Made in Brazil — o que a carreira internacional de Anitta significa para a música brasileira?

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A carreira de Anitta sempre foi case de debate no mercado fonográfico brasileiro. Show das Poderosas, lançado há mais de quatro anos, bateu recordes do alto dos seus mais de 130 milhões de views e colocou a cantora, a princípio, como uma potencial artista-de-um-hit-só. Ledo engano. Três álbuns de estúdio, um DVD e duas turnês de sucesso depois, Anitta já se consolidou como a primeira grande diva do pop contemporâneo brasileiro, abrindo um nicho que hoje carrega outros nomes de peso, como Ludmilla e Pabllo Vittar.

Não foi um processo simples. As raízes no funk, que Anitta nunca negou, precisaram ser um pouco maquiadas para possibilitar que sua música obtivesse maior alcance, tanto geograficamente quanto em questão à classe social. O batidão precisou descer para o asfalto e ganhar uma melodia mais pop radio-friendly, para que a carioca enfim fosse firmada como ícone da música nacional e figurasse, por exemplo, na cerimônia de abertura das Olimpíadas — feito de artistas de grande porte, como Spice Girls, Kylie Minogue, Celine Dion e Stevie Wonder.

Sanadas as dúvidas quanto à sustentabilidade de sua carreira musical, não demoraram a surgir questionamentos sobre seu sucesso fora do país. Vai rolar? Será que vinga? Tem chances reais de atingir o mercado fonográfico estadunidense e se tornar a esperada “Shakira brasileira”?

De maneira muito inteligente e interessante de acompanhar, Anitta começou a esticar os braços para fora do Brasil através do mercado latino-americano, com a parceria com o colombiano J. Balvin e o bem-sucedido dueto com Maluma, Sim Ou Não.

A parceria com o também colombiano Maluma já tem mais de 200 mi. de visualizações

O desafio de emplacar um hit em espanhol no Brasil é grande, como a própria Anitta já afirmou em entrevistas. Nem o RBD, que até hoje detém o recorde de artista latinoamericano com o maior número de vendas no mercado brasileiro, conseguiu entrar de fato nas playlists das rádios do país.

Há uma clara resistência do nosso público impedindo que as músicas dos nossos vizinhos de fronteira façam sucesso por aqui, mas Sim ou Não conseguiu marcar presença nos charts surfando numa onda internacional que também trouxe hits como Chantaje e o mais recente Despacito, de Luis Fonsi. Salvo raras exceções, e Anitta conseguiu ser uma delas, para uma música em espanhol emplacar no Brasil, ela precisa, antes de tudo, “pegar” no mercado norte-americano.

E pelo que temos visto até o momento, é para esse público que Anitta parece estar caminhando. O contrato com a agência WME, de artistas como Rihanna e Drake, já trouxe o primeiro fruto: uma modesta participação no single Switch, da rapper Iggy Azalea. Apesar de não tão ter sido tão bem sucedida nas listas de mais ouvidas, a música rendeu uma apresentação bastante comentada na TV americana e foi suficiente para atrair os holofotes da terra do Tio Sam para a brasileira “Anira”.

O ambiente não poderia ser mais propício para o lançamento de Paradinha, sua primeira música inteiramente em espanhol disponível nas plataformas de streaming e de Sua Cara, aguardada parceria entre a Anitta, a badaladíssima Pabllo Vittar e o trio americano Major Lazer, conhecido por emplacar hits e chamar a atenção para quaisquer artistas que participem de suas produções — vide o atual sucesso da dinamarquesa MØ após a explosão de Lean On.

As sementes estão no terreno. Pela primeira vez na história do pop contemporâneo temos a chance real de ver uma cantora brasileira nas rádios top 40 dos Estados Unidos e isso é, no mínimo, digno de aplausos. Antevendo as acusações de sofrer da síndrome-do-vira lata, faço minha defesa: não acredito que vender bem nos mercado americano seja a única métrica de sucesso. O Brasil é dono de um mercado musical sólido e em visível ascensão; fazer sucesso aqui também não é para qualquer um. Contudo, assim como fez tocar funk nas rádios brasileiras, Anitta abre portas ao entrar sorrateiramente no mercado estadunidense.

Os incontáveis vídeos de reação no YouTube não deixam mentir: o mundo está de olho em Anitta e, consequentemente, na música brasileira. Pouco a pouco, nossos hits pop começam a ser notados lá fora. Estamos falando de um trabalho de divulgação de dar inveja em muita estrela internacional. Nossa cantora de Honório Gurgel começa a desbravar um terreno que, em breve, poderá ter espaço para outras divas brasileiras, como a já mencionada Pabllo Vittar, atualmente a Drag Queen com mais visualizações no YouTube inteiro — outra para se ficar de olho.

O processo é lento, arriscado, mas está sendo feito da melhor maneira possível por uma mulher que, contrariando a maioria das primeiras impressões, sabe muito bem conduzir sua carreira. Pode não demorar muito pra que Paradinha — ou um sucessor em português — se torne o novo “Despacito" e conquiste o gosto e o sotaque torto dos nossos colegas americanos.