Precisamos conversar sobre masculinidades e ressignificar o que é ser homem

Marcos Macedo
Jun 13 · 8 min read

Até então pensava que já era homem… aparentemente eu estava enganado.

A regra é que não importa se o seu sexo é masculino, para ser homem você precisa provar que você é sim um homem de verdade, sempre e até o fim dos seus dias. Essa construção social do que significa ser homem, que diz que apenas ser homem não é o suficiente, mas que ao invés disso, diz que é necessário que você apresente um comportamento específico, afeta muito nossa relação com nós mesmos e com outras pessoas.

Essa noção do que significa ser homem é levada tanto ao extremo que aposto que se você mostrar esse artigo para algum homem mais velho, é muito provável que ele não leia metade e diga que isso é besteira, ou que leia tudo e diga: tá mas e eu com isso?

Não é coisa de homem falar sobre o que significa ser homem. Irônico, né?

Um dos problemas da masculinidade tóxica é como somos ensinados a reprimir nossos sentimentos desde muito cedo. Isso fecha a possibilidade de diálogo e dificulta o processo de reconhecer a masculinidade que conhecemos como algo ruim. Não podemos chorar, não podemos falar sobre como estamos nos sentindo e não podemos apresentar de forma alguma qualquer comportamento que é majoritariamente apresentado por meninas. É esperado desde cedo que sigamos os passos necessários para sermos um “homem de verdade”. Se não o fazemos, somos repreendidos imediatamente.

Photo by Kat J on Unsplash

Seja homem! Vira homem!

A mensagem que fica implícita é que falar ou fazer qualquer uma dessas coisas, nos trará punições sejam elas verbais ou até mesmo físicas. A consequência disso é que nós homens simplesmente deixamos com o tempo de abordar determinados assuntos ou de agir de determinada maneira porque fomos ensinados que certas coisas simplesmente não devem ser feitas por homens. Um bom exemplo disso é a questão de homem não chorar. Todo ser humano chora, mas você homem não pode. Conversar com os seus amigos sobre essas questões pode não ser uma boa opção, já que eles muito provavelmente viveram o mesmo que você e irão te repreender (ou zoar) caso apresente esses comportamentos que fujam do senso comum do que é ser homem. Não leva muito tempo para perceber que de certa forma, você está sozinho nesse aspecto. O que nos leva para outro problema: exemplos de masculinidade.

Nos ensinaram o que significa não ser homem repetidas vezes… Mas afinal, o que significa ser homem?

Somos ensinados o que significa ser homem, seja por uma figura masculina próxima (não necessariamente pai, tio, avô…) de nós ou pela internet através de referências masculinas que vemos com mais frequência.

Seja essa figura próxima ou não, na maioria dos casos acaba sendo algo passado para nós homens não por palavras, mas por ações e exemplos. Artistas que objetificam mulheres em seus clipes, atores/diretores de filmes pornográficos que naturalizam cenas de violência em diversas cenas, aquele amigo que trata mulheres como lixo, mas sempre está pegando “as mais gostosas”, os blogs e canais no Youtube que juram de pé junto que vão te ensinar a ser um “homem de verdade” ou um “macho alfa”, para que você conquiste tudo e tenha as mulheres que sempre desejou. Esses são alguns dos principais exemplos de masculinidades que temos. São principais não porque são importantes (longe disso), mas porque são os modelos de masculinidade que vemos com mais frequência e infelizmente são os modelos menos saudáveis e mais tóxicos. Aprendemos que é muito importante “ter pegada”, e isso é uma das coisas que não podemos sair por aí perguntando, né? Onde vamos aprender a ter a famosa “pegada” considerando que ninguém sai falando sobre isso no meio de suas conversas por aí?

errr… pornô?!

