MARIELLE x MANGUEIRA? Será?

Uma análise do samba enredo nos revela

foto via EL PAÍS.

Manchetes de jornais afirmam: Marielle estava presente também neste carnaval! Tanto na avenida quanto nos blocos de rua, e isso representa uma resistência viva e consciente, mesmo durante uma festa que em teoria, deveria significar o esquecimento das feridas que carregamos durante o ano.

Além da campeã Mangueira, que teve Monica Benicio (viúva de Marielle) desfilando na avenida, a Unidos de Vila Isabel, que teve presente a irmã de Marielle (Anielle Silva) e a Vai Vai (SP) também prestaram homenagens a vereadora, que hoje se tornou um símbolo da resistência em nosso país.

foto via EL PAÍS.

O EL País, um dos principais meios de comunicação a divulgar a efervescência da resistência durante as eleições presidenciais de 2018, e também a Carta Capital, uma importante fonte de reflexões e notícias políticas, noticiaram a vitória da Mangueira, as homenagens à Marielle e a temática escolhida, com louvor.

Também escrevi um texto aqui para a New Order, falando do enredo da Mangueira este ano. Realmente me emocionei com o tema.

A TRETA

Poucos dias após o término dos tradicionais desfiles do Carnaval 2019, e a grande campeã do Rio, Estação Primeira Mangueira, já possui destaque polêmico na mídia.

Confesso que ainda não estava ciente do problema ocorrido envolvendo a família da Marielle. Tomei ciência a partir deste post, também publicado aqui na New Order:

Concordo com o fato de que muito do que se tem construído com luta dentro dos movimentos aos quais a própria Marielle pertencia, tem sido banalizado pela mídia de diferentes formas, tentando descredibilizar a luta para que caia em esquecimento justamente por estar na boca de quem não tem empatia com as causas.

Neste caso, recomendo a leitura deste artigo:

No entanto, não acredito que tenha sido este o intuito da Mangueira (ponto de vista pessoal aqui), e vou explicar o porquê.

A HISTÓRIA É UM FATO. E contra fatos…

Primeiramente, o samba enredo com o nome da Marielle foi escrito e divulgado ainda em 2018, e da data de postagem até aqui são quase 3 meses. O tempo de pesquisa para o tema escolhido, provavelmente demandou muito mais tempo e atenção.

Captura de tela YouTube, Video Oficial Mangueira 2019

O tema do samba enredo foi especificamente falando da história oculta nos livros didáticos, a qual carrega o sangue de milhares de inocentes citados ainda na música: mulheres, tamoios (indígenas) e mulatos. Ou seja, a origem real do povo brasileiro.

Marielle se tornou parte dessa história.

Seu nome é citado ao lado de Luísa Mahin (guerreira na época da escravatura), Malês (principal revolta de negros escravizados em Salvador), e Dandara, uma das principais guerreiras da resistência na época da escravatura (e esposa de Zumbi). O que chama a atenção para o fato que o nome de Marielle não é apenas status, mas está no patamar de importância de figuras como Mandela, (de quem é a frase que inspirou o “EU SOU PORQUE NÓS SOMOS”, da campanha de Marielle), e de Martin Luther King, que também foi assassinado, pouco antes de ir para um protesto.

“Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”

Também o texto que citei em meu artigo, que explica a concepção do enredo História de Ninar Para Gente Grande (disponível neste link aqui), evidencia que houve um grande trabalho de pesquisa da nossa história, e que o enredo não girou apenas em torno de um caso isolado para se apropriar dele.

O infeliz fato de que a filha da Mari não foi chamada para o desfile (repito, erro infeliz da Mangueira) não pode, e não deve desvalorizar o trabalho de pesquisa e divulgação histórica, que tanto demorou para ser evidenciada em desfiles de forma tão aberta e popular em um momento tão necessário.

Lembremos do período das eleições em que diversos grupos, tanto no esporte quanto nas artes se posicionaram contra as atrocidades ditas e propostas pelo governo vigente. No Carnaval não seria diferente. O samba também é ritmo de periferia, que por sua vez é resistência. Ora, porque o Carnaval não seria?

Grande abraço, e força na Luta!