Manual de primeiros socorros anti-Bolsonaro

Menos para a reação coletiva imediata, mais para a reconstituição dos nossos corpos fragilizados neste momento avassalador

(Pink Floyd — The Wall)

Um amigo me disse, ainda antes da apuração final, que, se não desse PT nas urnas, ele é quem daria PT. Dito e feito: às 21h lá estava ele se debulhando de vomitar no banheiro de um boteco. Uma amiga, menos de 24 horas depois da confirmação do nosso novo presidente, fumou três maços de cigarro. De filtro vermelho e péssima qualidade. Tenho mais exemplos de amigos e amigas que estão descontando a dor e o medo em escapismos tóxicos. Mas não vem ao caso citá-los. Porém vale dizer que, mesmo nesse gesto reativo de autodestruição, todos falam em resistência, em luta, em se fortalecer. De ir para a rua, de se mobilizar, de agir, de combater. E a partir de agora.

Eu, por outro lado, na intenção de refrear todo esse impulso político exacerbado, externalizado, estou tentando dizer, para cada uma dessas pessoas queridas, que a calma é o melhor primeiro passo a ser dado. Antes e acima de tudo, a calma. Mentalmente desgastados, emocionalmente fragilizados, não seremos resistência nem em política de condomínio. Pois do que adianta querer dispor, imediata e instintivamente, de todas as nossas forças à luta organizada, em coletivo, seja pessoal ou virtualmente, se, por dentro, estamos em frangalhos, senão colapsados?

(Aliás, parte desse mesmo pressuposto uma das principais críticas que faço a alguns amigos/as que se dizem comunistas. Percebo que mal conseguiram identificar as repressões, os traumas, as neuroses internas, mas juram que, se tiverem a oportunidade, serão capazes de derrubar o capitalismo e promover a revolução em direção à abolição das classes sociais.)

As eleições deste ano, do início ao fim, devem ser descritas em superlativos: tensíssimas, agitadíssimas, acaloradíssimas, agressivíssimas etc. etc. E, para os quase 50 milhões que se posicionaram e lutaram contra a candidatura de Bolsonaro, o que nos restou foi o pior: além da derrota, o medo, o pânico do que pode vir a se tornar o Brasil; a completa falta de perspectiva de um futuro seguro.

Mais que isso: além da derrota e suas consequências, também fomos atingidos com outros males antecedentes ao resultado final, que ainda fazem efeito e, se não tomarmos as rédeas, não terão prazo para terminar. A hiperconexão, o excesso de informações, os debates, os choques, as discussões, as brigas, os intermináveis embates ideológicos; as constantes ponderações, a auto exigência de posicionamento, as fissuras, os contratempos, a necessidade quase mórbida de atualização sobre os novos acontecimentos; enfim, todos esses fatores, que extrapolaram os feeds das redes sociais e perturbaram, inclusive, o seio da tradição tediosa e hipócrita dos encontros em família, nos causaram esse rombo interno, essa ferida emocional, essa corrosão mental.

Nossa caricatura geral, para agora, é de uma pessoa que, além de severamente preocupada, também está extremamente ansiosa; já roeu todas as unhas das mãos e não para de conferir o celular de três em três minutos.

Essa miscelânea em ebulição é, afinal, a causa direta do porre alcoólico e do tabagismo compulsivo dos meus amigos. Também da minha quase crise de pânico, depois de passar um dia inteiro com os olhos vidrados na tela do notebook, imerso em leituras densas sobre a atual conjuntura do cenário político e social atuais, e, simultaneamente, refletindo sistêmica e compulsivamente sobre tais leituras.

Por isso volto a dizer: sob estresse, medo e raiva não promoveremos boa política nem em conselho de classe de creche de bairro. Para a massa de dezenas de milhões que, até agora, fez oposição à candidatura de Bolsonaro, meu primeiro conselho é: antes de querermos tomar o mundo externo à força, vamos começar pelo íntimo. Começar pelo cuidado com o nosso corpo e com a nossa casa. Antes de resistirmos nas ruas, devemos restituir nossos corpos. Antes de nos juntar em coletivos, precisamos juntar os cacos internos. A resistência deve ser, antes e acima de tudo, bioquímica, neuronal.


Não sou chegado a recomendações e muito menos listas, mas vou abrir as exceções pois acredito que, neste momento, o que tenho a dizer pode ajudar uma ou outra pessoa.

