Me avise quando estiver tudo bem

Porque precisamos compartilhar as coisas boas da nossa vida com a mesma frequência que xingamos muito no Twitter.

Miga, sua louca, vem aqui! Me conta do boy magia desse fds, me fala das palhaçadas da sua mãe. Amigos também servem pra que a gente seja mais leve — e mais feliz, tá? ❤

Da próxima vez que a gente se encontrar por aí, quero sua máxima sinceridade.

Não quero respostas padrão sobre os aspectos difíceis da sua vida. Quero saber das suas vitórias e de todas as coisas boas que aconteceram com você nos últimos tempos, por mais simples que elas sejam. Aquela pizza incrível que você experimentou, o dia em que saiu mais cedo do trabalho porque acabou a luz, o cachorro que a vizinha adotou e é uma graça, e por aí vai. Quero saber que na sua família está tudo ótimo. Quero que você se force a enxergar as coisas positivas que existem em cada dia da nossa rotina — porque elas estão lá, você sabe. Você as vive. Ainda que não dê assim tanta importância pra isso.

Quero que você me procure quando estiver tudo bem, também. Quero saber que tudo anda realmente leve, anda ótimo, afinal. Sem vergonhas ou poréns. E quero me alegrar com a sua felicidade e te incentivar a buscá-la em cada mínima coisa do cotidiano. Sempre.

De gente que esvazia, estamos cheios.

Você já sabe que eu sou seu ombro amigo, sua segurança e o lugar que você corre quando todas as coisas dão errado, mas, veja bem, nem sempre tá tudo errado. Quase nunca, aliás.

Reclamamos muito. Eu sei que no íntimo você também sabe disso. Não estar plenamente satisfeito com as coisas é um mecanismo que faz parte do nosso desenvolvimento pessoal; precisamos achar as coisas ruins para ir atrás de coisas melhores, acontece. E embora ninguém goste de sofrer e de ter problemas na vida, é natural que compartilhemos mais nossas dores que amores, mas estamos perdendo energia demais maldizendo uma determinada coisa ou situação. E isso contamina tanto nossos diálogos que, de repente, não há nada mais a ser celebrado. Não há mais centelha de coisa positiva para ser apreciada. E isso precisa parar.


O mundo é bão, Sebastião.

Há alguns anos atrás, quando estive no Chile pela primeira vez, conheci um grupo de indianos muito divertido que me ensinou coisas bem interessante sobre a cultura deles — e bastante também sobre a nossa. Eles, que trabalhavam com povos latinos quase que o tempo todo, comentaram comigo que “your people curse a lot.” Que falamos palavrão o tempo todo, criticamos o cliente, o chefe, o salário, os vizinhos e tudo o mais que for possível, realmente. Isso é praticamente padrão em qualquer ambiente corp brasileiro. Minha amiga indiana disse ainda que por questões culturais, as famílias ensinam que precisamos evitar palavras de “maldição” e reclamações porque isso atrai cada vez mais energia negativa para nossas vidas e nos impede de ver o que realmente existe de bom até mesmo nas coisas ruins. Faz sentido.

Amaldiçoamos como parte de um exorcismo diário em nossas vidas, mas isso acaba contaminando nossa existência. Se só olharmos para o que há de vazio, mais vazio estaremos em consequência, num ciclo que só enfraquece e nunca valoriza.

A doença, a morte, o acidente. Os erros, as traições, a inveja… Isso certamente faz de nós humanos, miseráveis, mas como diria a famosa rede de mercados: o que faz você feliz? Você sabe? Quais momentos da vida te dão real prazer?

Somos treinados pra reconhecer, destacar e enfatizar aquilo que é ruim.

Você não liga pra sua mãe quando tudo está certo.
Você raramente procura um conselho sobre ter um filho, comprar uma casa ou adotar um cachorro. Das coisas boas, decidimos a sós. Das ruins, dividimos para diminuir.

Buscamos os amigos quando precisamos de apoio. Quando desabafar se faz necessário. Temos até um pouco de vergonha de dizer quando as coisas estão bem. Parecemos metidos, pedantes, não nos é ensinado a escancarar nossa alegria porque a “inveja tem sono leve” e tal. Que doentes estamos.

Eu quero saber que a sua vida está maravilhosa. Quero que você se convença disso. Quero saber que mesmo quando o trabalho está puxado e as contas não fecham no final do mês, sempre dá pra comer um macarrãozinho com um vinho barato no final de semana. E que acordar tarde no domingo e passear no parque, foi uma delícia.

Que se houve morte, acidente ou drama, já passou. E que você, assim como eu, vai entender que tudo são ciclos. E que nós é que determinamos o quanto eles serão avassaladores pra gente.

Me liga se precisar sorrir, tá?

Estou aqui pra isso.