Aos poucos, se torna mais visível como as referências masculinas ensinam (mesmo que indiretamente) sobre como devemos nos relacionar com mulheres e infelizmente muitos não percebem como essa norma é errada em vários aspectos, sabe? Às vezes a gente se questiona e questiona outros sobre essas atitudes e posicionamentos duvidosos e quando isso acontece é quase certo que algum dos seus amigos vai dizer: “Cara, elas gostam assim!”

Isso vira justificativa para tudo. Independente do que seja, o motivo final para nós homens agirmos de determinada maneira (muitas vezes negativa) é porque “as mulheres gostam de homens assim”. Como se a única coisa que devemos almejar como homens fosse conquistar e “pegar” o maior número de mulheres possível… (?)

Talvez você leia isso e reconheça certa distância dessa realidade. Fico contente por você, mas fora da nossa bolha social isso é muito mais presente do que imaginamos.

Uma das consequências de perder o contato com esse lado humano e sentimental que todos temos (não apenas mulheres, ok?) é que torna mais fácil a objetificação de outras pessoas, na maioria dos casos, mulheres. Não se estar confortável para sentir e expressar esses sentimentos, abre espaço para a falta de empatia. Agora pensa na falta de empatia que foi indiretamente cultivada, somada com a objetificação das mulheres promovida pela sociedade, coloca a objetificação das mulheres pela indústria pornográfica (que por algum tempo foi sua professora para que você aprendesse a ter “pegada”) e pense em quantos homens cresceram ouvindo que eles devem ser respeitados, mesmo que signifique conquistar esse “respeito” através de agressão física.

Ô meu Deus do céu, corre berg! :(

Há 536 casos (de violência contra a mulher) por hora no Brasil e quase a mesma proporção de mulheres que dizem ter sido vítima de algum tipo de violência sexual. O número de mulheres que sofreram espancamento é assustador (1,6 milhão). Todos esses dados remetem à violência doméstica: 76,4% das mulheres conheciam o autor da violência, a maior parte aconteceu dentro de casa. — Samira Bueno, diretora-executiva da ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) para BBC News Brasil.

A masculinidade tóxica está acabando com a vida de mulheres todos os dias, literalmente. A masculinidade tóxica está acabando com nós homens, por nos limitar e nos maltratar psicologicamente (e até fisicamente) de tantas formas. Se isso não diz que a gente precisa rever o que significa ser homem eu sinceramente não sei o que vai nos indicar que precisamos mudar.

Demonstrar sentimentos, ser vulnerável e chorar não são características femininas. São características humanas. Nós estamos tornando a vida de milhares de mulheres um inferno, por não se sentirem seguras no ônibus, no metrô, no serviço e nem mesmo dentro de casa. Promover essa objetificação e essa violência NÃO SIGNIFICA SER HOMEM!

Várias pesquisas sociológicas demonstram que os meninos e os homens são socialmente recompensados por serem fisicamente fortes e dominantes, e socialmente ridicularizados se demonstram fragilidade ou submissão— Jocelyn Viterna, professora de Harvard, à BBC Mundo.

Meninos e homens são socialmente recompensados por serem fisicamente fortes e dominantes. Leia esse trecho com a devida atenção. Há cada vez mais pessoas que reconhecem o tamanho desse problema, mas a maior parte das pessoas sequer tem conhecimento de que isso é um problema. Nós (sociedade) achamos um absurdo mulheres lutarem pelos seus direitos ou LGBTs lutarem para poderem ser felizes com seus parceiros, mas recompensamos homens que propagam essa masculinidade abusiva e tóxica. Esses dados mostram que sequer estamos chamando a atenção quando vemos comportamentos que se enquadram dentro dessas circunstâncias de toxicidade. Precisamos caminhar muito enquanto sociedade neste aspecto.

Sabemos que tudo isso está errado ou que no mínimo pode melhorar muito. Mas… como proceder?

