“Medéia” de Lars von Trier

A vida é uma jornada na escuridão onde apenas um deus pode achar o caminho. Aquilo em que ninguém ousa acreditar, Deus pode fazer acontecer.

Medéia é um filme feito para a TV dinamarquesa em 1988 e dirigido pelo famoso e polêmico Lars von Trier. O filme foi baseado em um roteiro deixado pelo também dinamarquês Carl Theodor Dreyer (grande diretor que filmou diversas obras-primas, entre as quais “O martírio de Joana D’arc” [1928] ,“O Vampiro” [1932] e “A Palavra”[1955]), morto em 1968. O filme relê a tragédia de Eurípedes através de uma perspectiva sombria e silenciosa.

A história é perpassada por longas tomadas de paisagens áridas, onde o barulho do mar ou do vento é muitas vezes a única trilha sonora. A fotografia do filme tem uma textura sempre avermelhada, o que dá a impressão que o tudo tem a cor da terra. É neste ambiente árido e estéril que acompanhamos o crescente desespero de Medéia. Na primeira cena, a vemos deitada na praia, imersa em seu abandono, quando chega Egeu, em um barco, e a saúda. Medéia lhe pede então que lhe dê refúgio em sua cidade e Egeu dá seu assentimento ao pedido.

Vemos então a cena em que Creonte oferece a filha a Jasão e este a aceita. Creúsa, a filha, é retratada como uma mulher jovem e graciosa ao passo que Medéia aparece envelhecida e com a cabeça sempre coberta por uma espécie de lenço. Medéia se desespera ainda mais quando Creonte, aproximando-se, diz que ela deve deixar a cidade e, após uma súplica de Medéia, oferece a ela apenas mais um dia. É esse o dia de sua “vingança” e de sua miséria.

Medéia prepara um veneno e unta com ele uma coroa. Pede depois a Jasão que permita que seus filhos levem a coroa como um presente à sua nova esposa. Jasão, sem saber do veneno, concorda em levar o presente. Vemos a cena em que Creúsa se fere com a coroa e, um pouco depois, a voz de Jasão dizendo que também Creonte havia se ferido e morrido com o veneno. Acontece então o clímax do filme, quando Medéia enforca, numa árvore, seus filhos. O mais velho, numa cena impressionante, entrega à mãe a corda e pede a ela que o ajude. Jasão, ao se deparar com os filhos pendurados em uma árvore, parte furioso em busca de Medéia, mas esta já não está mais na cidade. Vemos então Jasão correndo em círculos sobre a relva até cair exausto com sua espada na mão.

O filme termina com Medéia, a bordo do barco de Egeu, olhando para a câmera e soltando, finalmente, os cabelos. Em seguida, é apresentada na tela a seguinte frase:

A vida é uma jornada na escuridão onde apenas um deus pode achar o caminho. Aquilo em que ninguém ousa acreditar, Deus pode fazer acontecer.

Lars von Trier é um daqueles niilistas com uma sensibilidade religiosa aguçada (como Cioran ou como Bergman), que precisa sempre mergulhar no que há de mais profundo e vil na alma humana (como acontece em “Anticristo” e “Ninfomaníaca”) para tentar buscar ali alguma espécie de redenção. Às vezes a encontra (“Melancholia”), às vezes não (“Dancer in the Dark”). Nos dois casos, a realidade parece sempre — vista pelos olhos do cineasta — um caos que impera sobre tudo e que destrói toda virtude possível.

A Medéia de von Trier / Dreyer não é grega: seu mundo não está povoado de divindades que — para o bem e para o mal — interferem nos destinos humanos. É um mundo árido governado por uma vontade cega que despedaça o homem sem oferecer-lhe, ao fim, uma catarse possível.