Ou como uma maior flexibilidade sexual e de papéis sociais atingem a todos nós

Imagem: Pixabay.

Dois amigos que fazem declarações de amor e amizade nas redes sociais podem ser considerados gays? E aqueles que se abraçam e beijam tanto que poderiam muito bem ser considerados mais que amigos? E quanto a amigos, homens, que fazem sexo um com o outro? São todos gays?

Situações como essas despontam cada vez mais em nossas rotinas, seja no meio virtual ou físico. Nunca demora muito para que cheguem também as pessoas para darem palpites sobre o que aquilo representaria. Para alguns, não seria nada demais e levam numa boa. Outros consideram esses “novos homens”, simploriamente, como gays enrustidos.

Foco aqui em homens porque em uma sociedade machista como a nossa, uma situação que envolva duas amigas fazendo o mesmo é vista como aceitável e até mesmo desejável por grande maioria dos homens. Quando se refere a dois amigos fazendo o mesmo, no entanto, esses mesmos homens olham com horror para a situação.

No meio disso tudo, cada caso acaba apresentando suas especificidades, mas é sempre importante ficarmos de olhos em alguns pontos comuns. Um deles é que cada dia mais vemos as fixas estruturas de sexualidade e do que é “ser homem” e “ser mulher” ruírem aos poucos — apesar de todo o tradicionalismo que ainda há por ai.

Hoje, vemos que o conservadorismo agoniza ao ver situações como essas. Para seus defensores, aquelas antigas estruturas deveriam ser imutáveis. Qualquer abalo pode representar um completo caos para o sistema como um todo. Logo, o correto e normal seria os homens não expressarem suas emoções exacerbadamente e manterem uma vida sexual num modelo estritamente “heterossexual”, sendo sempre os machões em qualquer situação que estejam. Para eles, essas rachaduras nos estereótipos de como um homem deveria ser são um grande tormento.

A chamada “broderagem” vem justamente nesse momento no qual essas fossilizadas ideias de “ser homem” dão lugar, aos poucos, a identidades com maiores aberturas. Isso é importante por dar mais liberdade para que as pessoas façam o que sempre quiserem, sem mais se preocupar se aquela atitude ou situação irá fazê-lo ser rotulado como “gay” ou não.

Vendo a figura de muitos avôs, por exemplo, falar para o filho que o amava ou mesmo chorar na frente das mulheres da casa era algo inimaginável. Sinal de fraqueza ou de sentimentalismo excessivo, visto por alguns naquela época (e ainda hoje) como “coisa de mulher”. Muita coisa permanece a mesma, mas podemos dizer que grande parte dos pais de hoje tem uma visão diferente sobre todas essas questões.

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Ao se quebrarem essas barreiras, os homens passam a fazer coisas que deveriam sempre ter sido consideradas normais mas não eram aceitáveis por vivermos em uma sociedade extremamente machista e patriarcalista, que preza sempre pela imagem do “homem da casa” e do “macho alfa”.

Hoje, portanto, a tal broderagem e a flexibilização dos papéis sociais possibilitam que os homens façam coisas consideradas ainda tabus, mas sem se cobrarem e culparem tanto como antigamente. Seja isso a expressão de afetos pelas pessoas próximas a ele, familiares e amigos, seja também relacionado a questões afetivas e sexuais.

Torna-se mais fácil para esse homem, por exemplo, beijar um garoto para apenas experimentar e ver se é algo que gosta. Antes, isso já o tornaria gay para a vida toda. Hoje, porém, é algo que ocorre com maior naturalidade entre uma grande parte da população — principalmente, a mais jovem — , ainda que tenhamos sempre pessoas para nos vigiar e julgar.

No campo sexual, o mesmo se reproduz. Homens experimentando relações com outros homens para saberem como é, mas não se restringindo a isso. Homens também se dando mais liberdade na cama com suas próprias namoradas e esposas. Experimentando coisas e fetiches que antes não eram permitidos porque quebravam a autoridade do homem e a submissão das mulheres nesses momentos.

Ainda hoje, no entanto, a tal broderagem é feita sob determinados limites. Logo, pode ser cada vez mais difundido dois amigos praticarem sexo oral, mas muito raro e difícil chegarem ao sexo anal, visto ainda hoje como algo “muito gay”. Até mesmo no meio LGBT, os homossexuais passivos sofrem discriminação dos seus pares ativos, devido a suas preferências.

Um problema nessa situação toda também é o que pode estar por trás da justificativa da broderagem. Seria isso mesmo uma maior aceitação das práticas possíveis ou um medo de assumir uma orientação sexual que não a heteronormativa?

Que fique claro, no entanto, que um menino beijar outro uma vez não o faz gay, nem mesmo se chegarem ao nível sexual. Mas sentir atração recorrente por homens, por exemplo, pode mostrar que sim, você gosta muito de meninos ainda que não se identifique como homo ou bisexual.

É sempre aquela questão dos rótulos — que, felizmente, se multiplam todos os dias. Seriam eles realmente necessários? Enquanto não somos aceitos e respeitados, se assumir gay e colocar a cara a tapa é antes de mais nada um ato político. Em um mundo perfeito, onde sua sexualidade não é levada em consideração na hora de você buscar um emprego ou sair na rua, a importância dos rótulos talvez caiam.

E ai, no meio disso tudo, vem a broderagem. Uma maior abertura dos homens heterossexuais para as coisas antes consideradas proibidos, mas ao mesmo tempo uma suposta saída para não serem considerados “gays”, em uma sociedade onde ainda somos mal vistos.

Um avanço ou camuflagem? Um passo a mais para uma sociedade menos rígida ou um passo a mais para uma sociedade mais disfarçadamente preconceituosa?

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Vitor Garcia de Oliveira

Written by

​Internacionalista aposentado, aprendiz de jornalista, pisciano e LGBTQ+. Escreve mensalmente na Trendr. Email: vitorgarciaoliveira@gmail.com

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