“Me Chame Pelo Seu Nome” me fez relembrar como é bom se apaixonar

Forte candidato ao Oscar, a paixão de Elio e Oliver é universal

Estreou esses dias no cinema o filme “Me chame pelo seu nome”, do diretor Luca Guadagnino, baseado no romance homônimo de André Aciman, uma obra sobre o primeiro amor, linda e exuberante. O longa se passa na Itália dos anos 1980, e as paisagens verdes, rios e cidades antigas de pedra enchem nossos olhos, em meio à história de amor entre o jovem Elio (Timothée Chalamet) e o estudante Oliver (Armie Hammer), alguns anos mais velho do que Elio.

Oliver está de passagem pela Itália, morando por seis semanas durante o verão na casa do pai de Elio, acadêmico que sempre recebe jovens pesquisadores. Nesse tempo, um desejo súbito toma conta de Elio, que está descobrindo sua sexualidade, o que é correspondido por Oliver. A partir daí, quando tomam coragem para viver esse amor, o tempo voa nessa paixão de verão.

O filme, com maestria e delicadeza, me levou de volta à adolescência, à descoberta da minha sexualidade e ao primeiro amor.

A produção, além de todas as suas qualidades técnicas (trilha sonora e edição impecáveis), conta a história de um desejo arrebatador, um romance daqueles com data pra acabar, e por isso intensos e inesquecíveis. E toda essa intensidade juvenil dos dois nos ajuda a lembrar em como ficamos duros com o passar do tempo, menos abertos à novas pessoas, novas sensações.

Me fez redescobrir as etapas do que é se apaixonar: o desejo, a irritação, a coragem para ir atrás do que quer, o medo da perda. Ao se descobrir atraído por Oliver, ao encontrar esse desejo em si, Elio vai atrás do que quer. Se empertiga todo ao ver Oliver, cada passo seu é calculado. Sabe quando sabemos que estamos sendo olhados pela pessoa que desejamos? A gente quer parecer mais, se endireita e sorri.

Elio aprende a falar sobre seus sentimentos e vai atrás de Oliver. É ótimo ver como o rapaz reflete muito sobre o que está sentindo, e confia em si mesmo para seguir seus instintos.

Amar alguém é um ato de extrema coragem e, como tal, exige capacidade e força. Se estamos inaptos a isso, a vida e o amor não nos toca. Não de verdade.

Elio não quer deixar de estar sozinho, não busca suprir sua carência, Oliver não representa um porto-seguro. Pelo contrário, é o desconhecido, é a efervescência de um novo mundo. E nós, buscamos o novo ou uma tábua para nos salvar do vazio e do tédio?

O fim do longa nos proporciona um dos melhores diálogos do cinema recente, onde o pai de Elio lhe dá uma bela lição sobre dor e aceitação. Aprendemos com “Me chame pelo seu nome” que deixar partir faz parte da construção de nós mesmos, da forma como amamos.

É um filme também sobre saudade, e quando os créditos finais subiram eu só pude ficar extasiado e com saudades de minha inocência.


Além da beleza desse filme, existe o fato de que LGBTQ’s retratados no cinema são um tema importante em minha vida e, no geral, as histórias de amor entre pessoas do mesmo gênero são retratadas de maneira estereotipada, ou segundo uma lógica heterossexual, amplamente difundida pela cultura.

Em “Me chame pelo seu nome” não há o “homem” e a “mulher”, como fica claro em alguns arquétipos de romances homossexuais, tampouco o filme aborda questões caras ao movimento LGBTQ, como a epidemia de AIDS, que de certa maneira afetou profundamente as relações não-hétero. Não o fez, não por não ser importante, mas por não precisar.

O desejo de Elio e Oliver passa longe da construção de identidades e é algo novo no cinema, inclusive. A homossexualidade ou não deles não é tema. O desejo e a paixão que são bases para o roteiro.

Esta produção se junta a outros excelentes filmes com protagonistas LGBTQ’s recentes, como “Carol” e “Moonlight”, que naturalizaram relações e nos abriram para o novo de alguma maneira.

Fico feliz em perceber, mesmo que ainda um começo, que é possível ver filmes LGBTQ’s se tornando apenas filmes, seja lá de qual gênero for. E isso é valioso.

“Me chame pelo seu nome” é uma história de amor que, a princípio, pode parecer específica: dois homens, de idades diferentes, em um país conhecido por sua proeza em liberar o que há de mais íntimo em nós. Mas a realidade é que essa história é universal.

Deixo aqui essa trilha sonora incrível: