Mapeamento de Inservíveis

Quando o fascismo começa a incomodar quem o promove

Rodrigo Constantino — Ex-Veja, Ex-Globo, Ex-Idiota Útil?

Ao que tudo indica o mainstream está, aos poucos, fazendo uma limpeza das personalidades mais fascistas que serviram como soldados na recomposição ideológica que promove há alguns anos. Mesmo antes da pá de cal jogada através da admissibilidade do processo de Impeachment no Senado Federal, pareceu ter chegada a hora de assentarem-se como ‘liberais e democráticos’ novamente, mesmo que ainda se tente forçar o afastamento definitivo no STF para não se ter surpresas desagradáveis.

Outrora bons soldados a serviço da desconstrução quase que gramschiana do pensamento de esquerda no país, agora, muito devido aos delírios e exageros propagados, são defenestrados sem pudor algum, até porque, numa “situação normal”, fica explícito o bizarro que é dar voz a gente com clara esquizofrenia ideológica e desequilíbrio, não só emocional, como intelectual. Constantino é apenas um dos casos, embora possamos dizer emblemático.

O capitalismo encontrou na Democracia Liberal a mais eficiente forma política de consolidação do fetiche que lhe é meio, pois dar voz a uma massa eleitoral subsumida por uma estética inebriante que lhe tira a consciência de sua real condição e a seduz com o poder do consumo, é compensar ideologicamente o roubo sistemático da liberdade em prol dos interesses privados que movem o sistema. Nenhum outro sistema político foi tão eficiente ao capitalismo como a Democracia Liberal; em que pese o fato de que toda liberdade propagada só tem como alternativa se sujeitar de bom grado a toda determinação do sistema, desde cada um dos três poderes institucionais ao meio pelo qual se consolida nosso sistema representativo.

Todas as vezes que, historicamente, o capitalismo dá sinais de esgotamento e suas contradições se elevam a um patamar superior à riqueza que pode gerar, as pessoas começam a ter consciência da exploração e do quanto se tornaram ‘coisas’ a serviço de um mecanismo cego de exploração contínua e crescente. Aos poucos isso pode começar a ameaçar os ganhos que acumulam riqueza concentrada a uns poucos, e antes de qualquer ameaça efetiva, o sistema lança mão desses ‘soldados’ difamadores para conter os ânimos e arregimentar pelo medo as camadas médias da população contra um inimigo comum que, por sua vez, começa a ter razões para procurar mobilização para propor uma superação efetiva do sistema. A estratégia é simples: cria-se a imagem de injustiçado para si mesmo e sua classe e fabrica uma série de distorções que colocam o ‘outro’, ou aquele a que se quer combater, como culpado pela injustiça que sofremos.

O ódio e a difamação para a eleição de um culpado por todas as mazelas que o próprio sistema cria, faz emergir socialmente uma mentalidade que podemos, sem medo de errar, chamar de protofascista. O protofascista, quando ganha voz social em geral, conduz e anima uma revolta aristocrática feita por não-aristocratas. Por mais paradoxal que seja é assim que “o fascismo pôde surgir às camadas sociais intermédias como uma esperança contra a ameaça iminente de proletarização” (BERNARDO, p.15).

Movimentos como Brasil Livre, Revoltados on Line, Vem Pra Rua e congêneres, embora muitos se intitulem liberais e adorem citar Mises, possuem toda uma estratégia fascista reconhecível para quem não quer viver no conto de fadas da demonização compulsória da esquerda, pois “os não-aristocratas que conduziram revoluções aristocráticas destinadas a salvar da proletarização as camadas intermédias converteram-se, no dia seguinte, numa nova elite presidindo a uma massa de neoproletários.” (BERNARDO, p.16).

Algumas vezes esse mecanismo sai do controle e é possível surgir de forma inusitada algum líder carismático que arregimenta e catalisa as insatisfações e medos, alçando regimes totalitários de direita. No Brasil, acertadamente, antes que um Bolsonaro pudesse ser transformado nesse líder, a direita trata de usar o judiciário para abafamentos e vazamentos seletivos, dar continuidade à demonização midiática do inimigo comum (cujo terreno fora preparado por esses soldados com ajuda irresponsável do próprio perseguido) e empurra uma agenda política que coloque tudo nos trilhos para a continuidade dos ganhos de quem realmente comanda todo o sistema: o Grande Capital.

Na etapa atual, ao que tudo indica, mais do que o silenciamento do inimigo através das demonizações massivas e direcionadas, foi preciso também criar imagens poderosas e de apelo público, como por exemplo, matérias inúteis em revistas inúteis, mas de grande circulação, exaltando as qualidades domésticas da esposa do próximo grande líder do país. Mas também foi preciso começar a silenciar aqueles seres bizarros tão úteis no início, mas que agora começam a se tornar um estorvo para a imagem que a direita precisa passar. Constantino é um desses. Com um discurso delirante em que, não raro, é possível imaginá-lo com um taco de baseball debaixo da cama verificando se há algum petista ali escondido, suas mentiras, falcatruas, desonestidade intelectual e excentricidades escatológicas contra o comunismo já não cabem tanto em um ambiente ‘normalizado’ neoliberal e democrático bem ao gosto do mainstream. Resultado? Saca-o fora. Assim foi na Veja e assim foi no O Globo. Está caindo, tanto quanto o Lobão (depois daquele interesse inicial em sua verborragia esquizofrênica) no ostracismo.

Obviamente que para esses tipos, defensores irracionais de um sistema que jamais os viram para além de idiotas úteis, a culpa sempre será dos inimigos imaginários que eles próprios criaram. Inauguraram o estágio em que soldados psicopatas como Constantino mais atrapalham do que ajudam.

Mas não pensem que criar um monstro para utilizá-lo e depois soltá-lo por aí não carregue o risco da criatura voltar-se contra o criador. Dr. Victor Frankenstein que o diga. Até porque não está em jogo a personalidade da criatura, mas sobretudo, a mentalidade que ela cria no senso comum. A mentalidade fascista instaurada cria uma ojeriza à contrariedade, ao diferente, a tudo o que coloque em questão as verdades que alimentam o medo e, sobretudo, o ódio como força motriz dessas pessoas.

Hoje o próprio sistema retira os meios pelos quais Constantinos, Lobões, Nandos Moura, Olavos de Carvalho e outros terroristas ideológicos tinham para propagar suas ideias de ódio e exclusão. Mas o estrago está feito. A nova direita miseana adora usar seus jargões e frases de efeito que distorcem a realidade e escamoteiam o problema concreto que transforma nossa democracia em fake. Esses monstros estão na internet e conseguiram angariar um nicho de zumbis prontos a serem comandados cheios de ódio e ressentimento. Agora o mainstream está direcionado a construir imagens positivas do novo governo e abafar os efeitos diretos de sua ascensão ao poder depois do golpe: o abafamento das investigações e a manutenção de um poder que atenda aos interesses daqueles que financiaram por trás o golpe: o capital estrangeiro e as elites do Brasil.

Para quem pensa que agora é só festa liberal, aguarde até 2.018 a ascensão das intenções de votos em Jair Bolsonaro. Depois nos falamos.

Referências

Bernardo, João. Labirintos do Fascismo. 1998. Tese (Doutorado em Educação) — UNICAMP, Campinas, SP.


Gilberto Miranda Junior, além de colaborar para a Revista Trendr, Participa do Círculo de Polinização do RAIZ Movimento Cidadanista, é editor do Zine Filosofando na Penumbra e Revista Krinos.

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