Me empresta o cor de pele?

Há uns dez anos a pergunta que intitula este texto era frequente nas aulas de educação artística lá na escola que eu estudava. Queria eu, agora, ser uma mosquinha e sobrevoar alguma aula de artes para ver se isso se perpetua e observar se o lápis que é emprestado ainda é aquele rosa bem clarinho.

Na semana em que é comemorado o Dia da Consciência Negra, é importante lembrarmos o preconceito racial ainda presente na nossa sociedade. Preconceito esse que é, muitas vezes, velado.

Há mais de 30 anos ativistas do movimento negro comemoram o dia 20 de Novembro, dia da morte do último líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi dos Palmares, usando-o para reafirmar a luta pela igualdade racial. Nesses anos houve, sim, mudanças e conquistas para os negros. Barack Obama se tornar o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos foi uma delas, se pensarmos que o apartheid americano chegou ao fim há pouco mais de 50 anos. Mas a luta continua porque, a cada novo caso de racismo, a população mundial, infelizmente, parece retroceder.

Mas será que o preconceito racial terá fim algum dia? É triste admitir, mas é algo que vem enraizado na cultura brasileira de forma implícita e, muitas vezes, inocente, é preciso dizer; ou será que paramos para pensar quando usamos expressões como a do lápis ou quando falamos “você está na minha lista negra”, “não sou tua negas” e por aí vai?

Mas, hein. Quem disse que o lápis rosa claro foi instituído o lápis que representa a cor dos humanos? Tá na Constituição? Porque desde que me entendo por gente que “lápis cor de pele” é o rosa claro. A questão vai além. Desde pequenos somos condicionados a brincar com bonecas e bonecos brancos, por exemplo.

Mas vamos além ainda mais:

  • E se você está em uma rua qualquer andando à noite e um negro vem vindo, você atravessa ou corre com medo de que seja assaltado?
  • E você já reparou quantos alunos negros há em faculdades particulares? E em públicas (sem a necessidade de cotas — nem vamos entrar nesse assunto porque né, caberia outro texto)?
  • Quantos alunos negros há em escolas particulares? E quantos professores?
  • Quantos modelos negros estampam capas de revistas? Atores? Apresentadores? Participantes de reality?
  • Quantos médicos negros existem em um hospital como o Einstein ou Sírio Libanês? E quantos pacientes?
  • E quantos negros emprestaram seus lápis “cor de pele” em uma escola pública qualquer, em uma periferia qualquer? E quantos desses não se deram conta que aquilo era uma afronta à cultura afro e achavam normal?

Os questionamentos não param por aí: Igualdade…?

E aí! me empresta o lápis cor de pele?
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Após 127 anos do fim da escravidão no Brasil ainda há quem aja como “senhor do engenho”.

#SemanaDaConsciênciaNegra