Não dá pra sair por aí apontando o dedo na cara de todos os homens que encontrarmos e gritar

SEU MACHO ESCROTO AAAAAAAAAAAAAAAAAA

Até porque “homem de verdade” não leva desaforo para casa e resolve os problemas na agressão mesmo, então muito provavelmente tomaríamos umas porradas por isso. rindo de nervoso

Tu já leu isso, mas vamos lá.

Antes de qualquer coisa, me sinto na obrigação de pedir para você não subestimar o impacto positivo que essa mudança pode causar. A partir do momento que você entender com mais profundidade o que é a masculinidade tóxica, como ela impacta os mais diversos âmbitos da sua vida e da vida de outras pessoas e for apresentado para outras possibilidades de masculinidade, tudo muda.

Você sabendo essas coisas, pode começar a trabalhar para melhorar nos aspectos que você deve mudar e com isso, introduzir aos poucos esse debate aos seus amigos e familiares através da sua perspectiva. Você sendo homem possui o privilégio de ser ouvido por outros homens, use isso. Imagina que bacana ter uma conversa de homem para homem para ajudar outro cara a entender que nós precisamos melhorar como homens? E aí esse cara faz o mesmo que você, e outro faz por influência desse cara, uma coisa levaria à outra e teoricamente as coisas iriam melhorar aos poucos. Estou sendo otimista, mas esse é um cenário possível, alcançável. Logo, devemos buscá-lo. Nós temos o poder e a influência para isso, basta agir.

As mulheres presentes na sua vida podem ser beneficiadas por enxergarem em você um exemplo saudável de masculinidade e com isso, passar a entender que não precisam e não irão se submeter a relacionamentos abusivos, namorados que não as tratam com respeito ou “amigos” que na primeira oportunidade fariam o possível para levar ela pra cama (para não dizer outra coisa). Mulheres são seres humanos como nós, merecem respeito como nós, merecem ser ouvidas e tratadas bem como nós. Uma boa conduta para com as mulheres não pode continuar sendo motivada apenas para conseguir uns beijos, uma transa. Ninguém gosta de se sentir usado assim.

Uma vez que nós homens entendemos que somos livres para sermos quem somos, para sentirmos, para chorarmos… as coisas melhoram demais. Você vai poder ser mais autêntico com você mesmo e por consequência disso, ser mais autêntico com aqueles ao seu redor.

Seja vulnerável, cara. Seja autêntico. Seja real. Seja humano. Seja!

Quando você tiver morto e enterrado pouco vai importar toda essa proteção e preocupação com a sua intocável masculinidade de homem de verdade. Acorda!

Além do mais, quem não gosta de conversar com uma pessoa de verdade? Um homem que sente, que chora, que abraça, que demonstra o que sente, que se permite viver. Que sonho, né, meninas? hahaha

Homens, está na hora de assumirmos nossa responsabilidade e começarmos a escrever um futuro diferente, melhor. Como tudo na vida, é um processo e não vai acontecer da noite para o dia. Talvez não tenhamos todas as respostas, talvez não seja tão nítido quais passos dar, mas uma coisa é certa: já sabemos qual caminho não seguir.

É tempo de homens reais, é tempo de homens humanos. Espero que esse artigo sirva como uma faísca que iniciará o incêndio necessário dentro do teu coração para agir, para que nós possamos mudar essa realidade, cultivar um futuro melhor e mais saudável para nós homens e para todos(as/es) afetados pela nossa masculinidade, atualmente tóxica. Abaixo vou deixar algumas recomendações para que você entenda melhor esse debate e tenha uma boa noção de como dar seus primeiros passos.

Documentário — A máscara em que você vive (Disponível também na Netflix)

Podcast — MEMOH (Disponível no Spotify, iTunes, TuneIn & Stitcher)

Blog — Papo de Homem

Vídeo — Carta aberta aos homens


Obrigado pela leitura. Luz na sua jornada, irmão!

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Escrevo textos pra internet na esperança de fazer algo por alguém.

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