  • Manter o lar: parece infame, mas penso mesmo que começar com uma simples e rotineira faxina em casa é o primeiro importante passo a ser dado para fortificarmos nossos corpos fragilizados. Organizar o guarda-roupa, tirar a poeira dos móveis, ajeitar os objetos nas prateleiras. Num momento tão crítico, complexo e de proporções globais, talvez o conselho soe esdrúxulo, esquisito, vindo de alguém que sofre de TOC. Mas admito que sou desses que crê que uma pessoa que não é capaz de bem manter o próprio lar quase nada pode bem manter da porta da sua casa para fora. Portanto, o cuidado e a boa manutenção da própria casa já um primeiro sinal de força e resistência. Funcionou comigo: na segunda-feira, 29, comecei o dia levantando a poeira de casa e, no fim da tarde, com tudo limpo e organizado, recebi a recompensa de bem-estar em doses de dopamina. Ali eu já era o avesso do moribundo e angustiado da noite de domingo.
  • Detox digital: Comentei que, para a maioria, essas eleições instigaram ainda mais o uso desmedido das redes sociais. A ponto de chegarmos à exaustão. Infelizmente, muitos não são capazes de perceber. Mas faça o teste: conte quantas vezes por dia você consulta o celular. Mais de 50 vezes? Acha normal? Aliás, quantas horas do dia você está perdendo encalhado nos feeds do Facebook, entre memes, vídeos e textões, e conversas frenéticas no Whatsapp, entre mensagens de texto, mais vídeos e intermináveis áudios? Em poucas palavras, controlar e, aos poucos, nos afastar das redes sociais é ganhar tempo para si mesmo e, consequentemente, resgatar a saúde mental. Uma mente com bem menos ruídos e informações pensará muito melhor.
  • Prevenir hábitos tóxicos: como, por exemplo, se afundar no álcool e/ou fumar excessivamente. Quem sou eu para sugerir o que você bem ou mal deve fazer da sua vida? Absolutamente ninguém; e me dá vergonha de agora estar fazendo o papel de guru de costumes — ainda mais careta. Ainda assim, acho que devemos evitar todo e qualquer tipo de escapismo tóxico. Ninguém vai conseguir se reerguer em coragem enchendo a cara e se drogando. Você acha que o governo do qual nós devemos fazer ferrenha oposição prefere nos ver tresloucados e deteriorados ou sãos, conscientes e fortes?

Por último, meu apelo a quatro atividades que a mim são caríssimas, raríssimas, fundamentais: filosofia, poesia, atividades físicas e meditação. Trabalhar todo o corpo — o intelectual e o físico — no desenvolvimento saudável que leva ao caminho da ampliação dos canais de vida. Clarificar as ideias, enriquecer e delirar a linguagem, movimentar o corpo, beber muita água e reaprender a respirar.

Quando falo em filosofia, falo em convergir novas ideias, aprofundar pensamentos qualificados, beber da fonte das grandes reflexões. Redescobrir e se inspirar, quem sabe, num importante filósofo da história. Eu, por exemplo, vivo uma paixão por Epicuro, que penso ser extremamente pertinente aos nossos dias. Foi um filósofo da Grécia antiga que inventou sua própria escola, o epicurismo. Em síntese, trata-se de um sistema filosófico que preza por uma ética dos prazeres, moderada e prudente, e que tem a intenção de nos libertar do medo e nos fazer atingir um estado de tranquilidade da alma. (Marx, aliás, era PhD em Epicuro.)

Ligado também no contemporâneo, estou devorando o terceiro livro do fenômeno Yuval Noah Harari, que, há poucos anos, emplacou os estrondosos e excelentes “Sapiens” e “Homo Deus”. No novo livro, “21 lições para o século 21”, o autor volta a debater sobre as rupturas tecnológicas e todos as consequências que elas podem causar no mundo, desde uma distópica, mas possível ditadura digital ao efetivo e iminente fenômeno da automação em massa do mercado de trabalho. Reflexões importantes das quais a esquerda, principalmente, precisa adentrar.


(Arte: Eva Uviedo)

Enfim, se apropriar do lazer gratuito, da recreação cotidiana, pois, em tempos sombrios, aumenta-se, sempre, a necessidade de alegrar-se. Por isso a poesia. E poesia também quer dizer música e quer dizer dança. Todas essas coisas, aconteça o que acontecer, nos afastarão do medo e do ressentimento, encherão nossos corpos de sustança, saúde, vitalidade e bem-estar.

Paciência e resiliência, por fim, serão fundamentais para estes próximos anos que, de tão obscuros, ainda não temos ideia se serão apenas ruins ou terríveis. Independentemente do que esteja por vir, devemos nos manter saudáveis e alegres, pois são esses os requisitos cruciais para quem pretende lutar e resistir.

Portanto, antes da reação imediata e do ímpeto externo, sugiro o recolhimento, o mergulho para dentro de si mesmo, a resiliência interna. Nem que por alguns poucos dias.

Cessar um pouco o burburinho infernal das redes sociais e tomar mais tempo para atividades individuais. Respirar com calma e qualidade; refletir com calma e qualidade; ter controle do corpo e sensatez. Aos poucos, criar núcleos de resistência nas nossas próprias casas, ao lado de pessoas que a gente ama e que estão alinhadas nas intenções. E, assim, passo a passo, ir alavancando, mostrando a cara, ganhando espaço e criando novos contornos políticos.

Quebrados e adoecidos física, psicológica e emocionalmente, volto a dizer: não resistiremos nem à primeira reviravolta do adversário. Por isso a resistência começa pelo corpo.

No mais, importante também é lembrar que, apesar de todos os pesadíssimos apesares, todos os desafios que serão postos à nossa frente, a imanência da vida, absolutamente alheia às ideias, tacitamente liberta da política humana, demasiada humana, continuará em seus devires. O sol continuará sendo o sol. O rio continuará a desaguar em alguma paisagem de abundante natureza deste nosso Brasil. O cachorro de rua ainda virá brincar e nos pedir carinho. Entre tantas outras coisas que, apesar e acima de tudo, simplesmente continuarão a ser. Que também nos debrucemos sobre os devires.