governo que Temer montou seja capaz de tal salto.

Em editorial publicado em 13 de maio, o inglês Financial Times lembra que o Brasil enfrenta três grandes crises: econômica, ética e política. E diz que o novo governo, apesar das controvérsias, pode ajudar o país a superar os dois primeiros. No entanto, observa que o problema que vai continuar é o do “arranjo político que faz com que o Brasil seja uma das mais fragmentadas e pesadas democracias presidenciais no planeta”.

Le Monde é o jornal francês com a melhor cobertura dos acontecimentos do Brasil. O periódico tem uma página só sobre o Brasil na editoria Internacional. O jornal mantém o mesmo tom crítico direcionado a todos os políticos. Fez matérias sobre os escândalos de corrupção, falou do envolvimento do PT, do PMDB bem como de líderes da oposição ao governo e a Lula. Em O Brasil carente de confiança, de 13 de maio, o Le Monde diz: “Dilma Rousseff, viu seu segundo mandato brutalmente interrompido, na quinta-feira 12 de maio, após manobras que não honram a toda a classe política brasileira amplamente desacreditada”.

E mais: “Ela é julgada não pelo cometimento de um crime, mas por ter mascarado sua apresentação da lei orçamentária. Em verdade, ela tentou esconder o montante do déficit orçamentário do Estado — nós conhecemos, na Europa, uma quantidade numerosa de países onde esta tentação, senão prática, é bastante familiar”, ironiza.

Na reportagem, Queda da presidente deixa o Brasil em alerta, Le Monde diz que “o futuro é angustiante. “Michel Temer, produto da política desconhecido da maioria, não gera entusiasmo. O homem, três vezes presidente da Câmara dos Deputados, defende um programa conservador fazendo dos dizeres da bandeira brasileira emprestada de Auguste Comte (Ordem e Progresso) o seu slogan, mergulhando o país de volta ao passado”.

Após a queda de Dilma Rousseff, novo governo não seduz, publicada em 16 de maio, cita editorial do New York Times, para quem a presidente pagou um preço “desproporcional” por seus erros.

Le Figaro, em reportagem de 12 de maio relata a votação do Senado, aponta os erros da presidente brasileira, mas também assinala: “O Brasil vive um enorme paradoxo: a presidente Dilma Rousseff foi destituída do poder por deputados e senadores que, na margem de 2/3, estão implicados em esquemas de corrupção contra os quais as acusações subjacentes ao impeachment da presidente podem parecer pecados veniais”.

O Le Parisien, que fez a menor cobertura da crise brasileira, disse que na França um processo de destituição seria mais complicado do que aquele que tem sido levado no Brasil. E afirmou que o rompimento de Temer com governo petista foi o “golpe fatal sobre Dilma”. O maior jornal belga La Libre Belgique tratou com discrição o impeachment no Brasil e destacou que o presidente interino, Michel Temer, já se vê no poder até o fim de 2018 e ressaltou o fato de uma presidente mulher ter sido trocada por um presidente que não nomeou nenhuma para seu ministério.

Imprensa brasileira adormecida

Diferentemente do que retrataram os vários jornais internacionais pesquisados para este artigo, a mídia, os políticos, os mais interessados em manter o atual status quo, e a população brasileira parecem ter se acostumando com nosso podre sistema político e isso o tem alimentado e, assim, garantido sua sobrevivência. Todos parecem anestesiados, mesmo diante das denúncias que envolvem não só os petistas graúdos, mas atingem o senador Aécio Neves, passando pelo presidente em exercício, Michel Temer, por seu forte ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB), pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, sem falar no mais mal afamado de todos, o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Não houve nem sequer uma manifestação política relevante no Brasil pós-aprovação do impeachment para mudar esse sistema. O trauma de mais impeachment de um presidente da República em um intervalo de apenas 24 anos deveria provocar não apenas a troca de um presidente por outro, de ministros por outros dos mesmos partidos que já estavam no poder, mas ser uma oportunidade de mudar o nosso sistema.

Entretanto, a mídia brasileira, muito menos os políticos (tanto os que assumiram o poder quanto os afastados dele) não moveram um dedo para fazer uma grande mobilização no país por uma grande mudança. Por isso, Temer nomeou sem constrangimento o deputado André Moura (PSC-SE), réu em três ações penais no Supremo Tribunal Federal e investigado em quatro outros inquéritos, um deles por tentativa de homicídio, meramente por ser o “lambe-botas” do deputado afastado Eduardo Cunha, segundo palavras de um deputado em plenário.

Tanto a mídia quanto a população estão se manifestando apenas no varejo contra políticas anunciadas pelo governo interino, como a falta de diversidade no ministério de Temer, ou a extinção do Ministério da Cultura o que tem levado o governo a recuos pontuais. No entanto, pressões e recuos pontuais não mudam a realidade política, diferentemente, sustenta-a viva e forte.

A quem interessa mudar o pode sistema político brasileiro? A ninguém que está no poder ou está lutando para chegar lá. Os políticos aprenderam a sobreviver nesse esquema, e dele não querem se livrar. A mídia brasileira também não parece interessada, pois parte dela apoiou o impeachment (tema do qual tratei no artigo Jornais apoiam o impeachment de Dilma?) sem tratar da luta pelo poder travada dos bastidores de todo esse processo.

Se a população quer o fim da corrupção, melhorar a baixa da representação parlamentar, ter garantia de políticas públicas que atendam às demandas por melhorias dos serviços públicos precisará se mobilizar como em 2013 para forçar o Congresso e o governo a fazerem uma ampla reforma política e partidária. Do contrário o país continuará assombrado pela velha política.

Isso poderá ser conferido na eleição municipal deste ano que acontecerá como se o Brasil de 2016 continuasse o mesmo de cinco anos atrás. A mídia brasileira também precisa se envolver nesta mobilização, a menos que queira continuar apenas a fazer relatos e mais relatos de casos de corrupção com um viés de indignação improdutiva e, acima de tudo, sem compromisso com as reais mudanças pelas quais o Brasil precisa passar. Passou da hora de derrubar nosso sistema político. (Colaboraram Bárbara Camargo, Gabriel Pereyra e Oto Araújo)

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