Me desculpa, Jay Z e Obrigado, Baco

Foto que ilustra a faixa “Me desculpa, Jay Z”, do álbum Bluesman

Se você chegou até esse texto, provavelmente sabe quem é o rapper Baco Exu do Blues e que recentemente ele lançou um álbum chamado “Bluesman”. Na minha humilde opinião, é um dos melhores trabalhos de 2018 e que mostra um Baco totalmente desnudo e botando pra fora, com muita maturidade, seus medo, anseios, tristezas e conflitos internos. Entre as faixas, destaco aqui “Me desculpa, Jay Z”. Como homem negro, isso me soa importante demais.

Eu confesso que chorei bastante quando ouvi a faixa “Me desculpa, Jay Z” a primeira vez. E me sinto tocado sempre que escuto. A música une dois assuntos bastante complexos não só pra mim, mas de um modo geral: saúde mental + homem negro.


Tenho medo de me conhecer

Essa frase me acertou em cheio porque boa parte dos receios que tenho em procurar ajuda, lidar com alguns sentimentos e questões mal resolvidas, é o medo. Medo de cavar fundo na alma, descobrir coisas (que eu já sei que existem) e não conseguir lidar. Não conseguir lidar com a vergonha, com a exposição, com as fraquezas e com a minha insuficiência. Medo de me conhecer mesmo. Nos debates de masculinidade que faço, é um sentimento comum a outros homens também. Somos acostumados a reprimir o medo, não a lidar com ele.

To entre tirar sua roupa e tirar minha vida
Procuro um motivo pra sair da cama e melhorar meu autoestima
Quero Balenciaga estampada na minha camisa
Faculdade ou seguir meu sonho
O que que eu faço da vida

O cansaço de lidar com relacionamentos, autoestima, sonhos e dinheiro é algo que nos sufoca a ponto de nos colocar numa montanha russa de sentimentos e nos deixar perdido. Eu leio essas 5 linhas acima e consigo pensar no cara que desconta as frustrações da vida em sexo vazio de sentimento, que não consegue construir uma autoestima sólida que envolva não só sua beleza física, mas seu trabalho, suas qualidades, sua capacidade intelectual. Eu vejo um cara com talentos, mas vivendo num mundo onde precisamos ter dinheiro. E ter dinheiro pra ontem. Porque nos exigem isso e internalizamos como uma obrigação e demonstração da nossa capacidade enquanto homens. E por isso ele não sabe qual caminho seguir. Eu me vejo nessas linhas. Perdido por diversos momentos. Se questionando todo dia se o caminho que está seguindo é realmente o certo.

Se eu minto pra mim
Imagina pra você, meu bem

É esquisito pensar que, mentindo pra si, nenhuma relação que temos com o outro pode ser verdadeira. No geral, homens têm dificuldades em manter relações saudáveis porque estão sempre mentindo. Mentindo principalmente pra si mesmos. Por medo. Por insegurança. Por não saber lidar com a própria verdade. Quando a gente tem um problema e não procura ajuda, estamos tentando esconder a mentira, mesmo sabendo que ela ainda está lá. E parece que todo resto será mentira também, ainda que haja verdades nesse meio todo. A gente ama, mas as vezes é de verdade. E as vezes é de mentira.

Escrevi “obrigado, Baco” no título do texto porque, se um homem como ele, que é negro como eu, que é jovem como eu, consegue reunir forças pra se expor, pra reconhecer seus limites, suas fraquezas e dizer quase que de forma clara “eu preciso de ajuda”, isso me encoraja a fazer o mesmo. E talvez esse texto encoraja ainda mais outros homens. Estamos todos aprendendo a lidar com essas questões.

Enfim
Homens, sobretudo homens negros: não mintam mais pra si mesmos.
Nossa saúde mental pode e deve ser uma prioridade.