Mad Men | A redenção e a Coca-cola

O final da extraordinária série

Em uma das cenas finais de Mad Men, o anti-herói Don Draper (Jon Hamm) surge apenas com a silhueta diante o mar da Califórnia reluzido pelo sol. O cenário é contemplativo, assim como a proposta do local. A silhueta de um homem imerso ao mundo da propaganda, que se dilui em um escritório que vende sonhos, ilusões e a suposta felicidade, como é vista na abertura da série (e, metaforicamente, em toda sua trajetória), agora encontra-se em meio à natureza. A redenção de Don Draper chega plena e emocionante, após uma dolorosa e melancólica jornada rumo à sua aceitação como também Dick Whitman, sua verdadeira — e renegada — identidade.

Melancolia: o homem-silhueta atormentado pela falta de sentido da identidade que escolheu.

Com uma infância sem pais (a mãe, prostituta, morreu no parto, enquanto o pai morreu quando ele era criança), criado em um prostíbulo, Dick viu uma oportunidade de fugir da guerra e de fugir de si mesmo. Com nova identidade, ele foi buscar sua esperança em Nova York, a cidade em que todos são silhuetas atrás de seus sonhos. Vendendo uma ilusão, mentiras, ele foi perfeito para o período dos ano 60. Formou uma família seguindo os preceitos do American way of life e conseguiu trabalhar na glamourosa indústria da publicidade. Talentoso na profissão graças à sensibilidade de antever tendências (afinal, cresceu em ambientes boêmios e mais pobres, com diversidades), Don sempre conseguiu guardar seu “verdadeiro eu” dentro de um pequena caixa de lembranças.

Com a estagnação da elite e as revoltas sociais, Draper e outros personagens são tragados para um novo mundo em que as mudanças não esperam por suas escolhas. O grito dos negros e das classes mais baixas. As novas tecnologias como a televisão e o computador. A Guerra do Vietnã. A morte ícones como Marilyn Monroe, Martin Luther King e John F. Kennedy. A crise dos mísseis em Cuba. A chegada do homem à lua. As drogas e a violência urbana. As religiões e crenças espirituais. A contra-cultura e a música pop. Os mais rápidos em absorver essas mudanças vão conseguindo reagir, se firmar… Crescer. Outros vão sendo ultrapassados, buscando novos sentidos, desesperando-se, enforcando-se. As silhuetas de Mad Men são os estereótipos sufocados por serem tratados como gráficos, como cores e cifrões.

Peggy mudou sua postura ao longo dos anos.

As mulheres (as verdadeiras protagonistas da história) começam cada uma seguindo seus papéis: os de secretárias ou donas de casa. Peggy Olson (Elisabeth Moss), Joan Harris (Christina Hendricks) e Betty Draper (January Jones) são a base principal do feminismo da série. A primeira sofreu pela falta de beleza e o assédio moral (e sexual) de seus companheiros. Quando sentiu gosto pela profissão, Peggy abriu mão da maternidade para crescer dentro daquele ambiente opressor. Amiga de Don Draper, Peggy foi obstinada, ambiciosa e corajosa em impor seu espaço e seguir seu objetivo.

Feminista: Joan bateu de frente com poderosos e foi abrir sua própria empresa.

Joan é uma bomba sexual. Nunca percebeu que quem sentava no centro da mesa em reuniões com o sócios, era ela, a secretária-chefe. A “mãe” de todos aqueles marmanjos. Aos poucos, utilizando artifícios menos estéticos e mais a sabedoria, conseguiu se libertar do que a prendia: o mais puro e irracional machismo. O amor que antes seria a ponte para o seu status social (desejava casar com um homem rico) virou apenas um detalhe para a sua vida. Ela, como Peggy, foi rápida em sentir que os direitos estavam crescendo para ela, enquanto os homens do escritório estavam dando de cara nas paredes. Apesar da vida profissional em ascensão, Joan terminou sozinha (afinal, nem todos estão prontos para aceitar esse triunfo das mulheres).

Betty foi a vítima de um modelo que prometia um sentido de vida, mas que lhe entregou a morte.

Betty Draper foi diferente. Largou uma promissora carreira de modelo para cuidar do lar. Passiva, ela aceitou viver na sombra do marido, seguindo à risca o que lhe era mandado. Com desejos florescendo e a descoberta sobre o segredo do marido, Betty reagiu de forma pouco eficiente: casou-se de novo. Desta vez com um homem mais velho e que trabalha para o governo (visão mais patriarcal é impossível). A jornada de Betty foi tempestuosa. O modelo de vida a deixou obesa, ansiosa, triste e, por fim, à beira da morte — mesmo depois buscando fazer algo por ela mesma, estudando, ironicamente, Psicologia. Sally (Kiernan Shipka) nasceu dessa era obscura, quase se transformou na mãe, mas terminou, literalmente, cuidando dela. Freud explica.

Após oferecer a herança para o filho que tem com Joan, Roger faz as pazes com sua vida.

O homens de Mad Men, por outro lado, viveram perdidos em sua prepotência e arrogância. Roger Sterling (John Slattery) é um homem que vive uma estagnação da carreira e da vida pessoal. Mais um casamento fracassado, trabalho que se limita em puxar saco de clientes, “jogar golf” ou beber com eles. Ele é algo na agência graças ao seu grande cliente: a marca de cigarros Lucky Strike. Quando perde a conta, Roger se afunda ainda mais em uma crise existencial. Então, tenta se reencontrar em um novo casamento, faz terapia, enche a cara e usa LSD. Curiosamente, uma experiência que faz sentido é quando vai visitar a filha que fugiu para morar com hippies. Nos seus momentos finais, Roger encontra o compasso da vida, aceitando a idade, se relacionando com alguém mais velha. Joan, sua eterna amante, vira e diz: “finalmente você encontrou o momento certo”.

O sobrenome de Pete lhe abriu portas, mas também o amaldiçoou.

Pete Campbell (Vincent Kartheiser) representou em Mad Men o jovem que é ambicioso, mas se sustenta pelo seu sobrenome. Filho de família influente, Pete sofreu muita pressão para manter um status, mesmo escolhendo uma carreira não muito bem vista pelos pais conservadores. Assim, ele precisou conciliar a vida de aparências ao lado de sua esposa Trudy Vogel (Alison Brie) e a pressão de ser no escritório algo além de uma grande fonte de contatos. Rivalizou vários momentos com Ken Cosgrove (Aaron Staton) para se manter no mapa. Apanhou, literalmente. Tentou ser um “mad men” à la Don Draper, mas nunca conseguiu se sentir à vontade nesse “padrão”. Pete teve um final feliz reatando com a esposa, livre das pressões e com uma nova chance de construir sua própria vida — e nome.

A epifania do esclarecimento, existe?

Vários outros personagens foram importantes para contar a história (e as suas próprias) em Mad Men. Entretanto, nenhum deles foi tão primoroso e icônico como Don Draper. A busca para encontrar suas raízes foi contada de forma coerente, emocionante. A ruptura e a desconstrução de Don Draper se deu porque ele renegou o passado, mas sem esquecê-lo de vez. No livro Mad Men e a Filosofia, no capítulo “Pete, Peggy e Don e a dialética da lembrança e do esquecimento” o autor do texto, Jonh Fritz, delineia a diferença entre os três personagens do título. Enquanto Pete é preso no passado, no seu sobrenome, e Peggy “esquece” desse passado para poder seguir em frente (mesmo que aos poucos ela vai superando suas questões que voltam futuramente), Don Draper vive em constante contradição.

Don Draper em uma de suas crises de consciência.

Ele vive sua propaganda de margarina, mas não deixa de lado a vida boêmia que reflete o seu passado. Visita periodicamente a viúva do verdadeiro Draper, não deixando morrer esse laço. Apesar de rejeitar o irmão Adam que vai atrás dele, Don vive momentos de tormento ou de prazer em revisitar lembranças do que já passou — mas ele sabe que para sua nova realidade isso é sempre um risco. Distraído pelo seu drama, Don acaba sendo engolido pelas mudanças culturais e sociais da época. E desta forma, torna-se um problema na agência. Porém, enquanto isso, ele vai restabelecendo contato com Dick Withman, o outro “eu” que vive dentro dele.

