Mais que lavar, passar e cozinhar: A doméstica como profissão e sua intensa participação na sociedade.

Maria Vicentina Ferreira de Sales, 40 anos, natural de Itapipoca interior do Ceará, teve uma infância comum aos sertanejos nordestinos, trabalhou na roça, casou-se cedo, mas nunca abandonou o sonho de terminar o ensino médio. Foi através do salário como empregada doméstica que ela comprou o material escolar necessário para concluir os estudos:

“Meu pai trabalhava na roça e a partir dos cinco anos a gente ia ajudar ele, plantava, fazia coivara. Geralmente as mulheres ficavam em casa com a mãe, mas como eu sempre fui mais danada que os outros eu o acompanhava. Plantávamos milho, feijão, arroz e na época de colheita todos os 4 irmãos ajudavam, só eu de mulher e três homens”

-Qual a visão que a sociedade tem das empregadas domésticas, você acha que elas são discriminadas?

“Muito! Muito. Se você estiver num grupo de pessoas, num ônibus, em qualquer canto e falar que você trabalha como empregada doméstica, as pessoas te olham… “vixe como empregada doméstica?” Como se isso fosse a pior coisa do mundo! Muitas pessoas me falaram isso, mas eu sempre falo, eu não me envergonho do meu trabalho, é um trabalho honesto e que eu gosto de fazer, eu gosto de ser empregada doméstica, eu gosto de trabalhar com a casa, cuidar das coisas… só não gosto muito de cozinhar (Risos). Mas as pessoas acham que isso é a pior coisa do mundo, tem coisa muito pior e as pessoas não enxergam isso. Acham que ser empregada doméstica é a pior coisa que a pessoa pode ser, somos muito discriminadas”

-Você considera essa discriminação um fato negativo na profissão?

“Não, eu não acho, se você gosta de trabalhar em uma coisa, não importam o que os outro digam, que não gostam, que é ruim. Se for uma coisa honesta, que você acha que é certa, eu não acho que isso seja negativo, pelo contrário, o trabalho só traz coisas positivas, com o salário eu pude ajudar em casa, comprar coisas pros meus filhos, eu voltei a estudar, terminei o terceiro ano, se eu quisesse eu teria feito até o ENEM

É melhor trabalhar como diarista do quê com carteira assinada?

“Muito melhor, ruim é que se você sofrer um acidente ou ficar doente, você não tá ganhando, você tem que pagar o INSS por sua conta. Mas o salário é bem melhor como diarista, eu trabalhava só três dias na semana e ganhava muito mais que trabalhando de carteira assinada todos os dias.”

-Que mensagem você poderia passar para a sociedade sobre a sua profissão?

“Eu falaria para os patrões respeitarem as domésticas e não acharem que elas são uma coisa, uma propriedade deles, para a sociedade em geral eu diria que ser uma empregada doméstica é um trabalho maravilhoso, um serviço como outro qualquer, com um salário como um outro qualquer, e se você for uma empregada doméstica você não precisa se envergonhar da sua profissão. E pras pessoas que acham que uma empregada doméstica é uma coisa e que devem fazer o que bem entender delas eu digo: pare e pense se você gostaria que algum membro da sua família fosse tratado do jeito que você trata a sua empregada, é isso que tenho pra dizer.”


Gilzelene Gomes, doméstica desde adolescência, conquistou o direito da carteira assinada recentemente, e considera isso um marco na sua vida profissional:

“Meu nome é Gilzelene Teixeira Gomes, tenho 37 anos, filha da Dona Joana Lucio Gomes e mãe do Luiz. Trabalho de Doméstica desde meus 14 anos. Há mais de 10 anos só nessa casa que vocês vão ver nas fotos. Aliás, aqui me sinto em casa, bem diferente de algumas casas que já trabalhei, onde eu e nada, era a mesma coisa.”

-Sabemos que em todas as profissões há pontos negativos e positivos, nos diga quais pontos positivos e negativos há na sua profissão?

“Bom, ponto positivo na minha profissão recentemente foi a assinatura da minha carteira. Que me garante os direitos que há muito tempo queria. A lei viu isso, viu que somos trabalhadores também, e que merecemos todos os nossos direitos. Agora, negativo, é em relação a alguns abusos e excesso de serviço que recebemos. Como já disse, graças a Deus, sou muito abençoada por Deus por causa disso, nessa casa que trabalho há 10 anos, sou tratada muito bem, me sinto em casa mesmo. Faço meu serviço, tudo direitinho. Quando comecei, alguns patrões já chegaram a faltar com respeito, as vezes não pagavam o combinado, as vezes também nem pagavam,ficavam colocando defeito no serviço, mas eu fazia tudo direito, mas o que a gente pode fazer né? Eu tinha medo, eles eram superiores.”

-Você Gilzelene, como se identifica na sociedade, pessoal e profissional?

“Eu sou mãe, sou filha, sou uma trabalhadora, agora de carteira assinada, tenho os meus direitos.”

-Como você acha que a sociedade vê sua profissão?

“Agora, nem que eles não queiram (Risos), eles têm que reconhecer que somos uma categoria, alguns ainda não né? Mas isso foi conquista depois de muita luta. Não é só quem trabalha em escritório, hospital, banco, essas coisa assim grande, né? Não querendo desmerecer, jamais! Inclusive, se eu tivesse estudado mais poderia estar lá também. Mas eu tenho orgulho do meu trabalho, antes tinha até vergonha sabe? Mas hoje, Ah... (suspiro) hoje eu sou uma vitoriosa, conquistei minhas coisinhas na base de muito esforço e dedicação e sou muito grata por isso. Mas eu quero muito também mudar de profissão, assim, ganhar mais sabe? Ter mais conforto, aquelas coisas (Risos). Mas como disse, tenho orgulho do que faço, não faço só por fazer, faço com dedicação.”


Universidade Federal do Ceará. Curso de Comunicação Social - Publicidade e propaganda, 2016.1

Sociologia da comunicação, professor Jawdat Abu El Haj.

Equipe: Jessica Sabóia, Jeferson Borges, Scarlet Moon.