Manual do Afeto

Afeto

É o tipo de coisa que não nascemos sabendo, nem como dar nem como receber;

E cada um aprende à sua maneira. Esse é, talvez, o principal diferencial em cada pessoa que nos propomos a ter alguma relação ao longo da vida, o grau de afeto compartilhado.

Se você encontra alguém afetuoso demais, e se você é uma ilha, rapidamente sairá correndo com medo dessa “melação” toda. O contrário pode ser igualmente verdadeiro.

Como aprendemos o afeto? Se nossos pais não se beijaram durante nossa infância, se não se tocavam e não se mostravam apaixonados, isso pode nos levar a ser menos afetuosos? De que forma o relacionamento deles interfere nos relacionamentos que teremos?

O afeto pode ser aprendido depois de velhos? Tenho alguns amigos que se beijam, abraçam e fazem cócegas assim que se veem. Acho bizarro, num bom sentido. Não sei ser assim. Anseio pelo toque, mas dificilmente consigo ser aquele que começa. Quantos amores podem ter morrido porque o meu afeto não foi o suficiente?

Tinha um colega da faculdade que era bastante afetuoso, e por causa disso todos sempre achavam que ele estava interessado sexualmente. “Fulano tá super afim de você”, e eu acreditava, assim como os outros, que ele queria alguma coisa de nós. Mas, aparentemente, era só a forma dele de mostrar que simpatizava.

Afeto parece, assim, uma língua. Bem específica, de cada um. Já pararam para pensar nisso? Quantos relacionamentos nós nos metemos sem falar a mesma língua. Ou será que não, isso é tudo besteira, o afeto é universal? 
Gosto da última teoria, até porque irremediavelmente somos diferentes uns dos outros e aprendemos uns com os outros todos os dias.

Minha amiga fotógrafa me dá o melhor abraço do mundo, e olha profundamente nos meus olhos sempre que fala comigo. Ela toca minhas bochechas quando quer dizer algo especial sobre mim, e essa forma de afeto me encanta. Agora sempre toco nas bochechas de pessoas bem próximas quando quero mostrar que as amo, adotei este modo. O afeto, podemos dizer assim, contagia, ou se aprende.

Uma outra amiga me enchia de comida toda vez que ia à casa dela. Humilde, mas boa cozinheira, não se preocupava em dar tudo que podia para as visitas. Coma, coma, coma, ela dizia. No fim, parecia saciada, mesmo que tivesse comido menos. Seu sorriso de apreciação por nossas barrigas cheias com sua comida deliciosa parecia satisfaze-la de maneira ímpar.

Era a forma como nos acariciava. Quando foi em casa, foi a minha vez. Preparei um belo café da tarde e ela se deliciou com geleias, pães e bolos. Já tinha esse prazer em ver pessoas felizes, comendo e saciadas, mas com ela foi ainda mais especial. Fiz o café no capricho, foi minha forma de dizer que a amava naquele momento.

Tenho aprendido que errei com algumas pessoas sendo essa ilha, sempre esperando o contato alheio. Com medo de soar incômodo, inconveniente. Apesar disso, com todo esse afeto que tenho recebido pude perceber que até o invasivo toque nas bochechas pode ser a mais pura demonstração de carinho se for o momento certo. E pode partir de mim.

Um eu te amo sincero não precisa ser a prova de amor final, se vier à consciência pode ser a verdade em determinado momento que nunca mais voltará. O afeto nos custa tão pouco, e nos devolve tanto. Só precisamos aprender um pouco de seus código mutáveis, únicos e gostosos.