Na sua jornada, casa-se com a secretária Megan Calvet (Jessica Paré), uma mulher que tem a veia artística e busca a liberdade — o que logo torna-se um incômodo para o homem que não segue esse ritmo. Apresenta o seu passado aos seus filhos, levando-os ao lugar onde morou. Tenta se reconciliar com sua filha Sally. Don termina mais distraído que nunca, indo para a estrada como um aprendiz de Jack Kerouac e sua ideologia beat. Vai em um retiro espiritual (tentando ser Don) mas, inevitavelmente, se encontra com Dick. Nesse clima hippie, Don finalmente é obrigado a ser ele mesmo. Em um momento de ternura, ele abraça alguém para consolar. Ou melhor, abraça Dick.

Um momento de catarse: as pazes de Don com seu verdeiro eu.

Curiosamente, o criador da série, Matthew Weiner, optou em manter essa dualidade nos momentos finais da série. Enquanto todos os outros personagens, de alguma forma, fechavam suas questões, Don tinha uma epifania de sua vida. Sua silhueta contra o mar completava sua transição em se encontrar e aceitar seu verdadeiro “eu”. Porém, apesar de um sorriso na face, a cena corta para o comercial da Coca-Cola, icônico na época, e que tem traços de que poderia ter sido criado a partir dessa experiência reveladora de Don Draper. A ‘pegadinha’ está aberta a diversas interpretações e, ambígua, é um artifício para cada um aceitar o final que deseja. Draper encontrou mesmo sua redenção? Ou apenas uma ideia para a Coca-cola?

Comercial da Coca-cola que faz referência à experiência vivida por Don.

Isso pouco importa. Em um mundo em que nossas vidas são moldadas pelos valores sociais e outros impostos pelas mídias, Mad Men apenas refletiu um momento de uma época que tem muito a nos dizer mesmo cinquenta anos depois. É um mundo em que a silhueta ainda existe, onde as pessoas continuam sendo separadas por gráficos de cores e cifrões. Em que a felicidade ainda é o mote da propaganda e vende muito bem sua ilusão (assim como a política de guerras). E todos compram as razões e válvulas de escape para se sentirem melhores. Os ícones daquela época ainda se transformam em filmes e livros pela falta de novos à altura. As pessoas falam por apetrechos tecnológicos para disfarçar a distância sentimental de um pelo outro.

Mad Men foi uma série de época que teve muito à refletir os dias de hoje. Além disso, conseguiu captar muitos dilemas que o ser humano passa na experiência de viver. Sentimentos que tendem a ser reprimidos pelo medo dos valores morais vigentes. O mundo das aparências, plástico, que a publicidade apenas segue a onda para vender. Ou cria as tendências para serem seguidas. A sufocante crise existencial que todas as silhuetas sem face preenchem de alguma forma, através da religião, da bebida, das amantes. O sexismo e o racismo que seguem em ponto de ebulição.

Don Draper ou Dick Whitman? Somos a mistura de identidades e valores. Sempre buscamos algo. E nos arrependemos do que desejávamos tanto. Mad Men vai deixar uma lição valiosa: a redenção é possível, mas isso não significa um final feliz. Isso tem a ver com aceitação, com dignidade. O melhor da vida é de graça, já cantava Bert Cooper (Robert Morse) para Don. E o que tem a ver a Coca-cola com a catarse de Don? As silhuetas tiveram por alguns minutos cores próprias, tiveram características que todos queriam ver e se identificar. Refletiram liberdade e compaixão pelo próximo. Mostraram uma ideia otimista e nova para a época tão conturbada… Como só uma publicidade pode oferecer. O lugar onde o mundo é perfeito e o sonho pode ser alcançado.

Se não valeu a paz espiritual, rendeu uma boa propaganda — e uma extraordinária série.

Don e o sorriso que vai gerar muita discussão ainda.